sexta-feira, 19 de março de 2010

SOUL KITCHEN DE FATIH AKIN












Esse jovem diretor turco-alemão nos dá de presente a “tragicomédia grego-alemã” muito engraçada, falando de temas interculturais atuais e repletos de personagens quase enlouquecidos. Como na ótima comédia dos irmãos Coen, Um Homem Sério, tudo dá errado para o jovem bem intencionado Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos). Dono de um restaurante de beira de estrada, na cidade de Hamburgo, está à beira do desespero, pois mantém uma pequena clientela de operários que adora a “comida plastificada” que oferece; além do mais, o fisco está nos seu encalço por falta de pagamento das taxas, ameaçando fechar o estabelecimento. Exatamente nesse momento sua namorada, Nadine, está de partida para a China, onde irá trabalhar. Ele precisa desesperadamente conservar seu patrimônio, juntar dinheiro para pagar suas dívidas e ajudar e seu irmão Illias Kazantsakis, (ótimo Moritz Bleibteu), preso em regime semi-aberto. Ao comparecer ao elegante jantar de despedida da noiva, ocorre uma cena inesperada, onde o chef é mandado embora por se recusar a fazer uma comida vulgar. Shayne vai procurá-lo, mas seus pratos sofisticados não agradam seus clientes, que o abandonam à busca de pizza e sanduíches gordurosos. Ocorre que o restaurante agora está completamente vazio, servindo apenas como espaço para que músicos amigos ensaiem. Zinos encara esse personagem, quase patético, que gosta de todos, acredita na beleza da vida, em dias melhores, que cada vez se tornam piores com sua dor nas costas e situações desgastantes e cômicas que o levam ao fundo do poço. Thomas Neuman, um colega de adolescência, encontra-o, por acaso, e sendo um inescrupuloso corretor de imóveis, denuncia-o à saúde pública, que exige trinta dias para que tudo seja reformado. Seu objetivo seria comprar seu espaço por um nada. O irmão, que trabalha de fachada para ele, apaixona-se pela garçonete e é correspondido. Até essa altura do filme tudo dá errado, mas, em um lance de sorte, abre uma escola de música, ao lado do Soul Kitchen. Ele se transforma em um point para os alunos com sua comida extravagante e ambientação tosca. O dinheiro começa a jorrar, mas isso acirra a gula de Neuman que fará qualquer coisa para derrotá-lo. Zinos, decidido a ir para China, faz um documento com plenos poderes para o não confiável Illias ser o gerente e ele poder encontrar-se com Nadine. Uma festa é dada no restaurante e vira uma grande confusão, pois a sobremesa fora preparada com um forte afrodisíaco. Todos estão bêbados e possessos. A fiscal está com Neumann, fazendo uma transação sexual e tanto com ele, quando tudo é fotografado, a fim de ferrar com ela. Illis volta para a prisão após perder o Soul Kitchen em um jogo de pôquer com Thomas. Zinos está cada vez pior das costas e sem lugar para morar, pois incendiara seu próprio apartamento. Já no aeroporto encontra Nadine, que volta para a Alemanha, enlutada e acompanhada de um namorado chinês, meio metro menor do que ela. Rica não quer mais saber de Zinos. Anna, sua fisioterapeuta, é a única a ajudá-lo e um clima começa a rolar entre eles. O filme é repleto de nonsenses e gags que funcionam. Depois de um impagável leilão judicial, Zinos recupera Soul Kitchel, com o dinheiro emprestado de Nadine! E o final feliz com Anna é o que se espera e acontece. A trilha sonora é ótima, com referência ao soul, rock e outras tendências. O elenco funciona muito bem; enfim vale a pena ser visto e dar umas boas risadas com esta comédia que faz uma caricatura da nova Europa.

terça-feira, 9 de março de 2010

A SINGLE MAN (DIREITO DE AMAR) DE TOM FORD








As primeiras cenas desse drama são um tanto escuras e turvas, pois vemos imagens dentro da água, com corpos nus, que não são bem definidos. Depois um carro está no meio da neve e o jovem motorista, com o rosto ensanguentado, morto no chão. Aproxima-se um homem bem vestido, beijando-o e deitando-se ao seu lado, aos prantos. George Falconer (Colin Firth) acorda em sobressalto. Era um sonho recorrente que acontecia desde a morte de seu amante, Jim (Matthew Goode), que morrera depois de dezesseis anos de uma vida em comum gratificante e perfeita. Estamos em 1962, Los Angeles, e vários meses já havia se passado desde o acidente, contudo esse professor de Literatura Inglesa, que era londrino, não conseguia superar sua vida pós-Jim. Esse desespero faz com que passe a contemplar o suicídio como única saída para a solidão. Tem uma amiga, a ex-beldade (Julianne Moore), em que ele confia e conhecera em seus tempos de juventude na cidade de Londres. Ambos procuram consolo nessa amizade e quem sabe algo mais, porquanto haviam namorado tempos atrás. Agora isso seria impossível, pois George já desenhara sua vida e seu destino como homossexual. Suas aulas de Literatura são interessantes e no momento discutiam Aldous Huxley. Um de seus alunos, o ótimo Nicholas Hoult como Kenny, admira seu professor, não só como mestre, mas como um possível companheiro. Sentira-se bem durante a aula, quando discutiram um livro do famoso escritor de Admirável Mundo Novo, o medo e as minorias, que George descreve como apenas um grupo de pessoas, nada mais, que incomodam e podem subverter os valores tradicionais de qualquer sociedade conservadora e ameaçar a ordem já existente. Colin Firth, indicado ao Oscar de melhor ator, disse que nunca tivera uma experiência igual a essa. Trabalhar com um personagem com um exterior fastidious, ou seja, cuidadoso e meticuloso e um interior pleno de desespero, frivolidade, pesar, terror, avidez, melancolia e serenidade. O filme é entremeado de flashbacks de seu relacionamento apaixonado com Tim. A absoluta beleza e ordem diária desse homem mostram a medida de sua desordem interna. No dia planejado para seu suicídio nada corre como o esperado e é abordado por seu jovem e brilhante aluno que faz com que um rejuvenescimento e renascimento advenham, dando a medida certa para um futuro feliz. Contudo esse drama não poderia acabar dessa maneira tão lírica e romântica; assim, um final especial nos é oferecido. A atuação de Colin Firth é excelente, pois apesar de contido, pode-se observar o turbilhão de emoções que existe nesse personagem. Nicholas Hoult também atua muito bem como jovem apaixonado e identificado com o professor. Realmente amores homossexuais são muito intensos, porque, alem da paixão, o perigo de serem observados e julgados pela sociedade é frequente, mesmo nos dias atuais. Como curiosidade - Tom Ford é o dono da famosa marca Gucci e estreante como diretor.

sexta-feira, 5 de março de 2010

CORAÇÃO LOUCO DE SCOTT COOPER








Spoilers!

CRAZY HEART

Um lendário e decadente cancioneiro popular de country music, Bad Blake, está com 57 anos e no final de carreira. É alcoólatra, fumante inveterado, sujo, desorganizado, mas escreveu maravilhosas músicas, pois é sensível, vibrante e viril. Encontra-se sem nenhum dinheiro e fazendo shows em bares decadentes. Fora mentor de um cantor famoso, Tommy Sweet, que seguira carreira solo. Sem compor nenhuma canção há três anos é intimidado por seu agente a abrir o show de Tommy em Phoenix, pois haveria doze mil e quinhentas pessoas no espetáculo e essa era sua chance de voltar à ativa. Estava em Santa Fé, onde um ótimo pianista pede-lhe o favor de deixar-se entrevistar por sua sobrinha. Essa jovem era sua fã desde criança e isso seria importante para ela, que é jornalista de um pequeno jornal. O encontro é bem sucedido, visto que há uma empatia imediata entre os dois. Ela é tão linda e honrada, que faz com que, pela primeira vez, ele veja como seus quartos de hotéis, são sujos e escuros. Obviamente rola um relacionamento afetivo forte, apesar da diferença de idade entre os três. Sim porque Jean tem um filho, Buddy, de quatro anos que o aceita de imediato. Isso ocorre também porque ele abandonara seu filho nessa idade e nunca mais o vira. Era um homem dissoluto, com diversos casamentos, mas com a presença de Jean, passa a mudar de idéia quanto à sua vida. A abertura do show em Phoenix é um sucesso e Sweet quer voltar a cantar novas canções de Bad Blake. Os fatos vão ocorrendo, ele sofre um acidente e espontaneamente Jean vê-se apaixonada por ele e é correspondida. Voltando a morar e Houston separam-se, porém a ligação continua. Em uma folga de seu trabalho, Jean vai visitá-lo com seu filho. Durante um passeio os dois “homens” ficam juntos e ela volta para casa. Blake, apesar dos pedidos de sua amada para que não beba na frente do garoto, entra em um bar, embebeda-se e perde a criança. Isso foi o ponto final do relacionamento e o renascimento de Blake que se interna numa clínica para parar de beber. Curado, faz lindas canções e resolve visitar sua paixão, mas ela se comporta com firmeza e não o deixa mais entrar em sua vida, apesar de amá-lo muito. De volta à fama, após de dezesseis meses, e ganhando bastante dinheiro, depois de um espetáculo encontra-se com Jean. Ao beijar sua mão vê um anel de noivado. O elegido era um bom homem e ela decidira por sua vida em ordem, mas outra entrevista será feita, desta vez ao ar livre, com uma vista espetacular à frente dos dois. Com certeza ainda se amavam!
As músicas são lindas, produzidas por T-Bone Burnett. Com o carismático Jeff Bridges no papel principal, concorrendo ao Oscar de melhor ator, Maggie Gullenhall, a de melhor atriz coadjuvante e Robert Duvall. A ótima música também concorre ao Oscar. Baseado na novela de Robert Harris e adaptado pelo diretor e Thomas Cobb.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O SEGREDO DE SEUS OLHOS de JUAN J. CAMPANELLA









Escrito pelo diretor, baseado em um romance de Eduardo Sacheri
SPOILERS!

Esse interessantíssimo romance policial é estrelado pelo ótimo Ricardo Darín como o policial Benjamin Espósito e a eficiente e expressiva Soledad Villamil, jovem advogada Irene Hastings, chefe de departamento. Começa em 1999, quando Espósito está aposentado e escrevendo um romance sobre o caso que mais marcou sua carreira: o assassinato de uma jovem recém-casada com um bancário, Ricardo Morales. Era um casamento feliz e apaixonado. Vinte e cinco anos após o ocorrido e, sem que o réu tenha sido punido, Benjamin começa o esboço de seu romance e leva algumas páginas à bem sucedida Irene, para que opine e o ajude a lembrar-se de mais detalhes. O filme começa a ser mostrado na forma de flashbacks em 1974. Esse fora um caso do qual se encarregara, com má vontade, mas ao ver o corpo da jovem vítima espancado e ensanguentado, interessa-se pelo caso, que o perseguirá por toda vida. É ajudado por seu assistente alcoólatra Pablo, todavia um homem muito perspicaz e inteligente. Seu rival Romano, prende dois imigrantes bolivianos para encerrar o caso e agradar seu superior. Isso, contudo, enfurece Espósito. Benjamin é um personagem raro – discreto, sensível, brilhante, observador de pequenas coisas e um homem que respeita seu lugar em uma escala social imaginária. Ajudado por Morales, descobre entre fotografias antigas, o rosto de um jovem, Gomez, que a venera com o olhar e isso será o fato determinante para considerá-lo culpado. Ajudado por Irene, em uma armadilha bem formada, acaba confessando o crime e preso, mas é solto porque fazia parte da vigilância espúria do peronismo. O desenrolar desse filme, através de seus personagens tão humanos, abre pequenas gavetas, muito bem trancadas, que se depositam no cérebro de qualquer ser humano, as quais vão sendo abertas, estudadas e compreendidas após anos de escuridão e isolamento. Benjamin Espósito, desde que conhecera a aristocrática Irene, nutre por ela uma admiração que evolui para paixão, mas nunca tem a coragem, por sua origem, de declarar seu amor a ela. Quando o assassino é solto começam a passar por perigo de vida e seu assistente, que estava em sua casa, é morto em seu lugar. Arrasado, vê-se obrigado a ir para uma província distante para preservar a vida. Isso é conseguido pela influência da rica família de sua chefe. O encantamento entre os dois não desaparece, mesmo após seu casamento com um engenheiro e uma família constituída. Em um dado momento o filme se fixa em 1999 e Benjamin resolve ir para o Sul, onde morava o marido da vítima, que não queria que Gomez morresse, mas ficasse em regime de prisão perpétua para pagar todo o mal de já fizera. Encontrando-o, após tanto tempo, depara-se com um homem de meia-idade emagrecido e tristonho, morando em uma propriedade rural. Conversando sobre o passado ele pede ao policial que se esqueça dele e leve a vida adiante, pois ele já havia feito isso. Pressionado por Espósito, conta-lhe que tinha encontrado Gomez, que vivia na mesma região, havia atirado nele e se desfeito do corpo. A justiça havia sido cumprida. Entretanto Benjamin, no dia seguinte bem cedo, descobre que esse senhor mantinha em cárcere privado sua vítima, apenas alimentando-o e não trocando, por 24 anos, uma palavra sequer com ele. Gomez sente-se meio enlouquecido. Benjamin retorna para Buenos Aires a fim de acabar seu livro, depositar flores no túmulo de Pablo, uma homenagem final e arriscar-se em declarar seu grande amor a Irene, que nunca havia deixado de amá-lo. É um final feliz, mas creiam-me, é muito bem vindo porquanto a tensão e evolução do filme clamam para que assim o seja. O desempenho de todo o elenco é ótimo, bastante convincente para quem conhece os hábitos portenhos. Nota dez. Indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

UM HOMEM SÉRIO de ETHAN e JOEL COEN











Spoilers!
Esse trabalho perspicaz dos Irmãos Coen foi indicado para o Oscar de melhor filme e melhor roteiro original.
O filme começa com uma pequena fábula judaica, no inverno do Leste Europeu. Ela começa bem, depois vai mal e termina de maneira prática e sucinta. Vemos agora, em close, uma orelha jovem com um fone de ouvido. Trata-se de um adolescente, nos anos sessenta, ouvindo música de Jefferson Airplane e seu grupo de quem é fã, durante a aula em uma escola judaica. No momento seguinte outra orelha nos é mostrada, a do protagonista (espetacular Michael Sthulbarg), que está fazendo um check-up com seu medico. Ele goza de perfeita saúde e volta à universidade para dar aulas de física. Larry Gopnik mora no Meio-Oeste americano, tem uma família e está prestes a receber sua contratação definitiva no trabalho. Esse personagem é admirável – inteligente, justo, sensível, honesto, lúcido e acredita no raciocínio lógico, na consequência das atitudes humanas. Contudo sua história de vida vai levá-lo a avaliar e reavaliar seus valores. Chegando a casa sua esposa anuncia, sem preâmbulos, que quer o divórcio, pois se apaixonara por Sy Ableman, sem nenhuma falha ou falta grave de sua parte, e ainda deseja o get, ou seja, um divórcio religioso para que possa se casar novamente na sinagoga! WHAT? Essa é a pergunta que faz, mas é convencido por ela e os filhos que isso seria o melhor. Não fica por aí, terá de ceder seu lugar ao amante de Judith e ir morar com seu irmão desajustado, em um pequeno motel. Na universidade é forçado a reprovar Clive Park, um mau aluno coreano, cujo pai mafioso oferece-lhe dinheiro para que passe seu filho de ano e, não sendo atendido, começa um jogo de ameaças com cartas enviadas para a faculdade, desprestigiando-o como pessoa. Seus vizinhos não são corretos, sua comunidade judaica tão pouco e os três rabinos com quem busca ajuda e mais seus advogados, todos, sem exceção, falam uma linguagem de duplos sentidos e emitem opiniões nada honestas e apaziguadoras para seus sentimentos de culpa e indignação. Agora, sua segurança e credibilidade em seus valores sofrem demasiadamente, pois sabe que é um bom homem e não merece o que está ocorrendo com ele. Essa é a chave dessa comédia inteligente, essa sátira mordaz sobre o comportamento judaico e as atitudes venais e interesseiras de seus rabinos e dos deuses de qualquer religião, pois nada acontece, supostamente, sem os seus consentimentos. Voltando ao enredo, Judith não se casa, pois Sy morre, mas aparece em sonhos recorrentes de Larry, finalmente mostrando o quanto é tolo e deveria falar com o terceiro rabino e mais velho e sábio de todos, que apesar de suas súplicas não o recebe, pois está ocupado pensando, melhor, não fazendo nada. Contudo, seu filho de treze anos, após completar seu bar mitzvah, completamente “chapado” com maconha, é recebido por ele, que devolve seu radinho de pilha que havia sido confiscado pelo diretor da escola e mais os vinte dólares para comprar maconha, escondido dentro dele. O rabi menciona todos os músicos de seu cassete de maneira inserta e pede-lhe que seja um bom menino! Isso é totalmente surreal, dada às circunstâncias. Durante o bar mitzvah, seus pais parecem encaminhar-se para uma reconciliação. Nas cenas finais vemos nosso herói apagando a nota F de Clive e substituindo-a por C-. Ficará com o dinheiro? Está estourando em dívidas! Seu filho, durante as aulas continua ouvindo Jefferson Airplane, mas a aula é interrompida por causa de um vendaval. Nesse ínterim o telefone de Larry toca e seu médico pede para que vá imediatamente conversar com ele sobre o resultado de seu Raio-X, fazendo-nos crer que seu caso é grave ou terminal. Por fim, todos os estudantes esperam no pátio da escola, porque o professor não consegue abrir a porta do abrigo e o garoto ao tentar pagar seu fornecedor de maconha observa que o tornado aproxima-se rapidamente da escola e estão todos desprotegidos. Uma tela negra e “Somebody to Love” de Jefferson começa a tocar. Com esse final, tipicamente judaico, acaba essa interessante história. Não percam, pois todos os atores estão com suas interpretações impecáveis.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A FITA BRANCA DE MICHAEL HANEKE














Segundo entrevista do diretor para o jornal O Estado de São Paulo, Haneke quis fazer um filme que falasse sobre a Alemanha no período anterior ao nazismo, passa-se em 1913. “Queria falar sobre o pré- nazismo e como uma sociedade repressora deformou a mentalidade de uma geração que aderiu sem autocrítica aos ideais de Hitler.” Nesse ovo de serpente acalentado pelo calor do sol nasceu esse drama belíssimo em preto e branco que nos mostra o perigo de uma sociedade patriarcal indiscutível, onde, com as tensões existentes na época, poderia facilmente gerar um regime autoritário. Um narrador idoso nos guiará pelos mistérios do filme; trata-se do professor de uma aldeia alemã, cujas terras pertenciam a um poderoso Barão que tinha mão de ferro sobre seus funcionários, os quais o temiam e obedeciam cegamente, pois não haveria outro meio de subsistência para eles e suas famílias numerosas. Começamos com um homem a galope em seu cavalo, sofrendo um acidente quase fatal. Uma fina corda de aço havia sido colocada perto de sua propriedade e sem percebê-la o cavalo esbarra e cai morto e o cavaleiro vai parar em um hospital por algum tempo. Era um médico viúvo com filhos e assistido pela parteira da cidade, que acaba sendo seu braço direito profissionalmente. Uma série de outros acidentes contundentes, sempre envolvendo filhos ou empregados das pessoas mais ricas da vila, vai se sucedendo. A mulher de um colono é morta em um “acidente” e durante a festa da vasta colheita na fazenda do Barão, sua plantação de repolhos é ceifada. A baronesa, assustada, parte para a Itália, quando seu filho é misteriosamente espancado. Todos esses fatos vão aguçando a curiosidade do jovem professor narrador, encarregado pela educação de todas as crianças. Desde o início da história, nossa atenção e tensão são elevadas ao máximo, pela maneira como é conduzida e pela beleza das imagens tão calmas em contrate com os fatos tão violentos. O Barão é um homem amargo e autoritário, como existiam naquela época tanto na Europa como aqui no Brasil pós- escravocrata, onde sua autoridade jamais era argüida e seus empregados, suas mulheres e crianças eram tratadas para obedecer e aceitar os fatos sem questionamentos. Esse talvez seja o ponto forte do filme, pois os filhos das casas, sempre em grande número, são loiros, belos e assustados, mas não deixavam de se arriscar a se ajudarem, pois esse é um sentimento natural de crianças que querem ser felizes. O médico, o administrador e o pastor são os personagens que dão vida a esse comportamento tão arrogante e sem compaixão. Os fatos aterrorizantes vão acontecendo até que apareça um bilhete que os ameaça de vingança sobre seus descendentes até a terceira ou quarta geração. Depois do exílio na Itália a família pertencente à realeza volta, mas logo a Primeira Guerra Mundial inicia-se na Sérvia. Além dos fatos psicossociais esse filme traduz como nenhum outro as conseqüências do autoritarismo no comportamento das sociedades. Mesmo, hoje, temos o terrorismo baseado fortemente em pensamentos e dogmas que são seguidos sem argumentações ou questionamentos de seus seguidores.
A fita branca amarrada no braço das crianças significa a pureza e inocência que devem ser mantidas por elas. O elenco é formado por atores profissionais e não profissionais, com uma representação incrivelmente real. As fontes de pesquisa foram jornais, livros e fotos de época. O filme ganhou a Palma de Ouro de melhor filme de 2009 e melhor diretor. Indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro e fotografia.
Elenco: Susanne Lothar, Ulrich Tukur, Burgard Klaussener, Christian Friedel

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O QUE RESTA DO TEMPO DE ELIA SULEIMAN












THE TIME THAT REMAINS ELIA SULEIMAN
Cuidado spoilers

Esta ótima comédia dramática, escrita e dirigida por Elia Suleiman, relata quatro períodos de sua vida com a família, quando da fundação do Estado de Israel. É parte de sua biografia, inspirada em relatos de seu pai, um lutador da resistência contra a invasão de Israel sobre a Palestina em 1948, e ainda cartas de sua mãe aos parentes que foram obrigados a fugir do lugar. O filme começa com um taxista totalmente desorientado, em uma noite de tempestade, que tem como passageiro uma figura indefinida. Não tendo a quem recorrer o motorista para seu carro e espera que algo o ajude. Nesse momento começa verdadeiramente o filme, que é composto de cenas estáticas, repetições contínuas e o rosto inexpressivo do herói e esse conjunto contribui para o humor refinado tipo “Jaques Tati”. Temos quatro fases de sua vida. A primeira, em 1948, inicia-se com israelenses invadindo as quietas e belas ruas de Nazaré, aprisionando, matando e saqueando as casas, exatamente como ocorrera com eles próprios nos terríveis anos do nazismo na Alemanha de Hitler. Elia é um garoto que tem opiniões precisas sobre a guerra, influenciado por seus pais. A vizinhança é tomada pelo medo, mas a vida cotidiana precisa continuar e é apresentada de modo suave, mas com ótimas pitadas de humor. Encaminhamo-nos para uma época mais avançada em que Elia já é um adolescente maduro e ativista político, morando com seus pais que não desanimam, pois Fuad Bakri (belo Saleh Bakri) é também fabricante de armas. Cenas inteligentes como Fuad pescando todas as noites com um amigo, em frente ao mar, não sendo nunca molestados pelos guardas inimigos são cômicas. Na verdade, descobrimos que não são peixes que pescam, mas armas contrabandeadas do Líbano! Quando isso vem à tona, eles têm que tomar novos rumos. Nosso Eli Suleiman é obrigado a deixar o país. Nesse ínterim outras cenas críticas e engraçadas ocorrem, como um tanque de guerra que percorre uma estreita e pacata rua, apontando o enorme canhão para um jovem que vai jogar o lixo na calçada, atravessando a rua. Nesse momento toca seu celular e ele começa a falar e caminhar a um só tempo e o canhão movimenta-se o tempo todo perto de sua pessoa, sem que o palestino mostre o menor temor ou consciência da presença deste. Após anos, Suleiman finalmente volta a sua casa com um rosto sem qualquer expressão, um observador mudo. Sua família está envelhecida e ele um homem maduro. A mãe quase não mais interage com seus familiares e Elia faz tudo para vê-la mais feliz. Contudo, sendo diabética, é hospitalizada. Ao visitá-la na clínica, a Sra. Suleiman tira o oxigênio que a mantinha viva e ele pode ver uma foto de seu pai jovem, a qual sempre mantinha em suas mãos. Suleiman respeita sua vontade e ela falece. Em seu caminho de volta, notamos que o passageiro do taxi do início da história é o herói do filme.
Um trabalho muito sensível e triste, sem nunca sair da linha humorística. Escrito, dirigido e atuado, na vida adulta, por Elia Suleiman, mostrando o lado palestino, nazareno dessa inacreditável guerra que dura até os dias de hoje, 2010! Os palestinos continuam sendo minoria em sua terra natal e chamados de árabes-israelenses. O filme recebeu dois prêmios e duas indicações. Para melhor apreciá-lo devemos nos ater também às cenas de humor que fazem todo o diferencial à platéia.