quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

TRAPAÇA DE DAVID O. RUSSEL




AMERICAN HUSTLE, EUA, 2013, 138 MIN. DRAMA-COMÉDIA.
ELENCO:
JENNIFER LAWRENCE – ROSALYN – MULHER DE IRVING
CHRISTIAN BALE – IRVING ROSENFELD
AMY ADAMS – SYDNEY PROSSER - PARCEIRA
BRADLEY COOPER – AGENTE FBI RICHIE DIMASO
ROBERT DE NIRO – CHEFE MAFIOSO
Esta é a quarta indicação para o Oscar de David O. Russel, o ótimo diretor, nascido em 1958. A história é livremente baseada no caso do FBI, chamado Abscam, por volta do fim dos anos setenta e começo dos oitenta. Christian Bale, careca e com uma poderosa barriga, é Irving Rosenfeld um escroque que vende arte falsificada e rouba pessoas desesperadas para obter  empréstimo bancário, que lhe entregam cinco mil dólares para conseguir o dinheiro necessário e tempos depois ficam sem nada, com a desculpa de Irving de não ter dado certo. Amy Adams é a linda Sydney Prosser, que ele conheceu em uma festa de piscina na casa de um amigo. Apesar de sua aparência falsificada, eles se apaixonam por serem almas iguais. Irving é casado com uma ex-vigarista, a belíssima Jennifer Lawrence, que além de ser depressiva não contém sua língua e pode por as coisas a perder de uma hora para outra. O filme é ágil, com vários diálogos e muitas mudanças de situações, que precisam ser seguidas com atenção. Bradley Cooper faz o agente do FBI, Richie DiMaso, um jovem que quer ajudar a por fim nos roubos de quadros e ainda por cima faturar sua carreira com o desmembramento de um grupo que queria voltar a abrir os cassinos de Atlantic City. Tudo muito complicado e perigoso. Pego de calças curtas a dupla Irving e Sydney, que se passa por uma milionária inglesa, são obrigados a fornecer pistas dos figurões do crime para o FBI, em troca de liberdade quando o caso fosse esclarecido. Tudo muito conhecido aqui como alhures. Mas essa “trapaça” se torna uma comédia inteligente, com roupas fantásticas dos anos setenta e oitenta. Amy, vestida com os trajes das lavanderias de Irving, torna-se refinada e ostensivamente sexy. O trio principal é o casal de amantes e Richie, que força a barra para descolar o máximo de dinheiro do FBI para sua missão dar certo. Rosalyn é uma figura a parte, que melará as coisas mais depressa do que contavam. Após o encarceramento do prefeito, deputados e senadores corruptos, as glórias do sucesso de Richie não são exatamente o que ele esperava. Ótimas cenas cômicas, outras corridas e carregadas de emoção com um elenco escolhido a dedo. O filme abocanhou três Globos de Ouro. Não é apenas uma comédia, mas uma severa crítica ao sistema de corrupção americano, como é O Lobo de Wall Street, que por vezes se parecem muito. Trapaça tem dez indicações para o Oscar. Dez? Um exagero.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

ALABAMA MONROE DE FELIX VAN GROENINGEN




THE BROKEN CIRCLE BREAKDOWN, BÉLGICA, 2012, 110 MIN. DRAMA
ELENCO:
JOHAN HELDENBERG – PROTAGONISTA
VEERLE BAETENS – PROTAGONISTA
Laureado pelo Prêmio do Público de Melhor Ficção do Festival de Berlim de 2012, agora concorre como melhor filme estrangeiro pelo Oscar. Seu diretor, Felix, baseou-se em uma peça que assistiu uma mistura de melodrama e musical, que o deixou profundamente impressionado. O ator da peça é também o do filme. Trata-se do destino de duas pessoas jovens e profundamente apaixonadas, vivendo na região de Flandres, rural, a mesma do diretor. Seus pais eram hippies e isso facilitou a identificação com os personagens. Os jovens, ele um cantor de música bluegrass, um estilo country, que tem uma banda muito conhecida e respeitada e ela, linda, uma jovem tatuadora, que adere ao grupo musical. Depois de algum tempo de convívio a namorada engravida e ele se desespera, mas imediatamente fica feliz pela ideia de ser pai e reformar sua casa. A filhinha já está com seis anos e os três não poderiam ser mais felizes. Ela é meiga, linda como a mãe e muito carinhosa. Neste momento tão fascinante, uma doença seríssima atinge a garotinha sem muitas chances de cura. Todo o grupo musical solidariza-se com o casal e a menininha. Mas as coisas são como a realidade e o pior acontece. A mãe não consegue se recuperar e o convívio entre marido e mulher altera-se completamente. Para tanto o diretor lança mão de flash backs, para mostrar como as coisas podem mudar nossas vidas, dependendo da gravidade. E essa era a maior de todas. Com o passar do filme tudo se deteriora, como diz o título original “o colapso do círculo quebrado”. Até o final é uma sucessão de tragédias que culminam com um triste desfecho. É uma narração magnífica, mas para incomodar mesmo. A finitude da vida e a necessidade de ser vivida a cada momento nos são jogadas no rosto. Elenco perfeito e o diretor belga possui grande sensibilidade artística. Imperdível. Felix é a última imagem, diretor de 37 anos.

UMA FAMÍLIA EM TÓQUIO DE YOJI YAMADA




TOKYO KAZOKU, JAPÃO/2013, 146 MIN. DRAMA
ELENCO:
YU AOI
SATOSHI TSUMABUKI
Este é um remake do clássico dos anos 50 do diretor japonês Yasujiro Ozu, em uma versão para a Tóquio moderna. É um filme espetacular e imperdível sobre uma família, agora descrita por Yoji Yamada, com 80 anos. Os pais aposentados, nos fins dos sessenta anos e morando em uma ilha paradisíaca, têm os três filhos  em Tóquio, essa grande metrópole, pelas facilidades e bem estar que oferece, aparentemente. O mais velho é médico com uma grande clientela e sua mulher não sabe o que fazer para agradá-lo, bem ao estilo oriental. Eles têm dois filhos, um adolescente e um pequeno, mas ambos não são como as gerações anteriores, portanto mais atentos aos desejos consumistas do que aos estudos. A filha também é casada e cabeleireira. O caçula trabalha com cenários de teatro. Como há muito tempo não viam os pais, pois não voltaram mais à ilha, a mãe, agora com sessenta e oito anos, e o pai com mais de setenta resolvem fazer uma surpresa e visitar os filhos viajando em um trem bala. Aproveitaria a oportunidade para prestar pêsames a um colega de escola. Nesse instante começa a confusão na família tradicional japonesa, que representa à perfeição qualquer cultura.  É uma crítica contundente a falta de consideração que os pais da atualidade vêm recebendo dos filhos emancipados e a necessidade de carinho e afeto para todos. Continuam quase como mantenedores, sem receber qualquer gesto de gratidão. Pertencem a uma boa classe social e amam verdadeiramente seus filhotes. Mas os tempos mudaram e com eles terão de mudar também os “velhos”. São autossuficientes, mas seria inimaginável, no Japão, ficarem hospedados em um hotel, já que dois deles eram casados e bem estabelecidos. Essa imagem idílica será totalmente rompida, mas a mãe sempre compreenderá os desafios dos filhos muito ocupados para recebê-los. O caçula é parecido com ela, mas muito diferente do pai, para frustração de ambos. Com o decorrer do filme veremos como vão se resolver os conflitos de gerações, com diálogos espetaculares e posturas mais ainda. O casal central se ama e mostra uma enorme força de caráter e compreensão. A mãe, aparentemente a mais frágil nessa cadeia, é um monumento de acolhimento e compaixão. O pai se transformará com o decorrer da trama e o filho pródigo parece ser o mais sensato da família, apesar da preocupação que ainda estava dando. Uma história muito bem contada e amarrada com pontas firmes e preciosas. É sutil e ao mesmo tempo escancara as diferenças brutais de geração em tão pouco tempo. Uma ótima fotografia, direção espetacular e um roteiro perfeito. Imperdível para avós, filhos quase grisalhos e netos. Os atores, infelizmente desconhecidos neste lado, dão o melhor de si, principalmente a noiva do caçula, uma jovem atriz bonita e extremamente natural em sua interpretação e concepção de amor. Contar mais seria estragar a surpresa.

PHILOMENA DE STEPHEN FREARS





EUA/GRÃ BRETANHA, 2013, 98 MIN., DRAMA
ELENCO:
JUDI DENCH – PHILOMENA
STEVE COOGAN – MARTIN SIXSMITH

Esse ótimo filme de Frears, o mesmo diretor de A Rainha, conta com quatro indicações para o Oscar deste ano e foi baseado no livro de Martin Sixsmith, The Lost Child of Philomena Lee. O coautor e produtor é o comediante Steve Coogan, em uma brilhante apresentação junto à magnífica atriz inglesa, Judi Dench, que torna tudo o que participa em ouro. Frears nos conta uma história linear e bastante compreensível, apesar do peso do drama, dando toques de humor para escapar de um melodrama qualquer.  Philomena foi uma jovem alegre do início dos anos 50, na Irlanda. Engravidando muito jovem é levada pelos pais e abandonada em um convento, onde as freiras recebiam essas meninas, fazendo-as trabalhar desumanamente e dar os filhos para adoção, depois de nascidos. Eles eram, na realidade, vendidos às famílias ricas americanas e o dinheiro usado no convento?! Antony, filho de Philomena, parte, talvez aos três anos, para seu desespero. Após cinquenta anos, a vemos entristecida com uma foto na mão, despedindo-se da filha que vai trabalhar em uma festa. Mas ela percebe que algo está muito errado e tenta persuadir a mãe a contar seu problema. Nesse ínterim, um ex-jornalista da BBC está em um evento em que a filha de Philomena trabalharia e lhe sugere se não gostaria de fazer uma história sobre um drama humanitário.  A princípio ele recusa, mas acaba cedendo por falta de outro trabalho. Aí vamos saber o que realmente ocorreu. Philomena tivera seu filho vendido e estava para fazer cinquenta anos, sendo que jamais se esquecera da criança que era bastante sensível e amorosa. A editora de Martin impõe que os dois sigam juntos para os Estado Unidos e contem a verdade. A viagem, no começo, parece que vai ser um desastre, pois a heroína fala muito e é uma pessoa simples e dotada de muita fé e compaixão. Aliás, essa é a mensagem do filme. Chegando lá, fica empolgada com os hotéis, as comidas e as pessoas, mas seu acompanhante sempre a trás de volta à verdadeira finalidade. Não demoram muito e descobrem que ele era um famoso advogado, trabalhando com dois presidentes americanos. Martin Sixsmith, através de um vídeo, percebe que já havia visto o rapaz. Conseguem rapidamente achar seu nome, mas infelizmente algo grava havia acontecido. Philomena quer voltar imediatamente, mas acaba mudando de ideia e deseja saber tudo até o fim. Essa é uma característica bem humorada dos cúmplices, quando um pensa ao contrário do outro, o parceiro acaba cedendo. Judi Dench, segundo o jornal Estado de São Paulo, quis conhecer Philomena para poder compor a personagem na dose certa. Os heróis do filme mostram uma química perfeita, fazendo com suas apresentações um filme muito bom. Imperdível, em Veneza conquistou a crítica e público. Philomena, ainda viva, trabalha em um projeto onde várias mães dessa época estão à procura de seus filhos e já falou com o atual papa sobre o assunto. Imperdível.