domingo, 24 de janeiro de 2010

AMOR SEM ESCALAS DE JASON REITMAN








Esse excelente filme do diretor de Obrigado por Fumar e Juno, nos presenteia com uma estória fantástica sobre as conseqüências da última crise econômica mundial, baseada no livro homônimo de Walter Kirn. O protagonista, Ryan Bingham, interpretado pelo superlativo e belo George Clooney, trabalha em uma firma terceirizada que realiza demissões de funcionários de grandes e pequenas corporações, que se vêem obrigadas a despedir seus empregados para enxugar orçamentos. É um excelente executivo que gosta do que faz e o faz muito bem, após anos de treinamento e quase 10.000.000 de milhas percorridas dentro dos Estados Unidos (ele passa a pertencer a um seleto clube de apenas 7 pessoas). Ryan, além das demissões feitas com maestria a fim de não causar ainda maiores danos morais às pessoas e motivá-las a mudar de vida, dá conferências de como se livrar da carga emocional e material que isso ocasiona. Up in the Air, o título em inglês, nos diz muito mais sobre isso, significando que tudo está no ar, em contínua transformação, pois como ele mesmo diz a vida é deslocamento. Mr. Empty Backpack, seu apelido, aconselha seus ouvintes a deixarem a carga pesada para trás, uma vez que terão de viajar muito e as alças de uma mala cheia de recordações e sentimentos seria muito pesada e impossível de ser carregada. Para ele tudo é milimetricamente pensado e reduzido ao mínimo para a subsistência de uma pessoa prática e sem vínculos. Esse papel, que lhe cai bem como um terno Armani, revela o quanto suas expressões e figura estão amadurecidas e exatas para essa função. Seu lar é o avião e os lugares que mais gosta são os hotéis e os aeroportos, onde, por sua milhagem, encontra enormes regalias. A vida amorosa e sexual é tão comprimida como sua pequena mala. Nada de definitivo, somente encontros fortuitos dentro de banheiros de aviões ou qualquer outro cubículo onde caibam duas pessoas bastante flexíveis. Durante essa tragicomédia, onde a família é um pequeno adendo, conviverá com duas mulheres, as quais, de certa forma mudarão seu modus operandi. Tratam-se de Alex (ótima Vera Farmiga), uma executiva madura, bem sucedida e ainda mais cínica do que ele e a jovem de 23 anos, Natalie (talentosa e convincente Anna Kendrick). Natalie é um gênio recém formado, que propõe diminuir os gastos da firma, oferecendo demissões via internet! Nada mais grosseiro poderia ser sugerido, mas agrada ao presidente da companhia. Ela será sua pupila por algum tempo, para que possa se familiarizar com essa dura rotina que Clooney faz com maestria e delicadeza. Alex tornar-se-á uma espécie de “namorada do ar”, por quem se encontrará em processo de paixão despercebida, por serem almas tão parecidas. Tudo parece correr muito bem, até que seu chefe o chama de volta à terra, onde terão de permanecer, pois o processo via internet mostrara-se bastante eficaz. Porém esse não é, felizmente para o espectador, um filme com happy end, como a partir da metade parece ser. As coisas saem um pouco diferente do sugerido (up in the air) e ele, para nossa sorte, terá grandes decepções. Um suicídio ocorrido com uma das demissões mudará o rumo do enredo. Nosso impessoal e potente herói terá de continuar a viver em seu lugar preferido– no ar e no avião, com a asa encostada na estrela mais próxima! Reitman nos conduz a desejar um personagem que seja inteiro, completo e realizado consigo mesmo apesar de humano. Um filme, que como seus outros dois, foge do lugar comum. O enredo do livro foi bastante modificado, pois os personagens femininos de Alex e Natalie não existem. O filme foi considerado o melhor de 2009. Reitman declarou-se um viajante compulsivo e isso faz com que sua direção seja ótima e as cenas de hotel e aeroportos perfeitas. Não percam!!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

CHÉRI DE STEPHEN FREARS





SPOILERS!

Trata-se de um drama romântico, baseado no romance de Collete lançado em 1920. O narrador nos conta que na Paris de 1906, durante a chamada Belle Époque, as famosas cortesãs francesas tornaram-se milionárias com seus amantes aristocráticos e riquíssimos. Esse é o caso da linda Michelle Pfeiffer, atuando como Lea de Lonval, amiga da excelente Kathy Bates, antiga companheira de profissão. Essa mulher tem um filho dândi e problemático de 19 anos, que adorava Lea e a chamava de fada madrinha. Viciado em drogas e bebendo muito é levado por Lea à sua mansão na Normandia a fim de se recuperar, quando descobrem uma súbita atração sexual. Chéri (Rupert Friend) é conduzido e apresentado aos prazeres pela cortesã, que o trata com extrema doçura e carinho. Seis anos depois, ainda continuavam o affair e parece que além da atração existente havia algo mais profundo entre o casal de idades tão diferentes. Ocorre que Lea é belíssima, inteligente e com uma aparência muito jovem; além do mais lhe sobram talento e cultura para conquistar qualquer homem. Esse idílio é bruscamente interrompido com o anúncio, pela mãe de Chéri, que ele se casaria em um mês, com Edmee, também filha de outra cortesã. Esse jovem casal de “órfãos”, pois não conheciam os nomes dos pais e tiveram pouquíssimo convívio com as mães, parte em lua de mel para a Itália. Lea sente-se traída, pois ele já sabia do plano e nada falara. Cheia de amor e desespero viaja para Biarritiz, a fim de encontrar algum consolo nessa paria. Realmente um jovem se aproxima dela, mas não a faz esquecer-se de Chéri. Os jovens voltam de sua viagem e Lea não estava mais lá. Com o passar do tempo recebe uma carta avisando-a que Chéri havia saído de casa e abandonado Edmee. Ansiosa e feliz volta para Paris, pensando em como seria fácil arranjarem o divórcio. De fato, Chéri a procura, mas encontra uma Lea diferente da que conhecera, fazendo planos e tomando as primeiras decisões para sumirem da casa. Essa não era a pessoa boa e maravilhosa por quem se apaixonara. Lea jamais aceitaria tê-lo como amante casado. Isso feriu profundamente seu orgulho. Ele a deixa sem voltar a cabeça para trás, com a sensação de que havia reconquistado sua liberdade. Ela o olha pela janela e roga para si mesma que ele volte! A primeira Guerra Mundial sobrevém e Chéri luta nas batalhas, voltando ileso. Uma grande injustiça ocorrera com esses dois personagens, diz o narrador. Lea nascera muitos anos antes do que Chéri e este descobrira que jamais poderia amar outra mulher que não fosse ela. Desesperado dá um tiro na cabeça e morre. Um tenso final quase Shakespeariano, mostrando o rosto da bela Michelle Pfieffer em close, arremata o filme. O figurino e ambientações são muito bons, com ótimo comando do diretor inglês de A Rainha.

domingo, 17 de janeiro de 2010

BONS COSTUMES DE STEPHAN ELLIOTT









Essa ótima comédia romântica, baseada em uma peça de Noel Coward, adaptada e dirigida pelo diretor de Priscilla, a Rainha do Deserto, passa-se nos anos 20, após a primeira Guerra Mundial, na Inglaterra aristocrática. O filme inicia-se, em branco e preto, com a corrida do Grand Prix na França e para surpresa o vencedor, ou melhor, vencedora é uma lindíssima mulher, Laritta (excelente Jessica Biel). Aplaudida calorosamente, o jovem John Whittaker (Ben Barnes) encanta-se por ela e se casam. Estando há algum tempo no continente, sua mãe espera ansiosamente pelo seu retorno, pois estando a família afundando em falência, manipulara planos para reerguê-la. A surpresa de todos é enorme quando John chega casado com essa magnífica americana de Detroit, com os curtos cabelos tingidos de platine blonde, segura, bem informada e absolutamente sedutora. A sogra e suas filhas são incapazes de aceitá-la por vários motivos, inclusive por seu talento e desprezo aos valores tão preciosos aos ingleses aristocráticos: horários rígidos das refeições, falta de privacidade, sentimentos mesquinhos, falsidade em frases de duplo sentido, caçadas e falso pudor. A sogra ressente-se desse casamento sem aviso, pois seu desejo era vê-lo unido a uma rica herdeira vizinha, cujo pai ajudaria a manter a propriedade. Mrs. Wittaker passa a enfrentar a nora com atitudes desonestas, assim como suas filhas. O único personagem a seu favor é o sogro (Colin Firth) um ex-comandante de guerra que, amargurado com seu desempenho junto aos seus soldados, resigna-se a viver isolado e distante das opiniões familiares. Laritta, amante da velocidade e das máquinas, não consegue ser feliz junto às flores e cavalos, apesar de amar seu marido, inocente e puro. Um grande segredo é revelado por uma das irmãs de John: ela era viúva e havia sido acusada de envenenar o marido que estava morrendo de câncer. Esse fato abala a relação do casal e da família. O pai de John é capaz de compreendê-la e aceitá-la. Durante uma festa de Natal, onde toda a sociedade local está presente e sabendo do ocorrido, ela demora a descer e quando o faz é em grande estilo: linda, com um vaporoso vestido branco, pede que toquem um tango e convida o marido para dançar, mas este se recusa e quem a acompanha é o pai de John. Depois desse incidente os casamentos dos dois casais tornam-se impossíveis, uma vez que a sogra acusa seu marido de conduta fútil e desonesta, acabando com a farsa daquele casamento sem amor. Laritta despede-se da ex-noiva de John, moça moderna e compreensiva, pedindo-lhe que cuide de seu amado. Ao alcançar seu carro e ligar o motor, seu sogro surge e não deixa que parta sozinha. O filme recheado de musicas fenomenais de Cole Porter e o figurino bem cuidado é belíssimo. A figura longilínea e lânguida de Jessica Biel ficará em sua mente por longo tempo! “Bons Costumes” estreou em 8/1/2010.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

HANAMI – CEREJEIRAS EM FLOR de DORIS DÖRRIE






Elenco
Trudi (Hannelore Elsner)
Rudi (Elmar Wepper)
Dançarina de butô ( Aya Irizuki)

Esse drama alemão e japonês realmente fechou o ano com muita beleza e sensibilidade. Foi um dos melhores. Trata-se da história de uma típica família alemã (que poderia ser universal). Pai, mãe e três filhos, sendo dois casados. A única filha é lésbica. O caçula mora em Tóquio e os outros em Berlim. O casal maduro e belo reside na Baviera. Temos uma realista discução sobre casamentos bem sucedidos, quando nossa heroína (a excelente Hannelore) descobre que seu marido está com uma doença gravíssima e deverá morrer em seis meses. Ela não saberia viver sem ele, pois ainda é uma mulher apaixonada. Aconselhada a não dizer a verdade, tenta resgatar o tempo perdido junto com seu amor. Sempre pensamos que a morte ainda nos aguarda lá adiante. Tristeza e saudades a acompanha em cada movimento que faz, na direção de Rudi quer seja no preparo de uma refeição ou numa noite insone, em que possam se envolver sensualmente. Ele é sistemático, rotineiro e pouco romântico. Apreciadora da cultura japonesa, Trudi sonha visitar o Japão na época das cerejeiras em flor, deslumbrar-se com a potência do Monte Fugi e rever seu filho. Rudi jamais aceitaria. Entretanto consegue convencê-lo a encontrar os dois filhos que moram em Berlim. Durante a narrativa há um fio condutor que é uma mosca que fica nas janelas, mas que nunca é morta, pois seria o aniquilamento de um ser vivo. O casal hospeda-se na casa do mais velho e, agora o que será discutido é o relacionamento entre pais e filhos. Eles não têm paciência ou tempo para os pais, que se transformaram em um grande empecilho e ademais reavivaram velhas diferenças infantis. Ambos se achavam preteridos pelo caçula. Determinados a partir, por constrangimento de estarem incomodando, ficam apenas mais um dia, pois o grande sonho de Trudi era assistir a um bailado japonês, o Butô. A única pessoa que se dispõe a acompanhá-la é a companheira de sua filha, uma mulher sensível e inteligente. Ambas ficam emocionadas com os movimentos precisos das mãos e do corpo do excelente bailarino. Trudi chega às lágrimas. Encabulados, apesar do carinho que dispensaram aos netos e aos filhos, rumam para o Báltico a fim de ver o mar que há tanto tempo não admiravam. O hotel é acolhedor e fica à beira mar, mas Rudi reclama que não pode dormir com o barulho das ondas. Sua mulher não deixa que ele se aborreça e inicia uma dança a dois, sensual, com alguns movimentos do bailado japonês que tanto admirava. Ele aquiesce e se acalma. Outra cena belíssima é quando vão ver o oceano e faz frio. Trudi abre seu casaquinho de malha azul claro e oferece-lhe uma das mangas para que fiquem bem juntos e aquecidos. Estão realmente felizes e parecem ter reencontrado alguma coisa dos primeiros anos de casamento, que talvez tivesse ficado definitivamente para trás. Ela usa sempre um belo quimono quando está na intimidade com seu marido. Ela o adora e ele a ama. Em uma dessas manhãs no hotel, Rudi não consegue acordar sua mulher. Uma tragédia ocorre. Apesar da efemeridade da vida, não desfrutamos o presente, o momento exato das pequenas coisas que importam verdadeiramente. Esse é o turning point do filme, quando esse homem mudará sua posição, aos moldes da sua mulher, pois ficara sabendo pela namorada de sua filha que levava uma vida totalmente diferente do que sonhara. Decidido a visitar seu filho caçula no Japão, leva Trudi dentro de si, por todos os momentos e em todos os lugares que ela admirava. Passeando por baixo das belíssimas cerejeiras em flor, depara-se com um adolescente que interpreta o Butô, isolada em um canto do parque. Fascinado aproxima-se dela que dançava graciosa, segurando um telefone rosa, que simbolizava sua mãe. Entre eles, nasce uma compaixão platônica, pois se completavam na solidão. Ela era uma garota muito pobre, com seu casaco roto nos ombros, mas amadurecida, educada e inteligente. Butô é a dança das sombras, explica-lhe, que se pode dançar sozinho, acompanhado ou com os mortos. Com delicadeza consegue que Rudi execute alguns passos e ele lhe confessa que sua mulher aprendera essa arte na Alemanha, mas havia parado por sua causa. Trudi era como um felino selvagem preso dentro de uma jaula! Gostaríamos de fazer tantas coisas em nossas curtas vidas, que abdicamos... Rudi usa diariamente, por baixo de seu sobretudo, a malha azul clara, a saia e o colar de pérolas cinzas de Trudi. Desse modo, fazendo parte dela mesma, mostra-lhe seu amado Japão. No terço final do filme, o casal de amigos excêntricos chega ao Monte Fugi, mas Mr. Mountain, tímido, está sempre coberto de névoa. Depois de algum tempo, Rudi acorda durante a noite e o vê em sua plenitude. Fascinado pela visão, veste cuidadosamente o quimono de sua mulher e com o rosto e mãos pintados de branco, relembra sua amada executando a dança, com grande sentimento, sob os pés da montanha amada. Ele já não é mais um só, está acompanhado de sua mulher. No Japão, seu corpo é cremado na presença do filho arrependido e da adolescente, num belo ritual xintoísta. Suas cinzas juntam-se com as de sua mulher, em um jardim da Baviera, com seus filhos em volta. A mosca, que havia sumido no oriente, volta a sobrevoar a casa. A família que nunca soubera aproveitar o quanto eram especiais, ficara órfã em menos de seis meses. Mesmo que você seja durão, vale à pena conferir.
As imagens são muito bonitas, a história comovente, a direção ótima e a trilha sonora de primeira. Esse filme, sua diretora e os principais atores ganharam diversos prêmios na Europa e Estados Unidos, inclusive como melhor filme e melhores atores. A diretora já foi premiada em outras películas.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

NOVA YORK, EU TE AMO de Natalie Portman e mais 10 diretores








Esse filme, como “Paris te Amo”, foi feito por vários diretores, dentre eles, Yvan Attalm Faith Akin, Brett Ratner e outros. É um costurado de histórias interessantes e sucintas sobre a famosa cidade. Todos os contos refletem os costumes e miscigenação que fazem com que Nova York seja uma cidade extremante interessante. As histórias de amor mostram os principais aspectos dessa ilha como a mistura de culturas e a impessoalidade, abrangendo personagens desde a idade adulta a pessoas mais velhas. Algumas são hilárias, como o farmacêutico esperto que oferece a um jovem, sem companhia para sua festa de formatura, sua belíssima filha (paraplégica?), que o constrange, mas termina com uma situação bem divertida e favorável a ambos. Ou um homem e uma mulher fumantes, que supostamente não se conhecem e, ao fumarem um cigarrinho na porta de um restaurante, acabam tendo um caso para lá de e peculiar. Um casal de velhinhos, casados há sessenta e três anos, brigam constantemente, mas ao se depararem com uma linda paisagem marítima, recostam suas cabeças com muito amor que ainda lhes invade os corações. São pequenas histórias, como nos contos de Chekhov, que apesar do tamanho diminuto, encerram muito bem momentos das vidas desses protagonistas. Esse trabalho é um tributo à ilha de Manhattan, que sem dúvida, com suas belas paisagens arquitetônicas é um lugar perfeito para amantes. A ótima transição entre os segmentos é de Randal Balsmyer. Estrelado pela belíssima Natalie Portman, Andy Garcia, Julie Christie e outros. Confira.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

TOKYO DE MICHEL GONDRY, LEOS CARAX E BONG JOON-HO








TOKYO é um filme surrealista, composto por três histórias dos diretores acima, que expressam seus sentimentos de como seria viver nesta cidade grande, rica, impessoal, caótica e super habitada, ou seja, qualquer megalópole atual.
A Primeira História é muito interessante e fala de como você pode transformar-se, atualmente, em um simples objeto se não tiver alguma aptidão bem definida e idéias geniais. Se você for simplesmente normal! Um jovem casal procura melhorar sua vida vivendo em Tóquio. Sem dinheiro passam uns dias na casa de uma garota amiga, que mora em um cubículo. Não obtendo sucesso em suas buscas de moradia, pois todos os apartamentos disponíveis e de baixo aluguel são execráveis e minúsculos, resolvem procurar qualquer tipo de emprego. Entretanto não há empregos, vagas para automóveis ou realizações pessoais. Ele, o suposto cineasta, consegue um trabalho, como embrulhador de presentes, mas a heroína não. Ela sabe do que gosta: leitura e arte, mas não é especialista em nada. Sente-se frustrada por não ser definida pelo que admira e não estar apta para trabalhar. Desse modo, com sua auto-estima tremendamente ferida, abandona a casa e o namorada e vaga pelas ruas da belíssima cidade. Subitamente olha-se em um espelho e seu tórax está vazio. Ao abrir a blusa, vê que ele não passa de duas estacas de madeira, que vão se transformado em quatro estacas. As pessoas passam e não notam sua presença. Rapidamente ela se observa transmutando-se em uma boneca de pau e finalmente em uma cadeira de madeira. O encosto guarda apenas suas roupas. Essa cadeira, ou melhor, a heroína, é levada por um mendigo, que fica somente com o casaco e a blusa e larga o objeto que é passado de mão em mão até ser encontrado por um músico. Nestas cenas emocionantes, enquanto se vê como cadeira (afinal uma definição concreta), ela está nua e ninguém consegue enxergá-la. Tornara-se finalmente invisível, é só um objeto útil, a cadeira, que é visto e sentido. Na casa do músico é bem tratada e utilizada diariamente por ele. Essa pobre jovem, com o passar do tempo, imagina o sucesso que seu namorado poderia estar gozando, mas não encontra um final feliz para si mesma. É o absoluto da solidão e má versão da própria existência do ser humano moderno!!
A Segunda História, do diretor francês, mostra-nos um monstro verde saindo dos esgotos daquela cidade. É um homem totalmente deformado, ariano, com a barba ruiva retorcida para um só lado, cabelos ralos, rosto deformado por cicatrizes e olhos aterradores. Um olho é estrábico e o outro só mostra o branco do globo ocular. Esse personagem ao caminhar apavora as pessoas, roubando-lhes dinheiro e flores para comer e sendo agressivo a ponto de jogar um cigarro acesso no rosto de um bebê. Logo volta para seu ambiente: o esgoto, onde mora ao lado de um pequeno monumento, onde está escrito com sangue: “Salve Nossos Heróis de Nanquim”. Vê-se então uma conexão com as Guerras Mundiais, pois ele dispara uma enorme quantidade de granadas, que matam centenas de pessoas inocentes. Os noticiários passam a comentar o fato. Quem seria essa Criatura do Esgoto? Logo vemos, por todo mundo, pessoas que querem reivindicar a posse dessa aberração. Em um flash aparece um advogado francês parecido com ele. Nosso monstro é finalmente achado e levado para a prisão. O francês é recebido pelo governo por declarar-se capaz de interpretá-lo. E de fato o é. A corte quer saber por que ele ataca as pessoas e as odeia tanto, pois sofrerá pena de morte. À medida que os dois conversam vão se tornando cada vez mais parecidos, até as enormes unhas das mãos. Ele as matava por odiá-las, principalmente os japoneses, que quer destruir, pois eles seriam na verdade seu criador e essa deformidade sua criatura. Horrorizados sentenciam sua morte. Três anos depois chega o dia do enforcamento. A imprensa, os homens da lei, incluindo seu advogado estão sentados em frente à sala de execução. Tudo é imaculadamente branco: seu traje japonês até os pés, o recinto e até mesmo a corda que o enforcará. A execução ocorre e o monstro é dado como morto por um médico. Mas... quando todos se preparam para deixar o local e a câmera foca o morto, ele começa a se mexer e, lentamente, sublimemente, ressuscita aos céus para seu Deus particular. Em seguida o vemos se integrando aos Estados Unidos, incorporando-se em um dos olhos de Lincoln, emblema de uma das notas americanas. Temos a triângulo dos Estados Unidos, França e Japão.
A Terceira História, escrita pelo diretor coreano Bong Joon-Ho é a mais oriental e a melhor. Em Tóquio, um jovem decide ser um “ser solitário” ( hikikomore), sem qualquer contacto com o mundo exterior. Está neste estado de espírito há quase onze anos e era sustentado pelos pais. Adorava fixar o sol, como único elemento da natureza. Sua casa era uma obra de arte; só gostava de ler, comer pizza e defecar com a porta aberta. Tudo o que consome é guardado em seu pequeno espaço de forma irreparável e geométrica: pilhas de caixas de pizzas vermelhas, livros usados e amontoados ao longo de dez anos, milhares de cones de papel higiênico perfeitamente empilhados de forma enviesada. Um dia, como de costume, pede a pizza delivery, sem manter contato visual com o entregador, mas observa que se tratava de uma moça, usando meias tipo cinta-liga. Comovido, fixa seu olhar nos olhos da jovem que está sob o batente da porta. Nesse exato momento ocorre um terremoto. Os dois sobrevivem, mas ela está inconsciente. Tentando reanimá-la, observa que ela está tatuada com botões que expressam estados de espírito. Ao apertar o correto, ela acorda e foge para se tornar, também, uma hikikomore. Mas ele já estava apaixonado e não conhecia seu paradeiro. Pedindo a mesma comida, na esperança de vê-la, depara-se com o dono da pizzaria, um bruto tosco. Entretanto ele consegue o endereço da jovem musa. Hesitante, sai pelas ruas vazias de Tóquio a sua procura, mas em vão. Todos os habitantes dessa enorme cidade estão recolhidos dentro de si mesmos, em suas casas. As cenas são intrigantes, pois vemos nosso herói percorrendo as belas avenidas vazias, dando-nos a chance de observar seu desenho urbanístico e seus belos edifícios modernos. Nosso herói localiza sua amada, mas ela tranca-se ainda mais. Outro tremor de terra, como para despertar aquelas pessoas enlouquecidas e fragilizadas. De fato, todos saem para a rua, mas logo que o “perigo” passa, voltam a se enclausurar dentro de suas mentes e corpos. O jovem agarra seu amor pelo braço e observa novamente todos os botões. Encontrando o do amor, aciona-o, conquistando aos poucos, o coração da jovem heroína. Isso é uma alta simbologia, pois até o entregador de pizza virara um robô, e o objeto de sua paixão voltara-se para ele, após o acionamento de um botão, uma coisa mecânica.
Para quem gosta de surrealismo e filmes de arte é uma boa pedida.

sábado, 28 de novembro de 2009

JULIE & JULIA DE NORA EPHRON










Elenco
Maryl Streep como Julia Child
Amy Adams como Julie Powell
Stanley Tucci como Paul Child
Chris Messina como Eric

Maryl Streep, neste delicioso filme, está simplesmente genial. É uma atriz para qualquer papel, pois aqui incorpora Julia Child, um sucesso da televisão americana, em um programa de culinária francesa nos anos sessenta. Era uma mulher de 1,88 m, matrona, bem resolvida e dona de uma voz muito aguda e quase desagradável. A comédia biográfica começa na França, em 1949, quando os Childs foram morar em Paris. Paul trabalhava na embaixada americana, morando na China, e levara sua mulher para viverem na França por quatro anos. Ela está absolutamente deslumbrada com tudo. Seguimos para 2002, quando uma jovem nova-iorquina muda-se com o marido para um apartamento muito simples no Queens (pos-2001). Julie Powell está frustrada por não gostar do atual emprego público e sua única distração é cozinhar. Estimulada pelo marido, decide ter um blog onde testará todas as 524 receitas de sua musa, Julia Child. Deste modo, baseado nos livros de Julia e Julie a roteirista e diretora Nora Ephron nos oferece uma história interessante sobre a arte de cozinhar e bons casamentos, sem que nunca encontremos as duas Julias juntas. Julia era uma americana típica de classe média alta, pragmática, feliz e muito bem humorada, casada com Paul, que simplesmente a adorava. Ela está cansada da rotina em que se envolve e decide ter uma profissão. Depois de alguns tropeços, vai fazer o que mais gostava: comer e cozinhar. Seu ponto de vista é diferente do atual, onde se privilegia a comida saudável. Não. Julia e seu marido adoravam manteiga, vinho e tudo que a típica comida francesa pode nos oferecer. Para realizar-se escolhe nada menos do que a famosa academia Le Cordon Bleu, tradicional reduto de homens. Sendo competitiva logo se destaca como aluna nota 10. Entusiasmada com seu progresso, conhece duas francesas que querem editar um livro sobre cozinha francesa para americanas e a convidam para juntar-se a dupla. Logicamente aceita e aconselha as amigas que as receitas fossem para donas de casa sem empregados (servantless?), portanto deveriam ser realizáveis para todas. Seu sucesso é garantido, pois além do amor que dá e recebe de seu marido, possuía uma personalidade que cativava e animava a todos. Nem sequer percebia que os franceses não eram simpáticos, pois simplesmente não se deixava derrotar. O livro demora oito anos para ser escrito e publicado, pelo número enorme de receitas que poderiam ser divididas em diversos tomos. Nossa contemporânea Julie tinha algumas coisas em comum com ela: gostava de comer e cozinhar e era muito bem casada. Ambas não se deixavam abater facilmente e Julia passa a ser sua inspiração de vida. Julie vive, fala, pensa e se veste como Julia Child. Impõe-se um período de um ano para testar todas as receitas do livro e ir publicando em seu blog todas as dificuldades encontradas para fazê-las. Logo tornar-se uma celebridade entre seus seguidores. Depois de muito suor, decepções e lágrimas, como a famosa Julia Child, ela também é convidada a publicar um livro, alcançando o sucesso tão desejado. No final sabemos que Julia Child morreu aos 94 anos e que Julie Powell ainda morava no Queens, mas não mais em cima de uma Pizzaria. Filme leve e principalmente otimista, abordando um tema bem atual que é a arte de cozinhar e ensinando pessoas a serem felizes com os dons que possuem sem grandes elucubrações inviáveis. Os quatro atores principais são muito bons, mas sem dúvida alguma Meryl Streep brilha muito mais e é tudo no filme... E quem sabe não será indicada para o Oscar de melhor atriz?