domingo, 17 de agosto de 2008

The Lemon Tree




de Eran Riklis
Uma mão feminina. No dedo anelar esquerdo uma grossa aliança. Agora as mãos passam a cortar, em rodelas idênticas, lindos limões amarelos do tipo siciliano. Cortados, vão para um vidro de conservas. Aí é acrescentado pimentão vermelho, azeite de oliva, sal e temperos diversos. Finalmente o pote é sacudido e colocado em uma prateleira, onde se encontram muitos outros iguais. A dona de casa palestina que os faz é a belíssima Salma (formidável Hiam Abbas). Essa mulher corajosa é viúva há dez anos e vive com o produto do seu trabalho. Herdou de seu pai a residência e sua plantação de limões, que existe há meio século. Um senhor palestino magro de face ossuda, porém ainda muito vigoroso, é quem a ajuda a cuidar do limoeiro, desde os tempos de seu pai. A próxima cena nos mostra um caminhão de mudanças chegando ao lado desta paisagem bucólica. Trata-se da mudança do Ministro da Defesa de Israel. O cenário passa a ser muito agitado e barulhento com diversos agentes de seguranças, grudados em seus celulares ou metralhadoras. Abismada, a bela Salma observa esse cenário insólito, no qual até mesmo uma guarita elevada é providenciada, em poucos minutos. Um jovem soldado israelita munido de binóculos, metralhadora e tudo o mais, passa a vigiar a casa de Salma e dentro da casa de Israel e Mira, câmeras são instaladas na mesma direção. Os limoeiros são bem cuidados, regados diariamente e seus grandes frutos, à luz do luar são com estrelas do céu. A pequena residência de Salma e seu pomar são cercados duplamente por grossos cabos de arame farpado. O chefe dos agentes do ministro acha que isso é pouco e o serviço de Defesa determina que o pomar seja cortado, pois lá poderiam facilmente ser abrigados terroristas. Salma e Mira têm, provavelmente, a mesma idade. Ambas são lindas mulheres morenas e com filhos adultos. Mira olha embevecida para os limoeiros, pois é uma visão maravilhosa, dentro de uma região tão desértica como a Cisjordânia. Elas, todavia exercem funções diferentes: uma é camponesa e a outra trabalha com um sofisticado computador! Salma recebe uma carta obrigando-a a deixar o local, por questões de segurança nacional, mas como não fala hebraico é obrigada a levá-la para que os antigos amigos de seu marido a traduzam. Inconformada volta para casa e pede ajuda a diversas pessoas, inclusive seu filhos. Todos, contudo, consideram isso normal, pois muitas propriedades eram desocupadas por Israel e depois seus ocupantes recebiam uma indenização. Porém Salma considera seu patrimônio parte de sua vida e não irá ceder facilmente. Procurando um jovem advogado (Ali Suliman), formado na Rússia onde se casara e tivera uma filha, é bem recebida pelo rapaz, mas ele não tem nenhuma experiência com o assunto, pois só tem feito divórcios! Seu escritório é em sua própria casa, no bairro dos refugiados de guerra, sendo uma tremenda desordem. Sem dar falsas esperanças a ela, aceita o caso e vão para um tribunal de primeira instância. O vizinho, Israel, considera isso um absurdo total, mas não sua mulher. É solidária a sua queixa e transmite isso ao marido. Israel explica-lhe que o limoeiro está localizado na linha verde que definia a fronteira de Israel antes de 1967. Os dois não conseguem entrar em um consenso. Durante a festa de inauguração de sua casa, encontramos repórteres de muitos jornais, diplomatas, políticos e a alta sociedade do local. A comemoração vai até o romper do dia, como ditava a tradição de seu velho pai. A comida, naturalmente, é árabe regada a muitos vinhos e bebidas finas. Salma se sente invadida com a mudança de hábitos e perseguida. No primeiro julgamento a palestina perde e com lágrimas nos olhos, pede ao seu representante que continue até a Suprema Corte, se for necessário, pois ela não desistirá do solo que é seu. Entre os dois nasce uma empatia que aos poucos se transforma em amor platônico. Uma noite conversando com seu advogado, que não pudera voltar para casa devido ao toque de recolher, encontram-se na cozinha e olham a paisagem na noite escura. Uivos de lobos na ravina são ouvidos e Salma confidencia que não ouvindo o uivo dos lobos se sente muito solitária, mas quando os ouve se sente como eles e quer uivar também. Afirmando que esse deve ser o caso do jovem também, o chama de lobo solitário. Essa noite passa a ser muito importante para os dois. Os inconvenientes decorrentes da posição da palestina são uma grande amolação para seu vizinho, que se vê forçado a dar declarações, que não gostaria à mídia. Ele é obrigado a fazer uma cerca de metal em torno do pomar, para que seja mais bem protegido, proibindo sua proprietária de circular pelas árvores tão queridas. Aos poucos seus limões vão caindo e apodrecendo sobre as folhas secas. Sua fonte de renda está bloqueada, assim como sua vida, que agora é bisbilhotada pelos amigos de seu marido, que a ameaçam quanto ao seu comportamento com o jovem advogado, o qual poderia ser seu filho! “As pessoas comentam”, dizem eles, e “seu marido, se vivo, não gostaria de ver sua atitude”. O único a defendê-la é seu fiel ajudante, que vai depor em seu favor, pois sua mãe morrera quando ela tinha apenas cinco anos e, desde então fora seu segundo pai. Era a única coisa que ele possuía. O estado emocional das duas mulheres começa a deteriorar-se e um dia chegam a olhar fixamente uma para a outra, mas sem coragem de imitir qualquer palavra de amizade ou reconhecimento. O processo chega à Suprema Corte e uma repórter, amiga de infância de Mira, vai entrevistá-la, pois gostaria de ter a opinião do lado palestino. A repórter também se solidariza com Salma. Logo em seguida vai colher as impressões de sua amiga Mira, e esta não titubeia em dizer o que pensa. Uma reportagem de primeira página, a favor da palestina, é publicada com a imagem dos três personagens: as mulheres nas laterais e ele bem no centro das fotos. Indignado, Israel reage ferozmente, mostrando à sua esposa um lado escuro de sua personalidade que ela não conhecia e não aprova. Salma é proibida, sob a mira de fuzis, de regar suas árvores e Mira, pulando a alta cerca, tenta conversar com ela sobre o caso, contudo é detida pelo chefe dos agentes secretos e levada à força para casa. Tempos depois, quando chega o grande dia, as duas mulheres estão arrasadas. Salma está com medo e seu defensor, ao vê-la ainda de roupão, pergunta se ela vai desistir de tudo, após tanto trabalho e esforço. Nossa heroína se arruma, com um belo tailleur e ao passar batom nos lábios é surpreendida por ele. Juntos em frente ao espelho, dão um longo beijo apaixonado. Ele a considera a mulher mais linda e corajosa que já vira, apesar de estar noivo de uma moça, filha de uma personalidade local. A notícia desse litígio é divulgada por todo mundo, através de televisão e jornais. Oslo, Madrid e outras capitais importantes estão apoiando sua causa e à sua disposição. Desesperado Israel fica entre dois lados, pois para ele, igualmente, destruir as árvores é um ato de agressividade muito grave. Chega o grande dia. Dezenas de repórteres internacionais e locais cercam os palestinos em busca de respostas. Dentro do tribunal, os advogados começam um sério embate e o fiel amigo de Salma, ao depor, afirma que as árvores têm vida e alma como as pessoas humanas. Cortá-las seria um grande crime, um assassinato. Finalmente a juíza decide que o limoeiro é uma ameaça nacional, mas que ele seria poupado em sua metade, mas esta metade seria podada a trinta centímetros do solo!! Esta é a primeira vez que um tribunal israelita concede alguma coisa à causa palestina. Nesse último terço do filme, além das cenas do julgamento, vê-se Salma de certa forma conformada com a decisão tomada, pois não poderia fazer mais nada, havia lutado com todas as forças contra tudo! Nova cena, Mira, em seu carro esporte, despede-se do chefe dos seguranças, agradecendo por seus serviços e parte velozmente (divorciara-se ou partira para uma viagem?). A câmera dá uma pausa. Alguns segundos depois, ela nos mostra o interior totalmente escuro de sua casa. Dentro, a claridade aos poucos começa a penetrar. É quando Israel, sentado em uma poltrona, aperta o controle remoto para que as persianas se abram. Seu rosto está tenso e muito grave. Olha em direção à janela, por onde se avistava o pomar, contudo o que vemos é um altíssimo muro erguido pelo Estado de Israel, a fim de dividir as fronteiras vizinhas. Ele, em seu semblante lamenta a decisão. Logo em seguida vemos os limoeiros, todos podados, e Salma caminhando entre eles, com uma expressão triste, apesar de resignada (a metade fora poupada). Ela olha em frente, mas tudo que pode vislumbrar é um alto muro de cimento cinza! Palestinos e israelitas estão separados por um muro da vergonha. Esse maravilhoso filme foi inspirado em fatos reais.


Observações:
O diretor, Eran Rikts, viveu no Brasil de 1968 a 1971, tendo presenciado o degradante regime militar brasileiro. Uma história que fala do cotidiano das pessoas “É a melhor maneira de falar de política... falando de gente”, afirma Eran. Esse é um filme que discute atitudes de pessoas e seus desdobramentos, quer sejam políticos, sociais ou amorosos. Mostra nossos medos, intolerâncias e reações às diversas frustrações que vivemos atualmente. O mundo poderia se acalmar um pouco e a tolerância começar a tomar lugar do individualismo e do terrorismo que parece só crescer, sem dar tréguas à felicidade! Esse grande absurdo de duas etnias separadas por motivos políticos é também mostrado na comédia de Dennis Dugan, em cartaz, com o título de Zohan – O Agente Bom de Corte, com Adam Sandler.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

A ESPIÃ



De Paul Verhoeven

Ano 1958. Vemos uma bela paisagem desértica. Imponentes montanhas sem vegetação e um ônibus de turismo rodando pelo asfalto. Finalmente ele para na entrada de um kibutz e os turistas descem. Entre eles uma mulher elegante e seu marido. Ela imediatamente começa a fotografar o local, mas sua atenção é desviada pelas vozes de crianças, numa escolinha local. Curiosa, volta-se para lá e fotografa a professora e seus alunos, mas é imediatamente reprimida pela mestra, que fecha a cortina e diz que está perturbando a aula. Todavia a turista lembra-se de seu rosto e pergunta se ela não é Rachel Stein (Carice Van Houten em ótima atuação). Então as duas se abraçam e relembram alguns fatos ocorridos na Holanda há muitos anos, em 1945. Após a partida do grupo, Rachel caminha e se senta à beira de um lago e começa a rememorar sua vida.
Holanda 1945 às vésperas do término da segunda guerra mundial, Rachel, judia, procura um amigo de seu pai, a fim de fugir do país. O senhor concorda em dar-lhe uma grande soma em dinheiro, que será debitada da conta de seu pai. Rachel deverá estar num determinado ponto de onde será levada em uma balsa para a Bélgica. Encontra-se com outros judeus e fazem uma pequena viagem. Lá chegando encontra seus pais e seu irmão (desaparecidos), para sua grande surpresa. Eles lhe relatam que esse mesmo amigo, que havia escondido os três, avisou-lhes sobre sua travessia e resolveram fugir juntos. Os diversos fugitivos israelenses, que se encontram, levam apenas uma mala, dinheiro e diamantes, por serem mais fáceis de esconder. Uma embarcação os conduz para a fuga, todavia o irmão de Rachel, ex-marinheiro, espanta-se com o rumo do barco, mas o timoneiro diz que navegam em zig-zag para despistar os alemães. No mesmo momento, são surpreendidos por um barco nazista, cujo comandante tem uma cicatriz no rosto, que os cerca e metralha todos, formando uma enorme possa de sangue. Rachel é a única sobrevivente, pois se lançara ao mar mesmo ferida. É resgatada por um grupo de holandeses da Resistência. Concordam em ajudá-la, contudo Hans, um dos chefes (provavelmente médico) sugere que mude de nome e se infiltre nos meio dos alemães para ajudá-los, mas que isso poderá custar sua vida. Sem família e desesperada é sua única saída. Rachel é uma jovem sofisticada, ex-cantora, de família rica, muito independente e corajosa. Passando-se por uma alemã requintada, Ellis de Vries, em uma festa nazista atrai a atenção do chefe da Inteligência alemã Ludwug Muntze (o ótimo Sebastian Koch), pela sua belíssima voz. Apaixonam-se e ela vai trabalhar no centro da SS. Contudo ele descobre que Ellis é judia e a força delatar os planos da Resistência. Essas questões de delações eram muito complicadas de se julgar moralmente. É sua vida em jogo e o ser humano tende a preservá-la, com grandes complexidades.
Ellis tem uma missão muito perigosa: instalar um microfone na sala do general, para que o grupo possa saber de seus passos e assim evitar que mais judeus sejam massacrados, como sua família. Fica claro que existe um delator entre os holandeses que passa as informações para os alemães, pois toda tentativa de resgate elaborada é mal sucedida. O chefe principal do grupo tem seu filho preso numa emboscada e é brutalmente torturado e preso. Um plano é elaborado por Hans Ackerman para salvar Tim e todos os demais dos subterrâneos alemães. O dirigente do grupo, pai de Tim, ficará no escritório da resistência e os demais irão, com a ajuda de Ellis, incumbida de abrir a passagem para eles. É perto do aniversário de Hitler e Franken (o mesmo que matou sua família e demais israelitas) coloca em xeque a honorabilidade de seu superior, Muntze o amante de Ellis. Num golpe de mestre o invejoso Franken, denuncia sua comiseração com os prisioneiros de guerra. Preso por alta traição é condenado à morte e aprisionado. Ellis exige que seus amigos resistentes também libertem seu amante. Hans concorda, a duras penas, e partem para o ataque. É durante uma festa de aniversário para Hitler, que já se encontra muito desgastado e quase derrotado, que a operação ocorrerá. As festas nazistas são regadas a champanhe, comida farta (enquanto a população que o apóia morre de fome) e muitas mulheres lindas, entre elas Ellis e uma grande amiga que conhece no seu trabalho junto a SS. Ambas não são nazistas, nem simpatizantes, mas procuram salvar-se e sobreviver a tanto horror. Ellis abre a porta do corredor que adentra ao subterrâneo, correndo gravíssimos riscos. Corajosa e perspicaz cumpre com eficiência sua parte do plano. Franken, agora general com a prisão de Sebastian, comemora o aniversário (sem a presença do Fuhrer) com esbanjamento e orgia. Quando a Resistência começa a abrir as portas das celas, aparecem soldados alemães que os dizimam, salvando-se apenas Hans, ótimo atirador, e outro jovem soldado. Ao chegarem sozinhos e feridos no bureau holandês, o pai de Tim desmorona e juntos julgam que Ellis é espiã dupla, pois desmascarada pelo cruel Franken é obrigada a falar com ele e a “escuta” revela que conhece muito bem o general. Amordaçada para não deixar transparecer seu desespero para seus amigos da Resistência é jogada na prisão, à espera da execução. Todavia, Sebastian Muntze auxiliado por um ex-ajudante honrado, a soltam e eles fogem para um pequeno barco, nos canais holandeses. Trocam juras de amor e se comprometem a viver sempre juntos, por toda a vida! Voltando a Amsterdam vão ao encontro do velho amigo do pai de Ellis, que não é outro senão um dos elos de destruição dos judeus. Franken, com sua ajudava, emboscava todos os barcos que queriam se refugiar, daí o malogro de todas as tentativas. Mas ele não é o único outros deviam estar infiltrados. Rachel e seu amante são reconhecidos, ele é assassinado e ela presa, novamente, por ter colaborado com os nazistas!
Na prisão Rachel é humilhada e maltratada. Um grupo de fascistas, pertencentes à escória humana, entra na prisão e humilha os presos. Ellis é reconhecida e espancada. Um balde de fezes é jogado sobre suas feridas e nesse estado é resgatada pelo exército inglês, que deplora tal ato de selvageria. Agora, acompanhada por Hans é levada para seu consultório a fim de ser medicada. Talvez um novo caso de amor? Hans, a princípio, se envolve com ela, mas não é correspondido. Pela primeira vez Rachel chora pela perda da família e por seu martírio sem fim! Hans aplica-lhe um sedativo no braço, para que se acalme. Fora, a multidão o aclama e pede para que apareça no pequeno balcão. Enquanto os dois conversam, a visão de Ellis vai se apagando, mas ela percebe que o sedativo era insulina, que a matará. Hans Akerman confirma sua suspeita e lhe declara que deve morrer. Astutamente, Ellis consegue alcançar uma barra de chocolate, que todo soldado tem em sua mochila, enquanto ele aceita o delírio do povo como herói de guerra. Sonolentamente ela se ergue e pula a grade do balcão, caindo no meio da multidão, conseguindo se salvar, mais uma vez! Hans grita freneticamente que a peguem, mas sem sucesso. Entrando em contato com o exército inglês, vai à procura do pai de Tim, para se explicar. Chega ao momento em que Tim está sendo exumado e reconhecido pelo pobre pai, que neste momento quer matá-la, mas é informado pelos oficiais que ela tem um importante documento a lhe mostrar. Vendo a agenda do amigo de seu pai, compreende sua posição de vítima e juntos vão á procura das demais famílias judias massacradas. O último elo é descoberto. O próprio Hans Ackerman é o delator dos planos da Resistência holandesa.
A guerra é sempre um acontecimento imoral, envolvendo delações, corrupção, chantagens e denúncias. Ninguém pode se beneficiar disso. Só os muitos corruptos e devassos! Outra cena e estão Rachel e o pai de Tim ao encalço do oficial holandês, que encontrado num esquife, dentro de um carro funerário para fugir, é descoberto, e a tampa do caixão com ele suplicando para sair, junto a dólares e muitas jóias é trancada, definitivamente, por Rachel. Às margens de um rio encontram-se Ellis e seu novo amigo raciocinando sobre o futuro do dinheiro, já que Hans está morto. Aí vemos a cena do começo do filme, quando ela, também, perto das águas calmas do, é chamada por seu marido e dois filhos. Inquirida sobre o que fazia às bordas do lago, responde: Pensava no meu passado. E os quatro caminham para casa. O dinheiro fora gasto na construção do kibutz!

A CAÇADA



A CAÇADA de Richard Shepard
Este interessante filme de aventura, baseado em um artigo da revista americana Esquire, nos faz percorrer os países Bálcãs, no tempo de Radovan Karadzic, conhecido como o Carniceiro da Bósnia. De 1992 a 1995, era o chefe e mentor da guerra sérvia contra a independência da Bósnia mulçumana. Obcecado em criar a Grande Sérvia, foi responsável pela pior limpeza étnica desde Hitler. Executou mais de 8000 homens e meninos muçulmanos em 1995 e teve seus tempos de prestígio juntamente com Slobodan Milosevic, presidente da Iugoslávia. Durante a apresentação dos créditos, no início do filme, podemos ler “APENAS AS COISAS MAIS RIDÍCULAS SÃO REAIS”. O filme, narrado por Duck, mostra dois repórteres de guerra correndo pelas ruínas da Bósnia-Herzegovina. A visão é assustadora e o jornalista Simon Hunt (Richard Gere) e o cameraman afro-americano Duck (Terrence Howard) estão à beira de um colapso nervoso nesse clima de violência e morte, pois já faz muito tempo que cobrem a guerra juntos. Nova cena, e vemos o muro branco de um edifício baixo, com diversas mulheres mulçumanas, com seus cabelos cobertos com lenço, na posição de oração. No campo de batalha, Hunt, posicionando-se em frente à câmera para uma reportagem, surta e passa a contar todos os horrores que está vivenciando de um modo humano e descontrolado, não como um correspondente de guerra. Seu chefe, no canal aberto de televisão americana, despede-o na hora e, por incrível que possa parecer, como diz o narrador, Duck é promovido chefe dos cameraman da emissora, com um salário altíssimo. Enquanto isso, Hunt passa a trabalhar em canais fechados e, finalmente, só faz matérias como free-lance, custeado com o próprio dinheiro e acaba desaparecendo. Cinco anos depois, quando a guerra étnica já terminara, os dois homens encontram-se em Sarajevo, ocasionalmente. Duck acha-se no local com um jovem foca, Benjamim, filho do vice-presidente da emissora, para fazer uma breve matéria e sair de férias para a Grécia, onde está sua lindíssima namorada. Os velhos amigos abraçam-se e Hunt, informando ter uma fonte segura, quer entrevistar o ex-líder sérvio Boghdanovic (uma alusão a Karadzic), convencendo-os a seguir com ele às fronteiras montanhosas da Sérvia com Montenegro, onde ele estaria escondido todos esses anos. A missão envolve muita perspicácia, coragem e perigo, pois o homem procurado tem inúmeros simpatizantes, além do que a França, Inglaterra e Estados Unidos firmaram um pacto, para que ele não seja preso como criminoso de guerra. Durante as cenas mais tensas aparecem flashbacks relativos a certas decisões tomadas. Saindo a poucos quilômetros de Sarajevo nosso grupo ruma para pequenas cidades, e um Mercedes antigo amartelo, tentando entrevistar homens do povo, em bares caindo aos pedaços e delegacias de polícia suspeitíssimas, a fim de saber alguma coisa que os leve ao seu destino. As placas, nas estradas e nas ruas, são uma surpresa para o jovem foca, pois já são escritas em cirílico! Contudo essas pessoas rudes não querem informar nada, apesar de Hunt falar o idioma deles fluentemente. Sem dinheiro, Hunt passa a pedi-lo emprestado aos dois amigos, prometendo devolver, após o trabalho concluído. Boghdanovich e seu pequeno exército ficam sabendo das buscas feitas pelo grupo, através dos habitantes desses longínquos povoados. Quando tentam subir as belas e verdes montanhas que conduzem à fronteira com Montenegro, são implacavelmente perseguidos por homens e carros, que acreditam que eles façam parte da CIA. Durante uma dessas caçadas são barrados, numa estrada secundária, por homens que seriam os guarda-costas de Boghdanovic. Entretanto, quando os três estão abaixados no chão com as mãos na cabeça e armas apontadas contra elas, Hunt é reconhecido por um velho amigo dos tempos de cobertura jornalística e são, assim, poupados da morte. Na mesma cena, um personagem para lá de insólito, o ANÃO, ao descer do carro segue em direção a Hunt, para cumprimentá-lo, mas dá-lhe uma forte pecada de mão em seus testículos, deixando-o sem ar. O gesto fora feito porque Hunt devia-lhe uma grana, que foi paga imediatamente, dando o violão de Duck, que ele tanto gostava de tocar. O cinegrafista diz que “adora” o método que ele tem de saldar suas dívidas, tirando de outras pessoas! O grupo sabia desde o início da aventura que cinco milhões de dólares seriam pagos, para quem achasse o carniceiro, mas essa não é a meta deles. Porém Hunt, em um flashback, lembrando-se de como sua amada havia sido tratada há tempos atrás pela milícia sérvia, resolve contar a verdade: não quer entrevistá-lo, mas caçá-lo, pois Marda havia fugido da cidade onde os dois viviam, para refugiar-se numa vila com sua mãe. O vilarejo, porém, é atacado pelos revolucionários e ela é seis vezes baleada no ventre, sendo barbaramente assassinada. Boghdanovic encontra-se no local e ao ver Hunt e a jovem morta, dá-lhe um cínico sorriso. Isso faz com que ele queira matá-lo, mas é impedido por Duck. Voltando às cenas presentes, Hunt é informado por Boris que em um túnel abandonado havia uma moça sérvia, a qual poderia dar-lhes informações sobre o criminoso. Dirigem-se para lá, todavia ela quer dinheiro e o jovem foca consegue convencê-la que não podem pagar nada, pois pertencem a CIA e isso é contra as regras da firma. Abismados com o poder de persuasão de Benjamim (ótimo Jesse Eisenberg), tornam-se mais unidos. Certos de que acharão o assassino, resolvem vigiá-lo enquanto caçava raposas na floresta (seu apelido é FOX), pois não poderia ter seguranças, na opinião de Benjamim. Haveria barulho e isso inviabilizaria sua meta. FOX, ao ter uma pequena raposa sob a mira de sua espingarda, escuta um ruído ao longe, como bom caçador. Esse ruído se transforma em estrondos, tiros e fumaça abundante. Frente a frente com Boghdanovich, este lhes oferece os cinco mil dólares da recompensa, caso o deixem ir embora. Sem possibilidade de acordo, por fim é acuado por nossos heróis e seu rosto, num enorme close-up, congela-se na tela. Eles são enviados de volta a Sarajevo, pela CIA, pois é crime passar-se por policiais daquela agência. Em um hangar, à espera do vôo e sem dinheiro, os três amigos resolvem fugir para não serem detidos na América. Correm como loucos, conseguindo se livrar dos agentes que os esperam dentro de um enorme avião de guerra. Livres, Hunt promete acabar a matéria e enviá-la ao pai de Benjamim que, sem dúvida, pagará uma pequena fortuna por ela. Benjamim voltará à Nova York, enriquecido com a experiência, e acompanhado de Duck, que talvez tenha perdido a namorada que se encontrava em um maravilhoso iate na Grécia, muito bem acompanhada!

Realmente, quando o filme termina, vemos as imagens das coisas mais ridículas, dentre elas o anão. Os repórteres eram cinco e não três. Todo o resto é uma mistura de realidade com ficção e o tom do filme, apesar do tema tão dramático, vira uma comédia.
Sarajevo é a capital da Bósnia, onde o maior grupo étnico é bósnio, sendo o segundo sérvio e o terceiro, croata. O que nos “anima” a ver o filme é que o verdadeiro Carniceiro da Bósnia, segundo a revista Veja, “O ASSASSINO QUE VIROU GURU’, foi preso pela polícia sérvia em um ponto de ônibus, na última semana de julho de 2008, em Belgrado. Disfarçava-se com um longo cabelo branco, preso em um coque no alto da cabeça, e uma enorme barba branca. Era um bom vizinho, morando em um bairro popular e, como ex-médico psiquiatra, tinha um consultório alternativo, oferecendo homeopatia, acupuntura e meditação. O cerco a Sarajevo durou 43 meses e matou 12000 pessoas da etnia muçulmana. Ele será julgado por um tribunal em Haia, onde deverá pegar prisão perpétua. Quando o filme foi feito esse fato ainda não havia ocorrido, o que o torna ainda mais instigante.


sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Elizabeth - A Era de Ouro






ELIZABETH – A ERA DE OURO, é um filme biográfico, seqüência de Elizabeth de 1998. O diretor indiano Shekhar Kapur, dirige com maestria esse épico que se passa entre 1555 e 1558. A Espanha de Felipe II (Jordi Mollà) encontra-se no auge de sua força política e também no auge da inquisição, que controlava, manipulava e massacrava todos que não seguissem a religião católica, com a ajuda dos jesuítas. Em nome de Deus o cruel e vaidoso rei, decide atacar a Inglaterra protestante de Elizabeth I (Cate Blanchett), agora mais madura e confiante. Ela não admitia perseguir os papistas de seu reino, pois não controlaria as reflexões e convicções individuais, só seus atos seriam julgados. A rainha Mary Stuart, sua prima católica achava-se presa, mas conseguia comunicar-se com o rei Felipe, através de correspondência clandestina, e juntos arquitetavam a melhor hora para atacar os ingleses.
Elizabeth era chamada a Rainha Virgem, por ser solteira e seu fiel conselheiro Sir Francis Walsingham (Geoffry Rush) tentava persuadi-la a se casar. Numa das audiências públicas, aparece o aventureiro Walter Raleigh (Clive Owen), que tendo voltado do Novo Mundo, lhe traz uma arca de presentes contendo batatas, tabaco e grande quantidade de ouro. Os primeiros ela recebe, mas o último dispensa, pois suas convicções não permitem que o aceite. Clive convence-a de que o ouro é espanhol, e a Espanha é sua inimiga. Os espanhóis presentes retiram-se imediatamente, a ameaçando com uma guerra. Durante sua presença na cerimônia, Walter conta como enfrentara, a solidão do mar imenso, sem limites, e a alegria de avistar a terra, aos poucos, depois de tanta solidão e sacrifício. Walter quer a permissão da rainha para voltar ao lugar descoberto, que chamou de Virgínia, em sua homenagem. Entre eles nasce uma grande admiração mútua, que por parte dela não pode ser correspondida pelo peso de seu título e de sua posição, como protetora da Inglaterra. Porém a belíssima Bess (Abbie Cornish) é encarregada de mantê-lo por perto, surgindo também entre os dois um início de romance mais plausível. Walter com a ameaça de guerra é feito seu capitão pessoal, sendo nomeado Sir Walter Raleigh. Essa nomeação o desagrada por ter sido imposta a um homem livre de espírito. Elizabeth demonstra dificuldades em balancear seu lado amoroso, feminino com seu lado profissional, como rainha de um dos maiores impérios europeus. Sente-se tolhida e prisioneira de um título, sem vontade própria e sem ser amada como mulher. Uma noite, sentados ao pé de uma lareira ela lhe pede que faça algo que há muito tempo esta privada. Que lhe dê um beijo, contudo ele deverá ser esquecido. O gesto é rápido e delicado. Vemos então sua carência de afeto.
No decurso desse tempo, os espanhóis, com sua gigantesca armada, estão preparados para a ordem de ataque de Mary Stuart, que descoberta por Sir Francis e outros nobres ingleses, é condenada à morte por decapitação. Apesar dos pavores cometidos pelos inquisidores contra os católicos, Elizabeth não concorda com tal atitude, pois Mary é uma rainha. Sir Francis observa que a lei tem que ser para todos, pois ela serve para proteger o povo. Diante de tal argumento, ela cede e aguarda desesperada o desfecho. Bess grávida de Walter esconde o fato da rainha, que, ao descobrir, a humilha na frente de Walter, a chamando de sua cadela com coleira, que só poderia mover-se e ter um filho com sua ordem e autoridade. Expulsa do local, Bess vai ter com seus pais e Sir Walter é aprisionado. Mr. Dee, o astrólogo pessoal de Elizabeth, prevê grandes tragédias para ela e seu reino. Sabendo que os espanhóis já se acham em alto mar, com centenas de navios e vinte e cinco mil homens, precisa elaborar um rápido e contundente plano de guerra. Apesar de enfraquecida pelo amor frustrado, aconselha-se com seus nobres e Mr. Dee, o qual declara não saber o que fazer diante de tal tempestade. Sabiamente ele relata que é durante as tempestades que se revela o verdadeiro caráter das pessoas. Algumas se escondem ou fogem, mas outras mostram sua verdadeira face e criam asas voando sobre as nuvens como verdadeiras águias. Isso fortalece Elizabeth que, como um general, sobre um enorme mapa mundi feito de mosaico no chão, traça sua defesa e manda convocar os camponeses e presos, inclusive Walter, a fim de que todos juntos possam defender o solo inglês. Navios são mandados para atacar o inimigo sem sucesso, até que Clive sugere que embarcações incendiárias sejam enviadas para o oceano, antes que cheguem à Inglaterra. Elizabeth, a cavalo e com armaduras de guerra, se junta ao povo para atacarem. Quer fique viva ou morta estarão sempre juntos. Essa atitude dá novo ânimo aos guerreiros. Sem dúvida uma bela cena!
Os navios espanhóis, ao vislumbrarem os ingleses, baixam âncora, para aguardarem o que sucederá. As embarcações incendiárias aproximam-se o mais perto possível e ao ficarem quase colados, encharcam os barcos com piche e ateiam fogo, jogando-se ao mar. Os inimigos, encontrando-se ancorados, levam algum tempo para poder atacar, mas, surpreendidos, acabam derrotados. A câmera sob a água apresenta cenas extraordinárias, pois mostram as pessoas, os pertences dos navios como terços e cruzes e um lindo cavalo branco, afundando no mar.
Felipe, durante a batalha, reza sempre diante de um castiçal com vela acesa e diz a Deus que ele é a luz e Elizabeth a escuridão. Derrotado apresenta-se com seus guerreiros à Elizabeth. Arrasado e aniquilado pede perdão por sua arrogância ao Senhor, que enviou sua ira contra ele. Esse tipo de superstição é que a rainha não tolera.
Passado esse episódio, a alteza real pede para abençoar o filho de Bess e Walter. Com ele em seus braços, reflete o quanto é solitária: solteira, sem filhos e sem marido. Contudo é a mãe do povo inglês, sua Rainha e Dona de Si Mesma. Pede a Deus que a proteja de liberdade tão prodigiosa.
Todos os atores representam divinamente bem nesse filme, as cenas são muito reais, os diálogos atuais e inteligentes. A mulher de hoje exerce quase o mesmo papel duplo que Elizabeth exercia. A perseguição vê-se, hoje, representada pelos extremistas islâmicos ou qualquer outro setor intransigente da sociedade. O figurino é admirável, com seus vestidos de veludo e seda, suas enormes golas de finíssima renda e os bordados caríssimos. A ambientação é perfeita, os pálios claros e enfeitados sempre sobre a majestosa rainha. As festas, a comida farta e a rica prataria e porcelana. O trono do castelo e todo o seu mobiliário ajudam-nos a compreender melhor a pujança inglesa do século XVI.

MUTUM de Sandra Kogut


AGRURAS DO SERTÃO

Fui assistir, hoje, MUTUM, filme inspirado na obra de GUIMARÃES ROSA. Um livro desse escritor excepcional foi adaptado por Sandra Kogut (2007).
Descreve as agruras do sertão brasileiro sob a ótica de dois irmãos, que não são apenas irmãos, mas melhores amigos. Uma ligação profunda, honesta, sem a menor sombra de desconfiança ou traição. Tudo é aberto entre eles. O sertão é retratado, não na seca, mas no auge de toda a sua beleza e esplendor. As árvores de porte médio, os verdes arbustos, a incrível variedade de pássaros, os rios cristalinos, a chuva pesada riscada por relâmpagos, o gado, a roça, o céu perfeitamente azul.
O relacionamento dos garotos, que moram em um pequeno sítio com toda a família, é carinhoso e confidente. Trocam experiências e dividem os medos, típicos de crianças de dez ou onze anos: medo da briga entre pais, da avó desencantada e sofrida, do pai muito severo. Dormem no mesmo quarto e breves delicadezas trocadas, na hora de dormir, como contar histórias ou fazer um afago para o sono chegar, são um alívio para os pequenos. A mãe é carinhosa, sóbria e atenciosa com os garotos. Carinho e compreensão paterna não existem, pois no sertão para sobreviver é preciso “pele grossa, sola dura no pé, corpo rijo, mãos calejadas e pouco sentimento”. Conflitos cotidianos dos adultos são vistos pelas crianças que, desinformadas, assustam-se a ponto de Thiago perguntar ao mais velho, Felipe, se é pecado não gostar do pai e da avó. Felipe tenta acalmá-lo dizendo que quando crescerem gostarão de todos, ao que Thiago retruca que ele tem medo de ser adulto e o filho não gostar dele, como ele não gosta do pai. Esses parcos diálogos que permeiam o filme é que fazem a sua beleza. No sertão não se tem vocabulário grande, nem tempo para reflexões e Thiago é sensível e reflexivo. O pai prefere o mais velho, mais direto e forte. Com a morte repentina do irmão, Thiago fica desolado e o pai, muito magoado e transtornado, acaba matando uma pessoa e abandonando a família. A caminho de uma caçada, chega ao sítio um médico. Conversando com a mãe, descobre que estão em grandes dificuldades e que nosso pequeno herói é míope, pois quando coloca os seus óculos vê que existe “tanta claridade”. O seu amadurecimento é precoce em virtude das perdas e do grande pesar. Alguns dias depois da chegada do médico, sua mãe, com os olhos cheios de lágrimas e voz serena, pergunta se ele não gostaria de morar na cidade, estudar e ter um bom emprego. Thiago alarma-se e ela sugere que o médico estaria disposto a cuidar dele, para sempre, e quem sabe um dia toda a família se encontraria na cidade. É um momento de extrema tristeza e dor. Thiago não diz nada, pensativo. Contudo, ao ver o médico dirigindo-se para ele, sua decisão está tomada. Pede emprestados os óculos por um momento e olha, pausadamente, todo o entorno do sítio: a natureza, a casa, as primas, as tias, a avó e a mãe. Devolve os óculos e monta no cavalo. Galopando parte atrás do médico e de seu futuro. Pobre mãe. Pobre filho! Tomarem uma decisão tão difícil!

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O amor nos tempos do cólera








Filme de Mike Newell adaptação do livro homônimo de Gabriel García Márquez

Trata-se de uma belíssima história de amor, ao mesmo tempo, universal e atemporal. É uma história crivada de reflexões, cartas, pétalas secas de rosa, espera, lembranças que teimam em continuar vivas e uma eterna paixão. O filme começa quase no seu final, em 1930. Num luxuoso solar colombiano, morre seu proprietário, um médico querido do povo pelo seu desempenho nos tempos da epidemia cólera. O repicar prolongado dos sinos é ouvido pelo seu rival, Florentino, agora um septuagenário. Vemos a condoída viúva com seus filhos durante o funeral. Quando Fermina entra em sua casa encontra Florentino, seu primeiro amor, timidamente segurando o chapéu. Ao vê-la, sem nenhuma hesitação, declara seu amor incondicional e único, mas esse é um momento de muita dor e ela o expulsa da casa. A partir daí o passado dos dois será revelado.
Nos idos de 1880, em Cartagena, Colombia, o jovem telegrafista, Florentino Ariza (Javier Bardem, excelente) filho ilegítimo de um homem rico, vive com sua mãe (Fernanda Montenegro) e trabalha perto do cais. Ao receber uma mensagem no telégrafo, tem que levá-la a um casarão maravilhoso de propriedade de um riquíssimo criador de mulas, recém chegado à cidade. Entrando na residência ,depara-se com a jovem, Fermina Daza (Giovanna Mezzogiorno), por quem se apaixona perdidamente. É seu primeiro amor. Um romance inocente inicia-se através de cartas apaixonadas. Com o passar do tempo Florentino, um jovem tímido, decide falar com sua amada, a fim de poder vê-la, tocá-la e beijá-la. Entretanto o pai de Fermina tem outros planos para ela, um casamento com alguém culto, rico e respeitado, para que se torne uma verdadeira dama. Percebendo a audácia de Florentino quanto à sua paixão, pois este lhe revela que não teme morrer por amor, decide enviá-la para uma fazenda, no meio da floresta tropical, quente e distante. O relacionamento continua, por telegramas, e no decorrer de um longo tempo eles não se vêem.
Chegando novamente em Cartagena, seu pai, homem muito astuto, entrega à sua filha a chave da casa, dizendo-lhe que agora seria a dona do solar, pois mais amadurecida, poderia cuidá-lo como quizesse. A responsabilidade estampa-se no rosto de Fermina. Agora é só ela e o pai viúvo. Florentino, que jamais a esqueceu e acreditou nas suas cartas de amor, aborda-a em um mercado. Contudo ela o rejeita, alegando que ao vê-lo, depois de tanto tempo, não o queria mais. A cólera arrasa a cidade e seu pai chama um médico, Dr. Juvenal Urbino, para examiná-la. Ali surge uma atração entre ambos, principalmente pelo olor irresistível exalado de seus cabelos. Casam-se e viajam para Paris. Florentino assiste a todo esse processo, incrédulo. Jura que nunca deixará de amá-la, mesmo à distância. Muitos anos se passam e Florentino de um jovem solitário passa a ser um homem atraente, carismático e rico, pois seu tio o nomeara para a presidência da firma de navegação fluvial. As mulheres adoram-no e ,perguntado por um grande amigo, a razão de tal sucesso confessa que talvez seja o fato de ele ser simples, aparentemente carente de amor e sincero. Apesar de todas as mulheres que contabiliza num caderninho, com o título de “Mulheres” (agora são mais de setecentas) ele se considera um "virgem" a espera de seu verdadeiro amor. Apaixona-se, novamente, mais uma única vez. A amante é muito jovem e recém-casada e é assassinada a golpes de faca por seu marido, quando descobre que ela o trai. Arrasado pelo acontecimento que ele provocara, reflete sobre o amor, suas idas e vindas, a inconstância, o desejo nunca realizado e a obsessão que, apesar de amenizada, nunca é esquecida. Voltamos ao inicio da película. Ao ouvir os sinos dobrarem, estava com uma jovem amante, mas se apressara para ver Fermina, pois agora, depois de mais de cinqüenta anos chegou sua chance única!
Florentino não desiste de Fermina tão facilmente, aos poucos conquistando seu amor e principalmente sua confiança. Decididos a tomar alguma posição mais concreta, decidem viajar num dos barcos da Compania. A viagem é feita na suíte presidencial, que ele gostaria que se chamasse “suíte de lua de mel”. Dando todo o tempo necessário a sua amada, chegam, finalmente, a fazer amor. Um amor maduro, sem medo, sem impedimentos. Ela receiava que seu amado se decepcionasse com seu corpo envelhecido de uma senhora de setenta e dois anos, contudo, apaixonadamente é recebida e bem vinda por ele!
O diálogo entre os amantes é sincero e reflexivo. Como ela poderia ter sido feliz em um casamento imperfeito? Como pode se casar com alguém que admirava, mas não amava? Florentino responde que o amor deles é uma fina substância a espera de “seu senhor”. A última cena é de um colorido maravilhoso, um por do sol refletido no rio, com fortes nuances de ouro e marrom e toques de prata, representando a finalização de uma espera que valeu a pena!

domingo, 3 de agosto de 2008

Meu Irmão é Filho Único



De Daniele Luchetti



Neste ótimo filme dos anos 60 vemos o povo italiano como o imaginamos aqui: barulhento, político, bem informado, contestador e revolucionário. A cena abre com um local simples e pouco movimentado, um céu muito azul e um ônibus igualmente azul. O veículo parte e o narrador (excelente Elio Germano!) começa a falar que seu irmão mais velho, Manrico (belíssimo Riccardo Scamarcio) fora o único a despedir-se dele em sua partida para o seminário. O garoto (ótimo Propizio) queria ser padre e levava muito a sério sua vocação. Próximas cenas: ele já se encontra na escola e sendo um ótimo aluno tem notas altas, principalmente em latim, sua paixão. O irmão é o único a visitá-lo, depois de algum tempo, e não se conformando com sua escolha, entrega-lhe uma foto, que diz ser de sua namorada. Encantado o jovem adolescente, que ainda usa calças curtas, se apaixona pela moça da foto e não consegue parar de se masturbar e de pensar nela. Aflito, confessa ao padre que cometeu um pecado mortal, mas este lhe dá como penitência apenas seis padre-nossos e seis ave-marias. Inconformado briga com ele, pois precisa ser punido duramente por ter cometido um pecado mortal! Seu confessor pede para que vá jogar pebolin com seu sobrinho. Possuidor de um gênio irascível e determinado a fazer as coisas direito, Accio acaba abandonando o seminário e volta para casa, mas para sua surpresa é mal recebido por toda a família. Sua mãe, seu pai, sua irmã Violeta e seu irmão. Estavam todos muito bem acomodados, Violeta e Manrico dormindo no mesmo quarto com mais espaço e seus pais com menos trabalho, além “de desejarem ter um padre na família, que é o mesmo que ter um médico. É sempre útil”. Accio é amigo do contrabandista Mário (o fascista) e com ele aprende muito sobre o Duce e sua doutrina, tornado-se um membro do comitê, com carteirinha e tudo mais. Mário ensina-lhe os princípios de política, que ficaram com ele por toda a sua vida. “É preciso não trair: não trair nunca o amigo, a nação e a idéia, porque a idéia é A IDÉIA. Quando Manrico, um fervoroso comunista, fica sabendo do incidente pega a cabeça do irmão, para limpá-la dessas idéias, e a mergulha, em um tanque cheio de água, diversas vezes. Na última vez que o faz vemos Accio já um rapazinho tirando a cabeça do tanque, pelo fato do dia estar muito quente. O tempo passou e o rapaz quer, por ter se formado com ótimas notas no ginásio, cursar o clássico, a fim de poder exercitar o latim. Contudo é forçado pelo pai a ser “geógrafo”, por ser mais fácil de arranjar emprego. Accio continua dormindo em uma poltrona dobrável no corredor. Sem quarto estuda matemática na sala da humilde casa. Seu pai é operário, sua mãe faz tricô para ajudar no orçamento doméstico e seu irmão é operário na mesma fábrica que o pai. Nesses anos conturbados no mundo inteiro, cada pessoa seguia uma linha política, mesmo aqui no Brasil da ditadura, ninguém era indiferente. A mãe do jovem era “do partido da casinha”, pois prometiam para quem votasse nele, doar-lhes uma simples, mas sólida casa. A Itália se encontrava convulsionada com comunistas, fascistas, democratas e aristocratas, todos se engalfinhando pelas suas convicções. A casa de nossos personagens era o protótipo da nação! Manrico é um grande líder sindical, orgulhoso de seu emprego e seu cartão de ponto. Logo que começa a trabalhar compra um carro, em prestações. Sua fogosa namorada meio-francesa Francesca (Diane Fleri), filha de um engenheiro que não vê com bons olhos o namoro, mora na mesma cidade que eles, Latina, no sul da Itália. Accio é brilhante, pragmático, inteligentíssimo, e apaixonado platônico pela belíssima meio-francesa, Francesca. Quando a mãe sai para trabalhar, os namorados aproveitam para fazer amor no quarto contíguo à sala e Accio é obrigado a ligar o rádio bem alto para não ouvir os rumores e gemidos dos dois. O namoro é conturbado, pois Manrico “não é alguém com quem se possa contar”. Sendo um comunista contumaz ele está sempre ocupado com “ações”, que o partido faz. Nesse ínterim Accio, também fanático, se envolve com pessoas do partido fascista em Roma, e, mesmo para os padrões deles, é insuportável, levando uma sova de seus companheiros. Nosso jovem narrador acaba se envolvendo com Bella, mulher de Mário e quarentona, quando este é preso numa de suas muitas manifestações. Apaixonada pelo rapaz, ensina-lhe muita coisa sobre sexo e política, as quais ele acha que serão muito úteis quando passar dos sessenta! O caso se prolonga e Bella lhe presenteia com um carro novinho, que também é pago em prestações! Há, entretanto um acontecimento determinante nessa história. O “frio e calculista” Accio é julgado por todos como sendo uma pessoa que só pensa na nação e no Duce (em uma cena hilária, ele, junto com muitos outros jovens, em frente a um monumento edificado em honra a Mussolini, com a maior seriedade levantam os braços com punhos cerrados e gritam DUCE, DUCE, diversas vezes, terminando em uma grande confusão). O fato é que, durante uma noite, Mario e seus amigos fascistas haviam combinado colocar fogo no carro novo de Manrico, que lhe confidencia o fato. Os dois estão conversando dentro dele, mas Accio não acredita no que é dito e sai batendo a porta. Manrico reclama que ele vai estragar o carro e Accio responde que não faz mal, pois vai ser queimado mesmo! Entretanto, quando Mário chega com seus militantes, é surpreendido pelo jovem irmão que se encontra dentro do veículo, guardando-o, caso haja alguma ocorrência. Ele o defende com unhas e dentes dos fascistas, que prometem não incendiá-lo, mas ao dar as costas ouve uma explosão. Esse fato faz com que nosso herói rasgue sua carteirinha e se torne comunista para alegria de toda a família. Muda de partido, mas sua constância partidária continua a mesma, ou seja, TOTAL. Ele não sabe se doar pela metade, tudo em Accio é exuberante e apaixonado! Algumas cenas políticas engraçadas e sérias ao mesmo tempo continuam acontecendo. Temos, nesse instante, toda a família e Francesca que agora mora na cidade de Turim, em Roma, para um concerto (comunista) de música de Beethoven. Lá está a nata do comunismo, que segundo eles, é uma doutrina flexível como a música, e por isso algumas adaptações serão feitas na peça desse gênio surdo! Violeta, já formada, tocará violoncelo. Accio encontra Francesca no recinto e ficando feliz diz que ela está um pouquinho mais gorda, mais bonita. Durante a execução da excêntrica apresentação ouvimos um coro que canta:“ Hitler, Mao Tsé-tung, Marx, Lenin (e outros) marcharam em direção ao Sol”, entretanto um bando de fascistas (ex-amigos de Accio), invade o teatro e joga panfletos reacionários em cima das cabeças dos convictos comunistas. Uma confusão sem igual sucede no local, todos se esbofeteando, se esmurrando, se xingando e acabando em prisões. Agora, Accio se encontra em um parque, após o ocorrido, com Francesa e lhe dá um beijo, mas ela o repele bruscamente e diz estar grávida de três meses de seu irmão, que não aceita o fato. Nesse momento Manrico chega e os três jovens se comprazem, abraçando-se e se vendo como uma verdadeira linhagem. Em uma noite, Manrico atira na perna do diretor da fábrica para ficar com sua valise cheia de dólares e ajudar na revolução. Seu irmão desaprova, mas pede que ele fuja para o norte da Itália e continue sua luta. Encontrando Bella, sua amante, acaba com o relacionamento e pergunta por Mário, que já saiu da prisão e sabendo do caso deles prometera matá-lo. Apesar da seriedade do assunto é uma cena muito espirituosa, pela expressão dos ótimos atores. Passa-se o tempo, sua mãe e outras mulheres do povo, apesar de protestarem no “partido da casinha” não conseguem nada. Os meses correm e acidentalmente Accio vê a mulher de seu irmão com seu filhinho no carro. Abismado por ela estar afastada a muito tempo de Manrico, tenta consolá-la, mas quando Francesca o convida a morar em Turim e levar o sobrinho para brincar no carrossel, Accio se zanga e reponde que “apesar de ter uma vida de merda, é a vida dele”. Dois anos já se passaram, Mário morreu de enfarto durante uma briga com nosso herói, o qual considerava como seu filho de convicções, traidor político. Accio recebe pela primeira vez um telefonema de Manrico. Ele pede para que Accio pegue a sacola com o dinheiro do crime e a leve, urgentemente, para Turim, no bar Secco. O rapaz, que presentemente já é um geógrafo formado, parte para encontrar o irmão. Antes de ir ao bar telefona para seu apartamento e é Francesca quem atende e desliga ao ouvir sua voz. Novamente liga para perguntar onde está Manrico, pois ele ainda não chegara ao bar Secco. Ela responde que há dois anos não o vê, que ele a abandonara. Logo após essa cena, vemos os dois irmãos se abraçando e dizendo palavras de carinho e amor. Em um relance, Manrico vê Francesca chegando, e atrás dela alguns homens, que dizendo ser da polícia, apontam suas armas e matam nosso comunista, que havia sumido para preservar a vida de sua mulher e seu filho. Fechando o filme, Accio aparece, de costas, segurando o sobrinho pela mão e o levando para a casa de seus pais, que ao saberem da notícia choram a perda do filho, mas são compensados pelo netinho que não conheciam e pela presença de Accio. Uma janela é quebrada, um compartimento é estilhaçado e Accio está dentro da loja do Partido das Casas Populares. Pegando os fichários e todas as chaves das casas que já estão prontas, mas não serão nunca entregues, liga para sua mãe e todas as mulheres inscritas, apesar de ser tarde da noite, convocando-as e seus familiares a comparecerem, em grupo, para tomarem posse de seu maior bem. Vemos uma série de casas, a beira mar. Depois vemos Accio, na varanda, recebendo a brisa marítima e o sol no rosto, mais um flash e seu rosto todo, lentamente, é seguido de outro, mostrado apenas em seu quarto, que não pode ser identificado. Por fim, cada um deles é mostrado pela câmera que não tem pressa em passar. Trata-se do semblante de Accio e em seguida o rosto de um menino sorrindo, com seus dentinhos caninos apinhados, seu sobrinho... Assim Accio vingou a morte de seu irmão e garantiu a unidade de sua família e de tantas outras, o que tanto prezou a vida toda!


Avaliações
Meu Irmão é Filho Único, dirigido pelo ótimo diretor Daniele Luchetti, de 48 anos, foi baseado no livro de Il Faciocomunista de Antonio Pennachi. Os atores são ótimos dando vida e grandeza à história. O diretor relata em uma entrevista ao Estado de S. Paulo que: “Filmamos como se os eventos fossem reais. A conseqüência foi essa sensação de coisa verdadeira, além de um frescor e um comprometimento pessoal de todos que me permitiu dispor de um material muito rico para montagem”. Os personagens variam do trágico ao cômico, sem nunca perder o seu fio condutor. Vivas ao novo cinema italiano.
Um pouco de história – Hittler apóia o fascismo italiano e em 1939 firma com Mussolini um pacto de ajuda militar, formando junto com o Japão o eixo Roma-Berlim-Tóquio. Depois da derrota na guerra, Mussolini é executado. Em 1946 o rei Humberto abdica. O primeiro partido, pós guerra, foi o democrata-cristão. Em 1947 novo governo comunista-socialista. Em 1948 quase chegam à guerra civil. Em 1963 Aldo Moro, democrata cristão, forma um partido de coalizão com 4 partidos, sendo ele o primeiro ministro. Isso se passa há um ano após o início do filme. Daí vemos todas as divergências políticas e atos de brutalidade. No final dos anos 60 e início dos 70 ocorrem diversas coalizões governamentais, com curta duração. A péssima situação política, econômica e a onda de seqüestros assolam o país. Enrico Belinguer do Partido Comunista passa a ser secretário geral. A violência e anarquia se tornam mais virulentas e terroristas de extrema esquerda iniciam uma série de ataques – As Brigadas Vermelhas. A situação passa a mudar discretamente a partir de 1981.