segunda-feira, 1 de março de 2010

O SEGREDO DE SEUS OLHOS de JUAN J. CAMPANELLA









Escrito pelo diretor, baseado em um romance de Eduardo Sacheri
SPOILERS!

Esse interessantíssimo romance policial é estrelado pelo ótimo Ricardo Darín como o policial Benjamin Espósito e a eficiente e expressiva Soledad Villamil, jovem advogada Irene Hastings, chefe de departamento. Começa em 1999, quando Espósito está aposentado e escrevendo um romance sobre o caso que mais marcou sua carreira: o assassinato de uma jovem recém-casada com um bancário, Ricardo Morales. Era um casamento feliz e apaixonado. Vinte e cinco anos após o ocorrido e, sem que o réu tenha sido punido, Benjamin começa o esboço de seu romance e leva algumas páginas à bem sucedida Irene, para que opine e o ajude a lembrar-se de mais detalhes. O filme começa a ser mostrado na forma de flashbacks em 1974. Esse fora um caso do qual se encarregara, com má vontade, mas ao ver o corpo da jovem vítima espancado e ensanguentado, interessa-se pelo caso, que o perseguirá por toda vida. É ajudado por seu assistente alcoólatra Pablo, todavia um homem muito perspicaz e inteligente. Seu rival Romano, prende dois imigrantes bolivianos para encerrar o caso e agradar seu superior. Isso, contudo, enfurece Espósito. Benjamin é um personagem raro – discreto, sensível, brilhante, observador de pequenas coisas e um homem que respeita seu lugar em uma escala social imaginária. Ajudado por Morales, descobre entre fotografias antigas, o rosto de um jovem, Gomez, que a venera com o olhar e isso será o fato determinante para considerá-lo culpado. Ajudado por Irene, em uma armadilha bem formada, acaba confessando o crime e preso, mas é solto porque fazia parte da vigilância espúria do peronismo. O desenrolar desse filme, através de seus personagens tão humanos, abre pequenas gavetas, muito bem trancadas, que se depositam no cérebro de qualquer ser humano, as quais vão sendo abertas, estudadas e compreendidas após anos de escuridão e isolamento. Benjamin Espósito, desde que conhecera a aristocrática Irene, nutre por ela uma admiração que evolui para paixão, mas nunca tem a coragem, por sua origem, de declarar seu amor a ela. Quando o assassino é solto começam a passar por perigo de vida e seu assistente, que estava em sua casa, é morto em seu lugar. Arrasado, vê-se obrigado a ir para uma província distante para preservar a vida. Isso é conseguido pela influência da rica família de sua chefe. O encantamento entre os dois não desaparece, mesmo após seu casamento com um engenheiro e uma família constituída. Em um dado momento o filme se fixa em 1999 e Benjamin resolve ir para o Sul, onde morava o marido da vítima, que não queria que Gomez morresse, mas ficasse em regime de prisão perpétua para pagar todo o mal de já fizera. Encontrando-o, após tanto tempo, depara-se com um homem de meia-idade emagrecido e tristonho, morando em uma propriedade rural. Conversando sobre o passado ele pede ao policial que se esqueça dele e leve a vida adiante, pois ele já havia feito isso. Pressionado por Espósito, conta-lhe que tinha encontrado Gomez, que vivia na mesma região, havia atirado nele e se desfeito do corpo. A justiça havia sido cumprida. Entretanto Benjamin, no dia seguinte bem cedo, descobre que esse senhor mantinha em cárcere privado sua vítima, apenas alimentando-o e não trocando, por 24 anos, uma palavra sequer com ele. Gomez sente-se meio enlouquecido. Benjamin retorna para Buenos Aires a fim de acabar seu livro, depositar flores no túmulo de Pablo, uma homenagem final e arriscar-se em declarar seu grande amor a Irene, que nunca havia deixado de amá-lo. É um final feliz, mas creiam-me, é muito bem vindo porquanto a tensão e evolução do filme clamam para que assim o seja. O desempenho de todo o elenco é ótimo, bastante convincente para quem conhece os hábitos portenhos. Nota dez. Indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

UM HOMEM SÉRIO de ETHAN e JOEL COEN











Spoilers!
Esse trabalho perspicaz dos Irmãos Coen foi indicado para o Oscar de melhor filme e melhor roteiro original.
O filme começa com uma pequena fábula judaica, no inverno do Leste Europeu. Ela começa bem, depois vai mal e termina de maneira prática e sucinta. Vemos agora, em close, uma orelha jovem com um fone de ouvido. Trata-se de um adolescente, nos anos sessenta, ouvindo música de Jefferson Airplane e seu grupo de quem é fã, durante a aula em uma escola judaica. No momento seguinte outra orelha nos é mostrada, a do protagonista (espetacular Michael Sthulbarg), que está fazendo um check-up com seu medico. Ele goza de perfeita saúde e volta à universidade para dar aulas de física. Larry Gopnik mora no Meio-Oeste americano, tem uma família e está prestes a receber sua contratação definitiva no trabalho. Esse personagem é admirável – inteligente, justo, sensível, honesto, lúcido e acredita no raciocínio lógico, na consequência das atitudes humanas. Contudo sua história de vida vai levá-lo a avaliar e reavaliar seus valores. Chegando a casa sua esposa anuncia, sem preâmbulos, que quer o divórcio, pois se apaixonara por Sy Ableman, sem nenhuma falha ou falta grave de sua parte, e ainda deseja o get, ou seja, um divórcio religioso para que possa se casar novamente na sinagoga! WHAT? Essa é a pergunta que faz, mas é convencido por ela e os filhos que isso seria o melhor. Não fica por aí, terá de ceder seu lugar ao amante de Judith e ir morar com seu irmão desajustado, em um pequeno motel. Na universidade é forçado a reprovar Clive Park, um mau aluno coreano, cujo pai mafioso oferece-lhe dinheiro para que passe seu filho de ano e, não sendo atendido, começa um jogo de ameaças com cartas enviadas para a faculdade, desprestigiando-o como pessoa. Seus vizinhos não são corretos, sua comunidade judaica tão pouco e os três rabinos com quem busca ajuda e mais seus advogados, todos, sem exceção, falam uma linguagem de duplos sentidos e emitem opiniões nada honestas e apaziguadoras para seus sentimentos de culpa e indignação. Agora, sua segurança e credibilidade em seus valores sofrem demasiadamente, pois sabe que é um bom homem e não merece o que está ocorrendo com ele. Essa é a chave dessa comédia inteligente, essa sátira mordaz sobre o comportamento judaico e as atitudes venais e interesseiras de seus rabinos e dos deuses de qualquer religião, pois nada acontece, supostamente, sem os seus consentimentos. Voltando ao enredo, Judith não se casa, pois Sy morre, mas aparece em sonhos recorrentes de Larry, finalmente mostrando o quanto é tolo e deveria falar com o terceiro rabino e mais velho e sábio de todos, que apesar de suas súplicas não o recebe, pois está ocupado pensando, melhor, não fazendo nada. Contudo, seu filho de treze anos, após completar seu bar mitzvah, completamente “chapado” com maconha, é recebido por ele, que devolve seu radinho de pilha que havia sido confiscado pelo diretor da escola e mais os vinte dólares para comprar maconha, escondido dentro dele. O rabi menciona todos os músicos de seu cassete de maneira inserta e pede-lhe que seja um bom menino! Isso é totalmente surreal, dada às circunstâncias. Durante o bar mitzvah, seus pais parecem encaminhar-se para uma reconciliação. Nas cenas finais vemos nosso herói apagando a nota F de Clive e substituindo-a por C-. Ficará com o dinheiro? Está estourando em dívidas! Seu filho, durante as aulas continua ouvindo Jefferson Airplane, mas a aula é interrompida por causa de um vendaval. Nesse ínterim o telefone de Larry toca e seu médico pede para que vá imediatamente conversar com ele sobre o resultado de seu Raio-X, fazendo-nos crer que seu caso é grave ou terminal. Por fim, todos os estudantes esperam no pátio da escola, porque o professor não consegue abrir a porta do abrigo e o garoto ao tentar pagar seu fornecedor de maconha observa que o tornado aproxima-se rapidamente da escola e estão todos desprotegidos. Uma tela negra e “Somebody to Love” de Jefferson começa a tocar. Com esse final, tipicamente judaico, acaba essa interessante história. Não percam, pois todos os atores estão com suas interpretações impecáveis.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A FITA BRANCA DE MICHAEL HANEKE














Segundo entrevista do diretor para o jornal O Estado de São Paulo, Haneke quis fazer um filme que falasse sobre a Alemanha no período anterior ao nazismo, passa-se em 1913. “Queria falar sobre o pré- nazismo e como uma sociedade repressora deformou a mentalidade de uma geração que aderiu sem autocrítica aos ideais de Hitler.” Nesse ovo de serpente acalentado pelo calor do sol nasceu esse drama belíssimo em preto e branco que nos mostra o perigo de uma sociedade patriarcal indiscutível, onde, com as tensões existentes na época, poderia facilmente gerar um regime autoritário. Um narrador idoso nos guiará pelos mistérios do filme; trata-se do professor de uma aldeia alemã, cujas terras pertenciam a um poderoso Barão que tinha mão de ferro sobre seus funcionários, os quais o temiam e obedeciam cegamente, pois não haveria outro meio de subsistência para eles e suas famílias numerosas. Começamos com um homem a galope em seu cavalo, sofrendo um acidente quase fatal. Uma fina corda de aço havia sido colocada perto de sua propriedade e sem percebê-la o cavalo esbarra e cai morto e o cavaleiro vai parar em um hospital por algum tempo. Era um médico viúvo com filhos e assistido pela parteira da cidade, que acaba sendo seu braço direito profissionalmente. Uma série de outros acidentes contundentes, sempre envolvendo filhos ou empregados das pessoas mais ricas da vila, vai se sucedendo. A mulher de um colono é morta em um “acidente” e durante a festa da vasta colheita na fazenda do Barão, sua plantação de repolhos é ceifada. A baronesa, assustada, parte para a Itália, quando seu filho é misteriosamente espancado. Todos esses fatos vão aguçando a curiosidade do jovem professor narrador, encarregado pela educação de todas as crianças. Desde o início da história, nossa atenção e tensão são elevadas ao máximo, pela maneira como é conduzida e pela beleza das imagens tão calmas em contrate com os fatos tão violentos. O Barão é um homem amargo e autoritário, como existiam naquela época tanto na Europa como aqui no Brasil pós- escravocrata, onde sua autoridade jamais era argüida e seus empregados, suas mulheres e crianças eram tratadas para obedecer e aceitar os fatos sem questionamentos. Esse talvez seja o ponto forte do filme, pois os filhos das casas, sempre em grande número, são loiros, belos e assustados, mas não deixavam de se arriscar a se ajudarem, pois esse é um sentimento natural de crianças que querem ser felizes. O médico, o administrador e o pastor são os personagens que dão vida a esse comportamento tão arrogante e sem compaixão. Os fatos aterrorizantes vão acontecendo até que apareça um bilhete que os ameaça de vingança sobre seus descendentes até a terceira ou quarta geração. Depois do exílio na Itália a família pertencente à realeza volta, mas logo a Primeira Guerra Mundial inicia-se na Sérvia. Além dos fatos psicossociais esse filme traduz como nenhum outro as conseqüências do autoritarismo no comportamento das sociedades. Mesmo, hoje, temos o terrorismo baseado fortemente em pensamentos e dogmas que são seguidos sem argumentações ou questionamentos de seus seguidores.
A fita branca amarrada no braço das crianças significa a pureza e inocência que devem ser mantidas por elas. O elenco é formado por atores profissionais e não profissionais, com uma representação incrivelmente real. As fontes de pesquisa foram jornais, livros e fotos de época. O filme ganhou a Palma de Ouro de melhor filme de 2009 e melhor diretor. Indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro e fotografia.
Elenco: Susanne Lothar, Ulrich Tukur, Burgard Klaussener, Christian Friedel

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O QUE RESTA DO TEMPO DE ELIA SULEIMAN












THE TIME THAT REMAINS ELIA SULEIMAN
Cuidado spoilers

Esta ótima comédia dramática, escrita e dirigida por Elia Suleiman, relata quatro períodos de sua vida com a família, quando da fundação do Estado de Israel. É parte de sua biografia, inspirada em relatos de seu pai, um lutador da resistência contra a invasão de Israel sobre a Palestina em 1948, e ainda cartas de sua mãe aos parentes que foram obrigados a fugir do lugar. O filme começa com um taxista totalmente desorientado, em uma noite de tempestade, que tem como passageiro uma figura indefinida. Não tendo a quem recorrer o motorista para seu carro e espera que algo o ajude. Nesse momento começa verdadeiramente o filme, que é composto de cenas estáticas, repetições contínuas e o rosto inexpressivo do herói e esse conjunto contribui para o humor refinado tipo “Jaques Tati”. Temos quatro fases de sua vida. A primeira, em 1948, inicia-se com israelenses invadindo as quietas e belas ruas de Nazaré, aprisionando, matando e saqueando as casas, exatamente como ocorrera com eles próprios nos terríveis anos do nazismo na Alemanha de Hitler. Elia é um garoto que tem opiniões precisas sobre a guerra, influenciado por seus pais. A vizinhança é tomada pelo medo, mas a vida cotidiana precisa continuar e é apresentada de modo suave, mas com ótimas pitadas de humor. Encaminhamo-nos para uma época mais avançada em que Elia já é um adolescente maduro e ativista político, morando com seus pais que não desanimam, pois Fuad Bakri (belo Saleh Bakri) é também fabricante de armas. Cenas inteligentes como Fuad pescando todas as noites com um amigo, em frente ao mar, não sendo nunca molestados pelos guardas inimigos são cômicas. Na verdade, descobrimos que não são peixes que pescam, mas armas contrabandeadas do Líbano! Quando isso vem à tona, eles têm que tomar novos rumos. Nosso Eli Suleiman é obrigado a deixar o país. Nesse ínterim outras cenas críticas e engraçadas ocorrem, como um tanque de guerra que percorre uma estreita e pacata rua, apontando o enorme canhão para um jovem que vai jogar o lixo na calçada, atravessando a rua. Nesse momento toca seu celular e ele começa a falar e caminhar a um só tempo e o canhão movimenta-se o tempo todo perto de sua pessoa, sem que o palestino mostre o menor temor ou consciência da presença deste. Após anos, Suleiman finalmente volta a sua casa com um rosto sem qualquer expressão, um observador mudo. Sua família está envelhecida e ele um homem maduro. A mãe quase não mais interage com seus familiares e Elia faz tudo para vê-la mais feliz. Contudo, sendo diabética, é hospitalizada. Ao visitá-la na clínica, a Sra. Suleiman tira o oxigênio que a mantinha viva e ele pode ver uma foto de seu pai jovem, a qual sempre mantinha em suas mãos. Suleiman respeita sua vontade e ela falece. Em seu caminho de volta, notamos que o passageiro do taxi do início da história é o herói do filme.
Um trabalho muito sensível e triste, sem nunca sair da linha humorística. Escrito, dirigido e atuado, na vida adulta, por Elia Suleiman, mostrando o lado palestino, nazareno dessa inacreditável guerra que dura até os dias de hoje, 2010! Os palestinos continuam sendo minoria em sua terra natal e chamados de árabes-israelenses. O filme recebeu dois prêmios e duas indicações. Para melhor apreciá-lo devemos nos ater também às cenas de humor que fazem todo o diferencial à platéia.

domingo, 24 de janeiro de 2010

AMOR SEM ESCALAS DE JASON REITMAN








Esse excelente filme do diretor de Obrigado por Fumar e Juno, nos presenteia com uma estória fantástica sobre as conseqüências da última crise econômica mundial, baseada no livro homônimo de Walter Kirn. O protagonista, Ryan Bingham, interpretado pelo superlativo e belo George Clooney, trabalha em uma firma terceirizada que realiza demissões de funcionários de grandes e pequenas corporações, que se vêem obrigadas a despedir seus empregados para enxugar orçamentos. É um excelente executivo que gosta do que faz e o faz muito bem, após anos de treinamento e quase 10.000.000 de milhas percorridas dentro dos Estados Unidos (ele passa a pertencer a um seleto clube de apenas 7 pessoas). Ryan, além das demissões feitas com maestria a fim de não causar ainda maiores danos morais às pessoas e motivá-las a mudar de vida, dá conferências de como se livrar da carga emocional e material que isso ocasiona. Up in the Air, o título em inglês, nos diz muito mais sobre isso, significando que tudo está no ar, em contínua transformação, pois como ele mesmo diz a vida é deslocamento. Mr. Empty Backpack, seu apelido, aconselha seus ouvintes a deixarem a carga pesada para trás, uma vez que terão de viajar muito e as alças de uma mala cheia de recordações e sentimentos seria muito pesada e impossível de ser carregada. Para ele tudo é milimetricamente pensado e reduzido ao mínimo para a subsistência de uma pessoa prática e sem vínculos. Esse papel, que lhe cai bem como um terno Armani, revela o quanto suas expressões e figura estão amadurecidas e exatas para essa função. Seu lar é o avião e os lugares que mais gosta são os hotéis e os aeroportos, onde, por sua milhagem, encontra enormes regalias. A vida amorosa e sexual é tão comprimida como sua pequena mala. Nada de definitivo, somente encontros fortuitos dentro de banheiros de aviões ou qualquer outro cubículo onde caibam duas pessoas bastante flexíveis. Durante essa tragicomédia, onde a família é um pequeno adendo, conviverá com duas mulheres, as quais, de certa forma mudarão seu modus operandi. Tratam-se de Alex (ótima Vera Farmiga), uma executiva madura, bem sucedida e ainda mais cínica do que ele e a jovem de 23 anos, Natalie (talentosa e convincente Anna Kendrick). Natalie é um gênio recém formado, que propõe diminuir os gastos da firma, oferecendo demissões via internet! Nada mais grosseiro poderia ser sugerido, mas agrada ao presidente da companhia. Ela será sua pupila por algum tempo, para que possa se familiarizar com essa dura rotina que Clooney faz com maestria e delicadeza. Alex tornar-se-á uma espécie de “namorada do ar”, por quem se encontrará em processo de paixão despercebida, por serem almas tão parecidas. Tudo parece correr muito bem, até que seu chefe o chama de volta à terra, onde terão de permanecer, pois o processo via internet mostrara-se bastante eficaz. Porém esse não é, felizmente para o espectador, um filme com happy end, como a partir da metade parece ser. As coisas saem um pouco diferente do sugerido (up in the air) e ele, para nossa sorte, terá grandes decepções. Um suicídio ocorrido com uma das demissões mudará o rumo do enredo. Nosso impessoal e potente herói terá de continuar a viver em seu lugar preferido– no ar e no avião, com a asa encostada na estrela mais próxima! Reitman nos conduz a desejar um personagem que seja inteiro, completo e realizado consigo mesmo apesar de humano. Um filme, que como seus outros dois, foge do lugar comum. O enredo do livro foi bastante modificado, pois os personagens femininos de Alex e Natalie não existem. O filme foi considerado o melhor de 2009. Reitman declarou-se um viajante compulsivo e isso faz com que sua direção seja ótima e as cenas de hotel e aeroportos perfeitas. Não percam!!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

CHÉRI DE STEPHEN FREARS





SPOILERS!

Trata-se de um drama romântico, baseado no romance de Collete lançado em 1920. O narrador nos conta que na Paris de 1906, durante a chamada Belle Époque, as famosas cortesãs francesas tornaram-se milionárias com seus amantes aristocráticos e riquíssimos. Esse é o caso da linda Michelle Pfeiffer, atuando como Lea de Lonval, amiga da excelente Kathy Bates, antiga companheira de profissão. Essa mulher tem um filho dândi e problemático de 19 anos, que adorava Lea e a chamava de fada madrinha. Viciado em drogas e bebendo muito é levado por Lea à sua mansão na Normandia a fim de se recuperar, quando descobrem uma súbita atração sexual. Chéri (Rupert Friend) é conduzido e apresentado aos prazeres pela cortesã, que o trata com extrema doçura e carinho. Seis anos depois, ainda continuavam o affair e parece que além da atração existente havia algo mais profundo entre o casal de idades tão diferentes. Ocorre que Lea é belíssima, inteligente e com uma aparência muito jovem; além do mais lhe sobram talento e cultura para conquistar qualquer homem. Esse idílio é bruscamente interrompido com o anúncio, pela mãe de Chéri, que ele se casaria em um mês, com Edmee, também filha de outra cortesã. Esse jovem casal de “órfãos”, pois não conheciam os nomes dos pais e tiveram pouquíssimo convívio com as mães, parte em lua de mel para a Itália. Lea sente-se traída, pois ele já sabia do plano e nada falara. Cheia de amor e desespero viaja para Biarritiz, a fim de encontrar algum consolo nessa paria. Realmente um jovem se aproxima dela, mas não a faz esquecer-se de Chéri. Os jovens voltam de sua viagem e Lea não estava mais lá. Com o passar do tempo recebe uma carta avisando-a que Chéri havia saído de casa e abandonado Edmee. Ansiosa e feliz volta para Paris, pensando em como seria fácil arranjarem o divórcio. De fato, Chéri a procura, mas encontra uma Lea diferente da que conhecera, fazendo planos e tomando as primeiras decisões para sumirem da casa. Essa não era a pessoa boa e maravilhosa por quem se apaixonara. Lea jamais aceitaria tê-lo como amante casado. Isso feriu profundamente seu orgulho. Ele a deixa sem voltar a cabeça para trás, com a sensação de que havia reconquistado sua liberdade. Ela o olha pela janela e roga para si mesma que ele volte! A primeira Guerra Mundial sobrevém e Chéri luta nas batalhas, voltando ileso. Uma grande injustiça ocorrera com esses dois personagens, diz o narrador. Lea nascera muitos anos antes do que Chéri e este descobrira que jamais poderia amar outra mulher que não fosse ela. Desesperado dá um tiro na cabeça e morre. Um tenso final quase Shakespeariano, mostrando o rosto da bela Michelle Pfieffer em close, arremata o filme. O figurino e ambientações são muito bons, com ótimo comando do diretor inglês de A Rainha.

domingo, 17 de janeiro de 2010

BONS COSTUMES DE STEPHAN ELLIOTT









Essa ótima comédia romântica, baseada em uma peça de Noel Coward, adaptada e dirigida pelo diretor de Priscilla, a Rainha do Deserto, passa-se nos anos 20, após a primeira Guerra Mundial, na Inglaterra aristocrática. O filme inicia-se, em branco e preto, com a corrida do Grand Prix na França e para surpresa o vencedor, ou melhor, vencedora é uma lindíssima mulher, Laritta (excelente Jessica Biel). Aplaudida calorosamente, o jovem John Whittaker (Ben Barnes) encanta-se por ela e se casam. Estando há algum tempo no continente, sua mãe espera ansiosamente pelo seu retorno, pois estando a família afundando em falência, manipulara planos para reerguê-la. A surpresa de todos é enorme quando John chega casado com essa magnífica americana de Detroit, com os curtos cabelos tingidos de platine blonde, segura, bem informada e absolutamente sedutora. A sogra e suas filhas são incapazes de aceitá-la por vários motivos, inclusive por seu talento e desprezo aos valores tão preciosos aos ingleses aristocráticos: horários rígidos das refeições, falta de privacidade, sentimentos mesquinhos, falsidade em frases de duplo sentido, caçadas e falso pudor. A sogra ressente-se desse casamento sem aviso, pois seu desejo era vê-lo unido a uma rica herdeira vizinha, cujo pai ajudaria a manter a propriedade. Mrs. Wittaker passa a enfrentar a nora com atitudes desonestas, assim como suas filhas. O único personagem a seu favor é o sogro (Colin Firth) um ex-comandante de guerra que, amargurado com seu desempenho junto aos seus soldados, resigna-se a viver isolado e distante das opiniões familiares. Laritta, amante da velocidade e das máquinas, não consegue ser feliz junto às flores e cavalos, apesar de amar seu marido, inocente e puro. Um grande segredo é revelado por uma das irmãs de John: ela era viúva e havia sido acusada de envenenar o marido que estava morrendo de câncer. Esse fato abala a relação do casal e da família. O pai de John é capaz de compreendê-la e aceitá-la. Durante uma festa de Natal, onde toda a sociedade local está presente e sabendo do ocorrido, ela demora a descer e quando o faz é em grande estilo: linda, com um vaporoso vestido branco, pede que toquem um tango e convida o marido para dançar, mas este se recusa e quem a acompanha é o pai de John. Depois desse incidente os casamentos dos dois casais tornam-se impossíveis, uma vez que a sogra acusa seu marido de conduta fútil e desonesta, acabando com a farsa daquele casamento sem amor. Laritta despede-se da ex-noiva de John, moça moderna e compreensiva, pedindo-lhe que cuide de seu amado. Ao alcançar seu carro e ligar o motor, seu sogro surge e não deixa que parta sozinha. O filme recheado de musicas fenomenais de Cole Porter e o figurino bem cuidado é belíssimo. A figura longilínea e lânguida de Jessica Biel ficará em sua mente por longo tempo! “Bons Costumes” estreou em 8/1/2010.