domingo, 5 de fevereiro de 2012

CAVALO DE GUERRA DE STEVEN SPILBERG





WAR HORSE, EUA, 2011, DRAMA DE GUERRA, 146 MIN.
ELENCO:
PETER MULLAN – PAI
EMILY WATSON – MÃE
JEREMY IRVINE – ALBERT

Inspirado no livro do inglês Michael Morpurgo, Spielberg dirige esse ótimo drama de guerra, com uma belíssima recriação da Inglaterra de 1914. Passa-se, portanto às vésperas e durante a Primeira Guerra Mundial, uma das mais sangrentas e violentas de todas. Um casal de fazendeiros, em Devon, aluga sua propriedade rural de um rico e inescrupuloso proprietário de terras. Encontram-se cobertos de dívidas e o solo, extremante pedregoso, não ajuda o cultivo. Peter Mullan precisa comprar um cavalo de trabalho para ajudar a arar a terra, mas ao deparar-se com um jovem puro sangue, durante um leilão, faz o impossível para adquiri-lo. Pensando ter feito a coisa certa, vê-se em uma situação difícil, pois o cavalo não aceita ser domesticado. Seu filho adolescente Albert, entretanto, era apaixonado por Joey desde seu nascimento, pedindo ao pai para que o deixe trabalhar com o animal. Uma intensa ligação surge entre os dois. Joey mostra-se inteligente e muito forte, conseguindo arrancar as pedras do solo e arar o campo, tirando a família do buraco. Com o início da Primeira Guerra Mundial, o casal é forçado a vendê-lo a um tenente inglês, que igualmente se apaixona pelo cavalo. A cavalaria tinha seus animais massacrados, por sua posição sempre à frente das batalhas e quando sobreviviam, já enfraquecidos, serviam para puxar canhões e outras armas pesadíssimas. Contudo, Joey sempre cai nas graças de quem o trata por sua forte personalidade. Em dado momento, Albert junta-se à cavalaria britânica, com o firme propósito de encontrar seu velho amigo. Com o decorrer da guerra Joey encontra abrigo, na França, passando a morar com um velho fazendeiro e sua neta, que adota o animal. Entretanto, após algum tempo, volta à guerra, mas desta vez para o lado inimigo. Depois de muito sofrimento, consegue desvencilhar-se do batalhão alemão e sai em busca da liberdade. É encontrado quase morto e enrolado em arames farpados. É um filme que procura emocionar a platéia, contudo tem um rico, mas previsível roteiro. Concorre no Globo de Ouro como melhor filme e trilha sonora. Fotografia e imagens de primeira qualidade. A animação As aventuras de Tintim, de Spielberg, também se encontra nas telas da cidade com boa cotação.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

TOMBOY DE CÉLINE SCIAMMA









DRAMA – FRANÇA 2011 – 82 MINUTOS
ELENCO:
ZOÉ HÉRAN – LAURE/MICHAËLL
MALONN LÉVANA – JEANNE

Esse ótimo filme da jovem diretora e roteirista Céline Sciamma ganhou o Teddy Bear, Urso de Ouro Gay, na Alemanha. O filme, de certo modo, conta as próprias dificuldades da escritora em sua infância. A família de Laure (magnífica Zoé Héran) muda-se para a periferia de Paris e lá chegando, a garota, que tinha problemas com sua sexualidade, resolve vestir-se de menino, Michaël, e cortar os cabelos bem curtos, com o consentimento dos pais, que achavam que era apenas uma brincadeira sem consequências. Com sua irmãzinha Jeanne tem um ótimo relacionamento e parte para buscar meninos de sua idade para brincar, uma vez que era adepta de esportes e jogava futebol muito bem. As principais cenas são filmadas em um bosque e lago, onde eles podiam brincar e se movimentar com muita naturalidade (curiosidade - essas crianças são amigas na vida rela de Zoé). Laure ensaia diante do espelho atitudes que a deixem parecida com os garotos, como cuspir, mostrar a língua, posturas masculinas de garotos pequenos. Sua irmã não se aborrece por ela se passar por menino e até a apóia, dizendo que é ótimo ter um irmão mais velho para protegê-la. Porém as férias chegam ao fim e ela terá de encarar os amigos na escola, vestida de menina. Após uma briga de crianças, sua mãe decide por fim à farsa e a leva para pedir desculpas aos amigos e à menina que se apaixonara por ela. A obra começa bem leve, com brincadeiras sem importância, mas chegando ao terço final, o tom sobe, pois vemos que é impossível para essa criança mudar sua sexualidade em formação. Tudo é feito de maneira leve e claríssima, para que não se pense que isso ocorre de uma hora para a outra na vida dos homossexuais. Belo filme!

O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS DE TOMAS ALFREDSON











TINKER, TAILOR, SOLDIER, SPY (soldador, alfaiate, soldado, espião)
REINO UNIDO-FRANÇA-ALEMANHA/2011, 127 MIN. SUSPENSE

ELENCO:
JOHN HURT - CONTROL
TOM HARDY - RICKI TARR
COLIN FIRTH - BILL HAYDO
GARY OLDMAN - GEORGE SMILEY
TOBY JONES - PERCY ALLELINE
DAVID DENCIK - TOBY ESTERHASE

Nada como ler um bom livro de suspense do mestre John Le Carré, principalmente O Espião que Sabia Demais (Tinker, Tailor, Soldier, Spy). Adaptado para o cinema, dirigido pelo premiado diretor sueco Tomas Alfredson do ótimo Deixa Ela Entrar e roteiro de Bridge O’Connor e Peter Straughan, este filme tem tudo para agradar – da fotografia, enredo, ao desempenho espetacular de um time de estrelas. Passa-se em 1973, durante os anos paranóicos da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética. O serviço de inteligência britânico vê-se compelido a chamar de volta um agente aposentado, George Smiley do M16, quando o chefe, John Hurt (Control), acredita que haja um agente duplo infiltrado entre seus principais homens. Uma operação na Bulgária havia sido abortada e George Smiley fora retirado do corpo de agentes secretos. Aceitando o atual cargo, seu chefe logo morre, um elemento a mais para concluir com sucesso sua missão. Agente denso e perspicaz vai fundo nas investigações explorando também o lado psicológico. O enredo é muito bem estruturado, com uso de flashbacks para melhor entendimento do público. Não é necessário dizer que toda atenção é requisitada para melhor compreensão das ações. A ambientação dos anos setenta é perfeita, com salas lotadas de arquivos e papéis soltos, telefones fixos, sexo, interrogatórios, uso constante de boots, ou telefones públicos e roupas impecáveis. Dinheiro público é gasto sem que se saiba bem para onde vai e o primeiro ministro é constantemente solicitado, temendo ter de apelar para os “primos” americanos. Os quatro agentes são de inteira confiança e achar o traidor não será tarefa fácil, tendo que investigar a passada ação mal sucedida. O título original é a designação que o chefe dava para cada um de seus colaboradores. O próprio Le Carré atuou como agente da M16 de 1960 a 1964, emprestando uma total credibilidade a seus livros. Com atuações excelentes e discretas e uma ótima direção é um filme imperdível para os amantes do gênero. O filme está muito bem cotado para o prêmio Bafta de filme britânico. John Le Carré vive hoje na Cornualha e teve vários livros adaptados e o que mais apreciou foi O Jardineiro Fiel dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

OS NOMES DO AM0R DE MICHEL LECLERC








LE NON DES GENS, FRANÇA/2010, 100 MINUTOS
COMÉDIA
ELENCO:
JACQUES GAMBLIN – ARTHUR MARTIN
SARA FORESTIER – BAHIA BENMAHMOUD

Em um roteiro bem interessante, bem interpretado e dirigido, os protagonistas iniciam o filme contando sobre suas raízes. Bahia é filha de um argelino e uma ex-hippie francesa. Teve uma infância monótona até que seus pais lhe arranjam um professor de piano e esse fato mudará suas perspectivas. Essa jovem se orgulha de sua linhagem, sendo feliz e totalmente fora dos padrões considerados de normalidade. Tem fortes convicções políticas de esquerda. Arthur Martin parece ser o típico cidadão francês já no início de seus cinquenta anos. Ele também é descendente de imigrantes, judeus, e em sua casa tudo era tabu e não se falava do passado. Até seu nome fora mudado. Tendo um jeitão de conservador passa a ser alvo de Bahia que gostava de mudar a posição política dos homens, graças a seus atributos físicos e inteligência. O roteiro do diretor vai explorar o preconceito racial atual na França, tanto político como social, fazendo disso uma comédia muito inteligente e pertinente. Arthur se encanta pelos atributos físicos de Bahia e também pelo seu modo espontâneo e aberto como vê a vida. Com o passar do tempo apaixonam-se, mas as famílias terão um papel fundamental para quase desestruturar as ambições dos apaixonados. O roteiro é muito divertido explorando piadas que esses imigrantes fazem de si mesmos. Muito bem interpretado e dirigido, o filme ganhou dois prêmios Cesar na França, como melhor atriz para a genial Sara e melhor roteiro. A atuação de Jacques Gamblin é impecável. Mais não se pode falar com risco de perder a graça.
Ótimo programa!

“UM DIA” DE LONE SCHERFIG










ELENCO:
ANNE HATHAWAY – EMMA
JIM STURGESS – DEXTER

Essa história de amor cujo roteiro e livro, bem alinhavados, são do escritor inglês David Nicholls baseada em seu último best-seller, compõem este filme. Os belos e bons protagonistas, junto com cenários interessantes e uma ótima fotografia contam a sina de colegas de universidade na escocesa Edimburgo, no ano de 1988. Em 15 de julho desse ano formam-se e vão parar na casa de Emma, que sempre tivera uma queda por Dexter. Apesar do clima nada rola, a não ser uma amizade e atração mútuas. Desse dia em diante passam a ver-se por quase 20 anos sempre no mesmo dia. Muito diferentes em tudo, Emma trabalha, agora, como garçonete em Londres e sonha ser uma escritora. O mulherengo Dexter é nascido em uma rica família e, sustentado pelos pais, acaba sendo apresentador de um programa de televisão noturno de gosto muito duvidoso e teor zero. Linda e competente, a tímida Emma acaba sendo a melhor amiga de Dexter apoiando-o e salvando-o de várias encrencas. Todo ano ao se reencontrarem percebem um forte sentimento amoroso que não deslancha nunca, apesar de terem tudo para ficarem juntos. Os pais de Dexter, inconformados com seu futuro, pressionam-no para mudar de rumo, sem sucesso. Emma, ao contrário, acabara namorando um colega de trabalho não realizado, mas tem seu apoio para mostrar seus escritos que virarão um livro de grande sucesso. Formada e profissionalmente realizada afasta-se um pouco do caminho de Dexter, que fora para a Índia e em seguida para a Europa, logo após a formatura, antes de voltar para casa. Sem amar suas namoradas, Dexter envereda-se por uma direção perigosa. Depois de muitos anos, reencontram-se e decidem que o melhor seria mesmo ficarem juntos. A felicidade do casal irradia-se por todos os lados e suas vidas ganham novo rumo. Ocorre que um drama os aguarda e isso quebra todo élan dos espectadores que seguem a história de amor. A continuação que se segue é bastante desnecessária, pois só prolonga uma trama que já deveria ter acabado. Bom programa com a atuação da sempre expressiva e grande atriz Anne Hathaway.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O GAROTO DA BICICLETA DE JEAN-PIERRE E LUC DARDENNE








LE GAMIN AU VELO, BÉLGICA, FRANÇA, ITÁLIA, 2011 DRAMA
ELENCO:
CÉCILE DE FRANCE – SAMANTHA
THOMAS DORET – CYRILL

Esta história dramática e de belíssima estética dirigida pelos irmãos belgas Jean e Luc Dardenne, nos revela o drama de um garoto de onze anos, Cyril, que é rejeitado pelo pai. Sobre sua mãe não saberemos nada. Em Seraing, está internado em uma escola para meninos problemáticos e abandonados pelos pais. Durante toda a narrativa, será um garoto sensível, problemático e quase indomável pela perda do amor de seu pai, que não quer saber mais do filho e deseja um recomeço de vida livre. Inconformado com tamanha rejeição comete os mais diversos desatinos para ser aceito e amado. É uma narração nervosa deixando o espectador no limiar de grande ansiedade. Cyrill (ótimo Thomas Doret) terá uma única pessoa que aceita, a jovem mulher que conhecera em um ambulatório médico. Eles têm uma empatia mútua e Samantha se aventurará a cuidar do menino, como sua guardiã nos fins de semana. Todavia, ele é intocável, não aceitando carinho de qualquer pessoa, pois o único indivíduo que quer é seu pai, que se sente mal em sua presença. Essa realidade vai aproximá-lo da marginalidade, envolvendo-se com um traficante de drogas. Samantha, como uma fada madrinha, não poupará esforços para ajudá-lo e sente um amor realmente maternal por ele. O desenrolar da narrativa mostra os vários conflitos interiores de Cyrill, sua desesperança e sua evolução de um ser humano atormentado e difícil para o garoto terno e corajoso que é. A interpretação dos atores principais foge da pieguice deixando que nos envolvamos verdadeiramente nesse drama tão verdadeiro. Ótimo programa, vencedor do Grande Prêmio do Júri no último festival de Cannes. Os irmãos belgas Jean-Pirre e Luc receberam a Palma de Ouro em Cannes pelos filmes Rosetta (1999) e A Criança (2005). Grandes diretores e roteiristas.

A CHAVE DE SARAH DE GILLES PAQUET-BRENNER













ELLE S’APELLE SARAH, FRANÇA, 2010 DRAMA 111 MINUTOS

ELENCO:
MÉLUSINE MAYANCE – SARAH
JULIA JARMOND – KRISTIN SCOTT THOMAS

Outro ótimo filme francês em cartaz, revelando o talento de outra criança, Mélusine Mayance. Esse docudrama passa-se entre os anos de 1942, durante a ocupação nazista na França colaboracionista e a atualidade. As primeiras cenas são da Paris da Segunda Guerra Mundial, no bairro pobre de Marais, ocupada pelos judeus franceses, que seriam transferidos para o Velódromo de Inverno, em julho de 1942, onde ficaram por cinco dias sem água, alimento ou higiene, sendo que alguns se suicidaram por desespero e os demais foram enviados para os campos de concentração. São cenas fortes e realmente chocantes, pois foca principalmente a família da menina Sarah. Na hora da deportação as crianças serão separadas de suas mães, que desesperadas tentam pegar seus filhos em vão. Estavam sob o governo francês de Vichy. O fio condutor desse filme é a jornalista americana, Julia Jarmond (ótima Kristin Scott Thomas) que escreve uma matéria para a revista que trabalha sobre o genocídio conduzido durante aquele governo. Ela vive em Paris com o marido e filha adolescente há vinte anos e agora recebe um apartamento de Marais, hoje um bairro cobiçado, como herança. Curiosa para saber quem vivera lá, devido ao seu trabalho, começa uma investigação intensa sobre o antissemitismo e os moradores do prédio naqueles anos da II Guerra Mundial e acaba descobrindo que a família de Sarah fora moradora de parte do apartamento onde vivera seu marido na infância. Indagando o marido e seu sogro, provoca um desconforto familiar muito forte, pois eram anos que queriam esquecer e um episódio pouco discutido. Sua investigação sobre Sarah a leva de volta para os Estados Unidos e novamente para a Europa, Itália depois França. Todos os envolvidos nessa trama querem afastar-se da verdade, mas para ela o que importa é saber o destino das pessoas que foram exiladas, denunciadas pelos próprios franceses. A menina Sarah fora um personagem forte e sofrido, tendo escapado dos nazistas e adotada por uma boa família, finalmente seguido para outro país. O temor de Sarah é que tem certeza de ter provocado uma tragédia ao esconder o irmão caçula dos guardas da SS. O desenrolar do filme é angustiante e muito interessante, uma vez que a vida de todos será mudada à medida que os fatos forem sendo esclarecidos e finalizados. A direção é ótima e o desempenho das duas atrizes excelente, valendo o filme. Uma história muito bem contada cheia de surpresas e baseada no best-seller de Tatiana De Rosnay, com o mesmo título francês. Um programa imperdível, uma vez que é baseada em fatos tão incômodos como a perseguição antissemita.