sábado, 23 de agosto de 2008

Sangue Negro




de Paul Thomas Anderson

Esse filme genial foi baseado livremente na obra de Upton Sinclair, Oil, publicado em 1927, um de seus melhores livros. Dirigido, magistralmente, por Paul Thomas Anderson, em planos longos, onde a imagem limpa e grandiosa, nos mostra todo o talento de seu elenco e diretor. A música dissonante é outro elemento que engrandece o filme.
Ano 1898, a primeira cena nos mostram uma paisagem com um belíssimo céu azul, sobre montanhas inóspitas, e um solo infértil, onde nada cresce. Um paupérrimo jovem mineiro, Daniel Plainview (excelente Daniel Day-Lewis) escava sozinho uma mina e depois de achar uma pepita, escorrega numa escada rústica e quebra sua perna. Sua dor nunca o deterá em nenhuma das metas de sua vida: dinheiro, poder sobre as pessoas e determinação em se tornar importante e respeitado. Arrastando-se consegue vender seu metal e começar uma insipiente prospecção de petróleo na Califórnia. Aí começa uma cruzada de luta entre diversos personagens - ricos magnatas de petróleo, jovens e pobres prospectores, políticos e mesmo um ambicioso rapaz, que pretende formar uma nova igreja evangélica. Esta é a saga dos americanos que sempre acreditaram que religião, prosperidade, trabalho árduo e desempenho seria a meta para uma nação poderosa e reverenciada, enfim o empreendedorismo e o império.
Ano 1902. Com dois ou três empregados, tendo um deles um menino de menos de um ano, Daniel tenta obter sucesso em sua pequena perfuração, quando o pai do bebe morre em um acidente, dentro do buraco. Chocado, pois zelava pelo bem estar dos companheiros, adota-o, por compaixão ou interesse, como filho, o tratando com carinho e lhe transmitido sua perseverança, ambição e como negociar, sempre com sucesso. Plainview é obcecado pelo seu trabalho, não dando folgas a seus subalternos, já que ele mesmo não para de trabalhar, morando no próprio local das perfurações. Ano 1911. H.W. (Dillon Freasier), já é um rapazinho, sempre ao lado do pai, que o apresenta como sócio por trata-se uma empresa familiar. A palavra final no desfecho das negociações ficava com seu filho, que é seu sócio. Em sua busca de aquisição de novas terras, promove reuniões com os rancheiros, fazendo questão de apresentar seu menino e de transmitir a esse povo rude a impressão de estarem fazendo um ótimo negócio, falando de maneira simples e assertiva. Procurado por um astuto jovem, Paul (ótimo Paul Dano), acaba lhe pagando uma importante quantia em dólares como troca da localização, onde segundo Paul, haveria um oceano de petróleo, distribuído por diversas fazendas que tinham um preço muito baixo. Chegando a Little Boston, a guisa de montar um acampamento para caçar codornas, descobre que lá é realmente a casa da família de Paul Sunday. A venda é realizada pelo pai sob a influência do ambicioso filho pastor, Eli Sunday, que recebe uma quantia menor do que fora proposta por ele. Ponto para Daniel. Esse encontro marca o início do filme, que girará em torno desses personagens tão díspares e ao mesmo tempo tão iguais em suas ambições desmedidas. A rivalidade entre os dois começa quando o astuto e mais vivido Daniel impede que o ambicioso Eli abençoe a recém aberta mina, proferindo exatamente as palavras do jovem pastor, que rancoroso, aguarda a sua vez. Eli torna-se um importante parceiro na compra de todas as fazendas vizinhas com exceção de uma. Ajudando a construir uma pequena igreja para Eli, prometendo educação, prosperidade, saúde e vida familiar e é muito bem recebido pela comunidade. Durante a perfuração do primeiro poço de petróleo, quando o gás explode, carregando tudo, seu filho fica surdo e apavorado por não poder ouvir a própria voz. Ponto para Eli. O relacionamento entre pai e filho ainda é bom, mas H.W. transforma-se de um menino audaz em um garoto inseguro e quieto, que mal sai de sua cama e não é estimulado. Contudo seu pai exige que venha algum médico examiná-lo, mas seu caso não tem solução. Está irremediavelmente surdo. Plainview é interpelado por um homem que diz ser seu irmão, filho do pai com outra mulher. Desconfiado, acaba aceitando o fato após algumas perguntas pessoais. Com seu irmão consegue falar de seu passado, que até então não sabíamos nada. Confessa ser um homem cheio de ódio e rancor por todas as pessoas, sem exceção. Ódio adquirido aos poucos e que o satisfaz. Não gostando do pai e querendo tornar-se rico e morar num local bem afastado, sai de casa ainda garoto. Durante esse primeiro tempo, seu filho H.W. descobre o diário do tio, junto com a foto de uma criança de meses. Daniel passa a ter um comportamento diferente e resolve mandar o filho para um local desconhecido e ficar livre com o irmão para trabalhar. Entretanto, Eli vai ao seu encontro para receber cinco mil dólares prometidos para sua igreja, que fora construída com o dinheiro de Daniel, mas já se encontra pequena em vista do grande número de fiéis que já conseguira arrebanhar. Todos batizados com o sangue de Cristo. Furioso por não ter sido visitado durante a doença de H.W., Daniel o chama de falso pastor sem caridade por ninguém, pensando somente em seu bem estar. Seu rosto é esfregado no óleo preto e ele sai humilhado e sem nenhum dólar. Ponto para Daniel.
Fazendo o traçado dos dutos que sairão no mar para serem transportados, percebe que um pequeno pedaço de terra não lhe pertence e quer comprá-la, mas seu dono é o velho que não quisera vendê-la, há muitos anos, por Daniel não ter comparecido em sua casa. Resoluto, parte ao encontro do fazendeiro que não se encontra lá. Sendo mal tratado pelos netos do lavrador, continua a marcação do solo até que é abordado pelo senhor, enquanto dormia, com uma arma na cabeça. Tentando negociar percebe que o melhor é ceder e eis que aparece seu inimigo Eli. Os dois o coagem a se dirigir à igreja, a fim de que ele seja batizado com sangue e faça parte da comunidade religiosa, sendo forçado na frente de todos fiéis a doar os cinco mil dólares que havia negado. Essas são cenas fortes, pois ele é repetidamente esbofeteado pelo jovem pastor, até que o demônio saia de sua alma e obrigado a confessar, aos gritos, que abandonara seu único filho. Era um pecador. Ponto para Eli.
Junto com seu irmão viajam em direção ao oceano e, em um pequeno restaurante, encontram-se com magnatas do petróleo, com os quais tem uma grande desavença ao ser questionado sobre o filho, apesar da enorme quantia de dinheiro que lhe é oferecida pelas suas terras. Chegando ao mar da Califórnia com seu irmão, quase despidos, se atiram nas límpidas águas do Oceano Pacífico. São momentos de descontração e confidências. Na areia, porém, alguma coisa muito errada acontece no diálogo entre eles. Repentinamente Daniel corre e se joga no mar, tendo atrás de si uma enorme onda azul. Não pode mais ficar parado, pois percebera que o irmão não era o verdadeiro, o estranho mentira sobre sua identidade. Essa, sem dúvida, é uma das melhores cenas do filme, bela, incisiva e contundente. Depois de reler o diário e ver a imagem de seu verdadeiro irmão é tocado por sentimentos sensíveis e chora, agarrado à fotografia. Friamente, mata seu oponente apesar de ele se mostrar arrependido. Pragmático volta para Little Boston, mandando buscar seu menino. É efusivo na sua chegada, mas recebe de volta o merecido. H.W. não quer desculpas e o ataca. Esse incidente não desagrada o duríssimo Daniel Plainview e juntos voltam à estrada da vida. Em um requintado restaurante pede filés para os dois, quando o mesmo grupo de magnatas do petróleo entra no recinto. Primeiro é esnobado e depois assediado por um deles, assim iniciam uma constrangedora confusão e Daniel mostra como seu filho está bem e feliz.
Ano 1929. Em sua estupenda mansão rodeada de jardins e imponentes árvores, H.W. casa-se Mary Sunday, sua amiga de infância. Durante uma requintada cerimônia religiosa, os votos são feitos com a linguagem dos sinais, que ambos dominam desde sua volta na infância.
Agora Daniel Plainview é um homem plenamente realizado, respeitado e milionário, contudo mantém intacta sua alma de personagem simples e calada. Um dia, recebe o filho, em seu suntuoso escritório. Ele vem acompanhado de um intérprete para falar com seu pai, que não domina a linguagem dos surdos. Comunica sua decisão de sair de casa com a esposa, Mary, ir morar no México e começar a trabalhar ao ar livre, fazendo o que sabe e gosta: perfurar postos de petróleo. Indignado, Plainview exige que ele fale e não gesticule, sendo obviamente impossível. Daniel o chama de concorrente, mas H.W. reponde que é completamente diferente, pois estará em outro país e que já chegara a hora de se separarem, e cada um ter sua vida. “Pai e filho?” Exclama Daniel, descerrando o mistério que levara por tantos anos. Revela que H. W. era um órfão, bastardo, tirado de uma cesta. Que fora criado como filho só por que necessitava de um rosto bonito para dar mais agilidade às suas negociações e que ele. não tinha uma só gota de seu sangue e, ademais, fizera muitas coisas incorretas às suas costas. Aquietando-se e em controle da situação H.W. abandona Plainview, com dignidade. Essa será outra enorme desilusão para Daniel que relembra o carinho que tivera pelo filho adotivo.
Sempre bebendo, furioso e cheio de ódio pelo ocorrido, adormece no chão da sala de boliche de sua mansão. É acordado por seu mordomo e ao seu lado vemos Eli, elegantemente vestido com uma caríssima roupa de pastor preta, dizendo que viajará em novas missões para angariar mais devotos e que necessita de sua ajuda. Negando-se, veementemente, a ajudá-lo é ameaçado por Eli a lhe dar mais dinheiro, pois a verdade é que se encontra falido. Enlouquecido sai com um pino de boliche na mão atrás do chantagista e faz com que receba o mesmo tratamento dado por Eli, anos atrás. Faz com que ele proclame em voz alta, repetidas vezes que é um falso pastor e sem fé em Deus. De tanto repetir a mesma frase acaba reconhecendo a verdade e cai, sendo lembrado pelo magnata que Paul Sunday era muito mais astuto e inteligente do que ele, pois se tornara um talentoso prospector de petróleo independente. Sendo agredido mortalmente com o pino pelo rancoroso homem falece em uma possa de sangue. Completamente só, depois de dois assassinatos e de perder seu filho, conta apenas com seu dinheiro e seu fiel mordomo! Ponto para Daniel?

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O ASSASSINATO DE JESSE JAMES


de Andrew Dominik
Este é um filme que poderia ser chamado de saga. Mas uma saga psicológica, após a Guerra da Secessão na América do Norte (1861-1865) É um filme de rostos, de faces enigmáticas, de cores claras, verde acinzentado, branco, preto, um pouco de cor terra e de muita introspecção. O competente diretor Andrew Dominik faz uma excelente adaptação do romance homônimo.
O mais famoso bandoleiro americano dessa época é Jesse James da família James. São os irmãos mais famosos do oeste americano por serem implacáveis e jamais se deixarem prender. James é descrito pelo povo como bonito, de olhos azuis penetrantes, inteligente, vigilante, astuto, cruel, gregário e inclemente. Durante os primeiros momentos do filme você comprova todos esses adjetivos e, pela atuação brilhante de Bred Pitt, é forçado a concordar. Vemos então a sucessão das mais variadas expressões: medo, vigilância, desprezo, atenção absoluta. Os irmãos James acampam perto de uma estrada para realizar seu último roubo. Será um trem com passageiros. Auxiliados por alguns caipiras da região e alguns primos, montam uma emboscada, durante a noite, para pararem o trem. O assalto é bem sucedido e assistimos ao comportamento violentíssimo de Jesse que mata e antes de matar avisa às vítimas dos seus destinos e se compraz com a angústia delas esperando demoradamente pelo desfecho cruel e sanguinário. Esses avisos da morte próxima e da angústia atroz de suas vítimas é que fazem a grande diferença para Jesse. Ele gosta disso e se sente muito mais poderoso como dono total dessas vidas, que não serão poupadas. Mas qual a razão de tanto desencanto e desprezo com as vidas humanas? Aí, o narrador do filme informa-nos que sua família fora dizimada, durante a Guerra da Secessão, e ele jurara vingança contra as pessoas e o governo americano. Sulista que era, temos, então, outro componente, o político. A somatória dos dois é muito pesada e forte. Jesse tem uma família amorosa, mulher e dois filhos (um garoto e uma menina), belas casas, das quais se muda sempre devido aos assaltos. Veste-se primorosamente bem, este é um detalhe marcante na sua personalidade. Resumindo, quase duas vidas: da criminalidade e do homem carinhoso e elegante. Durante a preparação do roubo do trem, Jesse é assediado por um jovem de dezenove anos. Um jovem inseguro, todavia persistente. Adulador consegue despertar a vaidade em Jesse, que o aceita como parte do bando. Bob Ford também vem de uma família de foras de lei, a família Ford, que em nada lembra a ferocidade dos James. Bob é interpretado por Casey Affleck, que rouba o filme, tal o seu desempenho postural e facial.
Desde a infância, Robert se entrega, como muitos americanos desencantados, às aventuras de Jesse e o idolatra, tendo, mesmo, uma caixa repleta de revistas baratas com as aventuras de seu maior e único ídolo. Após o assalto, James separa-se do bando, mas intuindo algo, leva Bob para sua casa, que o venera e observa cada detalhe de sua fala, cada maneirismo, cada gesto, retendo na sua memória todos esses detalhes, como querendo incorporá-los: ser o próprio Jesse James. Ao perceber algum gesto perigoso do rapaz, o manda de volta para casa. Bob, mesmo ignorado, se sente grande e importante pela proximidade com seu herói e começa a desenvolver uma autoconfiança que não existia, pois era sempre tratado com menosprezo pela família e amigos. À medida que se mostra mais obstinado e seguro, se desencanta gradativamente do mito. Já não basta ser parecido com James, quer ser adorado e reconhecido como ele. Neste momento da história, James já matou todos os seus comparsas, temendo que eles o delatem à polícia. Essas verdadeiras caçadas são cruéis. Encurralados como animais estão conscientes da morte que os aguarda, mas não sabem o momento exato em que ela ocorrerá. É o trunfo do filme. A perseguição e a morte anunciada, mas prolongada para produzir maior sofrimento e maior prestígio para o mito! Contudo Jesse está num rodamoinho de dores e sofrimento interno, está no auge de uma crise existencial. Numa das cenas pergunta ao seu caçado se já havia pensado em suicídio a que ele responde que há saídas mais honrosas e que a vida sempre vale a pena ser vivida.
Jesse cai desesperançado, sua vida não tem mais sentido. Simulando um novo assalto a um banco, convida Bob e seu irmão para compartilhar do roubo. Assustados, pois são os únicos que ainda não morreram, se vêem forçados a concordar. Começam as mais espetaculares cenas de perseguidor e perseguidos. Os três personagens sabem muito bem qual será o desfecho, mas ninguém assume o fato. O desempenho dos atores é fantástico. Os medos, os risos nervosos contidos, a vigilância mútua serrada, o ápice da vulnerabilidade de cada um. Nesse momento, encontram-se todos morando na mesma casa, no chalé de Jesse James. Vendo que toda a sua força foi esgotada e que a polícia está bem perto, Jesse provoca sua morte, pois o suicídio ou cadeia seria sua maior desonra junto ao povo que o admirava. Seria o fim do mito! Tirando suas armas, se posta de costas aos irmãos Ford, alegando que a gravura emoldurada está empoeirada. Sobe em uma cadeira para limpá-la e, observando através do reflexo do vidro, dá o tempo necessário para que eles percebam que essa é única oportunidade para livrarem-se dele. Os dois, sob fortíssima tensão, apontam a arma para James, que vê o exato momento de sua morte.
Sua casa se transforma em museu, seu funeral é colossal e até seu retrato, morto, é vendido aos milhares pelo país. O fim do homem não do herói! Anteriormente, Bob havia feito um acordo com a polícia e o governo para ajudar a caçá-lo. Agora era a sua vez de ser o grande mito americano de ser reconhecido, amado, aplaudido. Fisicamente parecido com ele, espera toda a glória que não vem. Sem perspectivas, passa a atuar, juntamente com o irmão mais velho, numa peça de teatro em que mostra como matou Jesse James. Após novecentas performances, se desentende com um espectador, que o chama de covarde, e a partir dessa briga começa a beber e a atormentar-se. Mais velho, compra um bar com o dinheiro da recompensa, todavia continua infeliz, os indivíduos não o perdoam e talvez ele mesmo não se perdoe. Assassino de um ídolo! A trilha da vida se repete. A família James foi assassinada, James foi assassinado e agora chega a hora de Bob. Um lunático, pobre e sem destino pega uma espingarda, coloca a munição e entrando no bar, bradando por Bob, desfecha um tiro certeiro no rosto de Robert, cujo irmão também já havia se suicidado, vitimado pela amargura e culpa. Esta é a triste saga dos nossos pobres heróis foras da lei! Não conseguiram resistir às próprias consciências!

Das Leben der Anderen idealizações



De Florian Henkel Von Donnersmark

Adoro cinema. Por duas vezes seguidas, assisti a filmes que se referem às idealizações pessoais, embora muito diferentes. Um é o do título e o outro O Assassinato de Jesse James... As convicções do ser humano que mudam sob determinadas circunstâncias são, quase sempre, muito saudáveis O Assassinato de Jesse James é um filme de expressões fortes, este é um filme mais difícil, pois o protagonista, um espião comunista (Ulrich Muhe) consegue interpretar, magnificamente, com pouquíssimos movimentos faciais um insensível agente comunista. O cenário é a Berlim oriental de 1984. Em pleno regime comunista, com a polícia política Stasi e seus homens que controlavam e espionavam tudo e todos. Gerd Wieler (Ulrich) ministra aulas para jovens espiões. Suas regras são duras e desumanas, como observa um de seus alunos, mas o que importa para ele é um comportamento rígido e “patriótico”. Designado para vigiar um grande dramaturgo alemão, que é lido pelas duas Alemanhas, oriental e ocidental, e sua namorada, a maior atriz de teatro do momento (Christa), mostra-se duro e pragmático. Esse caso é uma questão pessoal. Após ver uma peça do escritor, Georg, e, furtivamente, o relacionamento amoroso e gentil com sua namorada, deduz, talvez por inveja, que há alguma coisa reacionária no ambiente dessas pessoas envolvidas com a arte. As cenas que se sucedem, mostrando uma Alemanha cinzenta e empobrecida, tanto intelectualmente como financeiramente pela falta de liberdade de expressão. Esses fatos fazem-nos refletir e emocionar. Os olhos de Wieler são o principal elemento condutor do filme. Sempre de um azul frio e insensível. Durante as escutas e gravações da vida do casal e seus amigos, alguma coisa muda na sua essência. Ao tomar contato com um mundo mais humano e sensível ele, um homem fiel à sua honestidade e inteligência, passa a moldar inconscientemente seu comportamento, influenciado pelos vigiados. Torna-se tão próximo a eles que chega a pegar, fortuitamente, um livro de Brecht do estúdio de Georg Dreyman, o lendo com intensidade e prazer. Outra bela cena do filme é quando desesperançado o dramaturgo toca de maneira apaixonada a Sonata Para Um Homem Bom de Beethoven e Wieler, na escuta, emocionado fica com os olhos marejados de lágrimas. A partir desse momento ele não pode mais se situar numa posição de puro opressor. Outros fatos, como corrupção e achaques dos poderosos do governo, colaboram com sua nova atitude. Gerd finalmente opta pela arte e pela liberdade, auxiliando, anonimamente, seus oprimidos. Isso lhe custa seu cargo e sua vida, indo trabalhar no mais baixo escalão do partido. Cinco anos depois cai o muro de Berlim. Georg consegue examinar os documentos sobre seu caso e descobre que foi salvo por seu espião. Comovido, sai à sua procura. Ao encontrar seu benfeitor em situação tão precária não o aborda. Algum tempo depois, Gerd, ainda como um trabalhador muito simples, passa por uma grande livraria e vê um cartaz do mais novo livro de Georg intitulado “Sonata para um Homem Bom”. Ao comprar o livro, Wieler folheando-o, encontra uma dedicatória que o comove profundamente, fazendo valer a pena o fato de ter vivido em consonância com sua consciência. Era “Em homenagem a GW”. Tributo maior seria difícil.
Ganhador do Oscar de produção estrangeira de 2007 é dirigido, magistralmente por Florian Henkel Von Donnersmark.

O CAÇADOR DE PIPAS


de Marc Foster

Livro de Kladed Hosseini - Adaptado e dirigido por Marc Foster (The Kite Runner)
Califórnia, 2000. Vemos um parque todo gramado e um jovem de feições árabes ansioso. Chega um mensageiro com uma caixa pesada. Recebendo-a, a leva para seu apartamento onde sua jovem esposa o aguarda. Abre-a, ansiosamente, e lá estão seus primeiros livros publicados. Sua esposa comenta que é como um primeiro filho e ele consente. Nesse momento toca o telefone. É um velho amigo de seu pai, ligando do Paquistão insistindo para que ele volte para lá, imediatamente, pois ele é um homem bom e o senhor está muito doente. O diálogo é tenso.
Afeganistão 1978. Crianças empinam pipas sob o céu azulíssimo, em um campeonato de pipas. A paisagem é linda com muitas pedras brancas e, ao fundo, uma cadeia de montanhas de pedras, recobertas por neves eternas, e poucas árvores que são veneradas pelos habitantes. Numa delas está gravado “Amir e Hassan sultões do Afeganistão”. Dois garotos, especialmente, são unidos como irmãos. Amir e Hassan participam do campeonato, mas perdem. Amir é bom e generoso e Hassan, que tem no amigo um ídolo se propõem a comer terra se isso aliviar sua dor, mas ele diz que jamais pediria isso. Entram em casa e lá está o pai de Amir, homem riquíssimo, culto e liberal, conversando com seu melhor amigo. Discutem sobre os comportamentos díspares dos dois meninos. Amir é fluente (quer ser escritor), porém, tímido e inseguro e Hassan, filho do caseiro Ali, é leal, fiel, destemido (levando sempre um estilingue no bolso), defendendo sempre seu companheiro nas brigas de rua com meninos maiores. O pai gostaria que Amir fosse igual a Hassan e seu interlocutor reponde que crianças não são livros de colorir, onde você escolhe as cores que prefere. Elas são como são. Amir ouve e vai para o quarto muito abatido.
No próximo campeonato eles vencem, graças à fibra de Hassan, e o pai fica felicíssimo, emoldurando a pipa vencedora. Hassan, em busca do papagaio perdedor, é estuprado e espancado por três adolescentes, cujos pais conhecem a família. A barbárie é observada por Amir que, tímido e medroso, se esconde para não ter de defender seu protetor, que chega sangrando, mas não articula uma palavra sobre o ocorrido. Esse é o momento crucial no término da amizade, por parte de Amir, que corroído pela inveja e se sentindo covarde, passa a ignorá-lo e planta uma acusação contra ele. Esconde seu relógio novo, no quarto do garoto, sob o travesseiro. Questionado pelo patrão, Hassan olha fundo nos olhos de Amir e confirma o roubo, para não deixá-lo constrangido perante o pai, homem com grande senso de justiça. É imediatamente perdoado, mas eles abandonam a casa por motivo de honradez, para desespero do patriarca, dono da habitação.
Um ano após esse incidente, os russos invadem o Afeganistão, deixando-o aniquilado, mas eles conseguem fugir para o Paquistão, à custa de muito dinheiro, em condições perigosíssimas, viajando precariamente pelas geladas montanhas.
Califórnia, 1998. O pai de Amir é dono de um posto de gasolina e um homem muito bem sucedido. É a formatura de Amir na faculdade local. Seu pai deseja que ele faça medicina, mas ele quer ser escritor, pois continua escrevendo diversas histórias. Moram em um bairro, predominantemente afegão, onde durante um bazar ele conhece e se apaixona pela filha de um ex general afegão, que não vê com bons olhos o namoro. Acuado ele não insiste, mas a garota também se enamora dele. O pai de Amir está muito doente e antes que o pior ocorra, pede a mão da jovem em casamento para o filho, mas antes de se unirem ela conta o seu passado: já morara por um mês com um jovem afegão, por quem se apaixonara, tempos atrás. Seu pai a segue e descobrindo o paradeiro deles, a obriga a voltar para casa. Amir aceita o fato e diz que a ama do mesmo modo. Casam-se, numa cerimônia típica, e o pai do noivo falece, mas não sem antes abençoá-los, os beijando com muito carinho e amor. Pouco depois, em decorrência do telefonema do início do filme, Amir parte para o Paquistão a fim de rever o tão querido amigo de seu pai, que lia todas as suas histórias de infância e o incentivava. Ao encontrá-lo, descobre que o verdadeiro motivo da chamada é um segredo: seu pai teve na juventude um filho com a criada da casa e Hassan é seu irmão, que ele tentou esquecer roído pelo ciúme. Hassan e sua mulher foram assassinados pelos talibãs, tentando defender a casa de seu pai, e só seu filho ficou vivo.
Amir custa a acreditar, mortificado por remorso e à procura de redenção, segue para sua terra natal, agora sob o jugo dos talibãs, em busca do sobrinho, que vive em um orfanato. A viagem é arriscada, mas ele a faz como uma expiação por suas culpas e fraquezas. O jovem rapaz fora vendido para um oficial talibã homossexual. Amir traça um perigoso plano para recuperá-lo, indo encontrar-se com o oficial, que não é outro senão o estuprador de seu irmão. As cenas são fortíssimas, Amir, espancado brutalmente, é salvo pelo sobrinho, que utiliza o mesmo estilingue do pai, e fere gravemente seu opressor. Voltam para o Paquistão, mas o velho amigo já havia morrido.
Califórnia, 2000. Seu sobrinho, por se sentir impuro e assustadíssimo, não se comunica com ninguém. Amir protege seu amado filho adotivo, já que não podem ter um deles mesmos. Defende-o com coragem e amor em todas as circunstâncias, inclusive enfrentando o sogro, arrogante general. Vemos o mesmo gramado em frente à sua casa. Lá estão muitas crianças de origem afegã, brincando com pipas. Nosso pequeno herói só observa, com seu rosto e olhos de origem hazara (a mesma de seu pai e tio) parecendo um pouco um mongol, nariz pequeno e cabelos lisos. Introspectivo não brinca com ninguém, mas Amir compra-lhe uma bela pipa com carretel, como as da sua infância, que tem de ser empinada a dois. Assim, pouco a pouco, conquista a confiança e o calor humano de nosso herói.
O filme acaba exatamente nessa cena muito adocicada para o padrão da película, mas é como acaba e não pude pintá-la com as cores de minha preferência. É um bom filme que discute a redenção, a lealdade sem limites, nobres princípios muçulmanos, não radicais e principalmente a amizade e fidelidade levadas às últimas conseqüências.
Amir ( Zekiria Ebrahimi)
Hassan (Ahmad Khan)
Pai (nome não mencionado, ótimo ator)

Sweeney Todd-O barbeiro demoníaco


SWEENEY TODD – O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET



Sweeney Todd, muito bem dirigido por Tim Burton, é uma adaptação de um musical famoso de Stephen Sondheim (1979). Ambientada na poluída e escura Londres do século XIX, onde os direitos dos trabalhadores eram relegados e a classe dominante massacrava a classe trabalhadora, resultando num conflito de ódio, horror, morte e vingança. A industrialização da Inglaterra começara e seu principal combustível era extraído das minas de carvão que tornava o ar irrespirável e as classes trabalhadoras doentes e imundas.
No abrir dessa opereta vemos os enegrecidos edifícios vitorianos cobertos de poeira, mas, em destaque, um rico filete rubro de sangue que escorre dos telhados, desce pelas paredes dos prédios, escorre pelas ruas cheias de enormes ratos, baratas e todo tipo de inseto, caindo pelos bueiros e canos de saneamento imundos, passando por uma enorme máquina de moer carne em funcionamento. As cores do filme passam por diversas nuances de cinza e preto, com alguns toques de azul anil e vermelho. Um navio atraca no porto de Londres e dois passageiros sombrios saltam dele e caminham pelas ruas fétidas. Anthony (Jamie Campbell) é um jovem marinheiro que ajuda o barbeiro Sweeney Todd (ótimo Johnny Depp) a voltar para a Inglaterra, após quinze anos de prisão irregular. Casado com a linda Lucy e pai de uma menina, foi jogado atrás das grades, na Austrália, por um golpe do torpe juiz Terpin (Alan Rickman) apaixonado por sua mulher, que ao ver-se sozinha com o bebê ingere veneno, deixando a criança sob sua tutela.
Jurando a pior vingança possível ao seu destruidor, pois a linha da história é nunca esqueça, nunca perdoe, se encaminha para a loja de Mrs. Lovett (excelente Helena Carter), sua antiga senhoria. Reconhecido por ela, sobem para seu antigo apartamento, no alto da loja, onde ela guarda, sob o assoalho, seu belíssimo estojo de navalhas, com cabos de prata finamente trabalhada. É um encontro macabro, os dois muito sujos, cabelos armados e desalinhados, faces rancorosas, com carvão literalmente até os dentes, conversando num local abandonado, sem perspectiva de futuro para nenhum deles. Contudo, vemos que a viúva é apaixonada por ele, tendo deixado o local com seus poucos pertences intactos. Andando pelo mercado eles param para ver o trabalho do barbeiro Mr. Perelli. Todd, na esperança de obter fregueses, desafia-o para uma competição a ser julgada por um bedel, o mesmo que o arrastou a prisão. Depp vence a disputa e pouco depois é visitado por Pirelli e seu ajudante Toby, que tendo reconhecido o verdadeiro Benjamin Baker, o chantageia. Atacado por Todd com uma chaleira fervendo, desmaia e é colocado dentro de uma arca. Visitado pelo juiz para fazer a barba, pois fora muito elogiado pelo seu bedel, Todd vê a oportunidade ideal para matá-lo com sua poderosa navalha. Porém, o jovem Anthony entra no local, dizendo ter visto sua bela filha, agora prisioneira de Turpin, e que quer salvá-la, pois fora informado por uma pedinte que se achava em frente a casa e sempre observava a jovem. Saindo para resgatar Johanna, o juiz Turpin deixa a cadeira às pressas e Todd, irritadíssimo com o desfecho, acaba liquidando seu desfalecido oponente barbeiro. Ele e Mrs. Lovett, mais prática e fria, decidem que a melhor coisa a fazer com o cadáver é moê-lo, e utilizá-lo como recheio das tortas, que com tanta penúria andavam vazias e sua loja sem clientes. Hilário é vê-los escolhendo quem deve ou não deve ser morto por suas poderosas armas, passadas pelas carótidas desavisadas. O filme tem um tom de farsa. A paixão de Lovett é patente e seu maior desejo é casar com Todd e morar numa casa de praia, seu sonho é mostrado em colorido suave e romântico!
Desconfiado do jovem marinheiro, o ciumento juiz Terpin, envia a pobre moça para um conhecido asilo de loucos. Ao mesmo tempo em que Depp traça um vagaroso e cruel plano de vingança. A viúva torna-se muito bem sucedida com tantos assassinatos e carnes moídas com sangue, os rubis do barbeiro, transformando Toby em seu fiel ajudante. O garoto jura-lhe fidelidade eterna, pois sem ela não seria ninguém, apenas um pobre órfão mal tratado e chicoteado. As “pedras preciosas” (o sangue) são jorradas com grande abundância. No asilo de loucos Johanna está numa cela com muitas outras jovens. Elas são separadas por cor dos cabelos: castanho, ruivo ou loiro. Anthony vai ao seu encalço, instruído por Depp, fazendo-se passar por aprendiz de peruqueiro. Lá é a fonte de cabelos das perucas feitas na Inglaterra. O carcereiro encaminha-o até os cabelos loiros e pede que ele os escolha, dentre as várias jovens jogadas e maltratadas. Avistando a linda adolescente, puxa-a contra si, e aponta a arma para o homem, ferindo-o e deixando que suas “meninas” cuidem dele...
Sweeney Todd, não consegue mais avistar o juiz. Desesperado envia-lhe uma carta, por Toby, para que ele compareça na barbearia, pois sua Johanna estará lá. Sem saber, o odioso bedel vai à barbearia conferir as condições sanitárias da loja, todavia, bajulado por Depp, senta-se na fatídica cadeira e é imediatamente morto, juntando-se aos inúmeros cadáveres que ficam no subsolo e são transformados, depois de moídos, em recheios de tortas assadas num enorme forno à lenha! Desconfiada de que o fiel e inteligente Toby sabe mais do que deve, Mrs. Lovett atrai-o ao sótão, trancando-o. O garoto desaparece pelos canos de esgoto e não é encontrado. Nesse ínterim, o célebre e esperado Mr. Turpin aparece, senta-se na cadeira para ser escanhoado, sendo cruel e minuciosamente navalhado por Todd com “rubis” despejados por todos os lados (é muito sangue mesmo) e, enfim, Sweeney se sente PURIFICADO e VINGADO pela morte de mulher e sumiço da filha. Johana chega à barbearia, mas a encontra vazia. Disfarçada em rapaz, aguarda seu pai. Sweeney avista uma mendiga na escadaria de sua casa, que parece reconhecê-lo de algum lugar, mas nesse frenesi de crueldade, também é assassinada. Ela é colocada no chão perto do forno. Quando Todd entra na barbearia vê somente um lindo rapaz e o esfaqueia, também. Mata sua própria filha, que ao cair mostra seus lindos cabelos loiros escondidos sob o boné. Ela é a quarta vítima. Ensangüentado, vê Mrs. Lovett e descobre que ela mentiu, pois ao abrir a porta do forno, a luz forte do fogo se projeta sobre o corpo da mendiga e ele pode reconhecer o rosto de sua esposa, agora envelhecido e deformado. Num desvario, exige saber por que ela disse que sua amada estava morta? Responde, astutamente, que falou que ela tomou veneno e não que morreu. Num bailado aterrorizante ele valsa, delirantemente, com a viúva jogando-a na fornalha e trancando a porta, enquanto a observa morrer. Alucinado por tantas mortes vira-se e é surpreendido pelo pequeno Tobi, que saindo do bueiro corta-lhe a garganta com sua própria navalha de prata, ricamente ornamentada. Um forno e muitos cadáveres. A última cena!
Nota
O musical critica as péssimas condições do povo humilde de Londres, com seus cortiços, seus casebres e habitantes relegados a condição de quase escravidão, o comportamento torpe e cruel das classes dominantes em relação aos pobres e a interação de ódio e vingança entre as classes sociais. Essa lenda ou história verdadeira é tão famosa na Inglaterra como a do Jack, o estripador. Também nos mostra a ineficácia total da vingança com as próprias mãos, que pode causar mais danos do que o crime em si!

O Gângster


Ridley Scott

O Gângster, baseado no livro de Mark Jacobson e dirigido por Ridley Scott, é um fato verdadeiro, imoral e cruel. Ambientado nos Estados Unidos, ano 1968.
Bumpy é o mais importante negro mafioso do Harlem, um homem paternal que tenta, de certa forma, proteger os negros desse bairro numa época em que a discriminação social e racial nos Estados Unidos contra eles era muito grande. Suas oportunidades eram ínfimas e quase que só lhes restava a violência. Bumpy aparece somente nas primeiras cenas e numa delas está distribuindo perús ao povo no dia de Ação de Graças. Logo após morre. Frank Lucas (Denzel Washington, numa atuação brilhante) é seu chofer e segurança. Jovem ambicioso, decidido e elegante no falar e vestir-se, sempre sério, está certo que esse lugar vago tem que ser preenchido rapidamente, pois outros gângsters estão ávidos por ele. Todavia ele não tem a menor dúvida que esta posição será sua e a terá a qualquer preço. É a chance que esperava para dominar a situação e obter o posto que julga merecer. Deseja poder e reconhecimento das pessoas de todas as classes sociais. Com vasta experiência no mundo do crime e narcotráfico, com atitudes duras e muito bem calculadas, torna-se seu próprio empresário, sem intermediários, enfim um dos criminosos mais astutos e ricos de sua época, sem falar na sua ligação com a elite artística e política.
Um tipo de heroína impura é distribuída por toda Nova York, pois ela é apreendida dos mafiosos italianos e negros pelos policiais que combatem o narcotráfico e, em seguida, misturada por esses mesmos agentes, será revendida aos criminosos por preços bem maiores. É um negócio muito sujo e assustador. Policiais, militares, políticos e traficantes, todos numa ciranda de corrupção e, conseqüentemente, a morte de milhares de jovens e adultos. Força, corrupção e assassinato são sempre uma constante.
Frank, astutamente, decide ir pessoalmente ao Vietnã, que está em guerra contra os Estados Unidos, para importar diretamente uma heroína puríssima, que será negociada por preço ainda menor do que o de seus concorrentes. Essa é uma missão arriscada, mas contatando a banda podre do exército e polícia federal consegue, imediatamente, através de suborno, um passaporte e parte para a selva tropical do Vietnã. Lá, nessa paisagem de guerra mas de natureza belíssima, é feito um acordo diretamente com um general vietcongue, numa cabana rodeada de lindas plantações de papoula. A missão é um sucesso e prospera eficazmente.
Ao mesmo tempo, vemos outro jovem tão decidido e contumaz quanto Frank. Porém, está do outro lado, do lado da repressão ao consumo de drogas. Richie Roberts (outro grande astro, Russel Crowe) é um judeu de classe média baixa, em processo de divórcio devido aos problemas com sua profissão. Estudante de direito no curso noturno, incorruptível e honesto trabalha sem resultados concretos no combate ao narcotráfico. É desprezado por seus pares pela sua exagerada honestidade, tendo certa feita devolvido um milhão de dólares resgatados em uma batida. A elite policial dessa época pegava esses valores encontrados e os distribuía entre si. Richie se torna um incômodo muito grande e é convidado por um superior, também sério, a organizar uma equipe de trabalho, escolhida por ele, a fim de pegar os grandes fornecedores não os pequenos vendedores. Um grupo é formado por pessoas com os perfis mais diversos, na aparência são tão criminosos quanto os traficantes, o que facilita o trabalho. O próprio Roberts é descuidado e negligente com a sua pessoa. Traçando elaborados planos de busca e identificação de pessoas e estudando muito não tem tempo para si.
Os jovens protagonistas nunca se viram, não sabem da existência um do outro, mas têm um traço em comum: a seriedade e a sobriedade com que trabalham.
Vemos Frank em um aeroporto da marinha, em Washington, à espera de um avião militar, vindo diretamente do Vietnã, transportando sua carga de pó! Sim, assim simples, parte do exército americano, na década de setenta, apoiava o narcotráfico! Os americanos estão muito descontentes com a perda colossal de seus soldados e muitas manifestações para o término da guerra são feitas. O próprio presidente Nixon, em rede nacional, afirma que o maior inimigo dos Estados Unidos é a droga, que dizima o país.
Todo o trabalho de Frank é feito com elegância e sempre sem sorrir. É o mais perfeito cavalheiro, passando despercebido pelos policiais. Com uma ascensão consistente, traz toda sua família muito pobre da Carolina do Norte para viver com ele, numa magnífica mansão. Seus irmãos e primos, que o veneram, são colocados no seu trabalho em pontos estratégicos de venda e recepção. Dono, também, de uma boate conhece a bela Miss Porto Rico por quem se apaixona Casando-se, ela passa a morar com sua mãe e família. A vida é de fartura e luxo, porém metódica e sem ostentações. .
Os mafiosos italianos estão descontentes com o monopólio da heroína pura e sugerem que Lucas seja o provedor da droga, mas que os deixe trabalhar também, pois estão sem clientela. O acordo é selado e agora nosso “herói” é o homem mais perigoso dos EUA. Importa e distribui o “Blue Dream” a todos, o que é um fato inusitado para um homem negro que conseguiu chegar a tal posição, ou seja, acima da máfia italiana. A droga é embalada em um velho prédio no Harlem.
Richie perde a tutela do filho, pelo tipo de trabalho perigoso que executa, e confessa ao juiz e sua ex-mulher, que estão com toda a razão para perplexidade de todos aqueles que julgavam que teriam um processo penoso pela frente. Novamente ele é honesto e coerente.
Os policiais do departamento de narcótico continuam achacando Frank Lucas com graves ameaças. Querem grandes volumes de dinheiro em troca de segurança. Esses achaques são revidados com brutalidade e eficiência. Vêm-se acuados e o mais hostil e truculento é Trupo.
Durante um campeonato mundial de boxe, toda a elite nova-iorquina acha-se presente: artistas, esportistas, políticos e a nata da sociedade. Richie está lá para fotografar os mafiosos e descobrir quem, afinal, traz toda aquela heroína que corre solta. Tem algum sucesso. Frank deixa-se levar pela vaidade de sua mulher e veste um casaco de pele de 50.000 dólares e, naturalmente, senta-se num lugar privilegiado, à frente do chefão mafioso italiano. Richie não o conhece, mas ao ver sua roupa caríssima desconfia de algo. Sua foto fica exposta em seu local de trabalho, junto com várias outras. O austero Frank comete seu maior erro. Um pequeno deslize de seu sobrinho faz com que saibam seu nome e o obrigam a denunciar o próximo carregamento de seu tio. A charada é decifrada e toda sua equipe vai para o aeroporto. O avião chega com vários caixões de soldados americanos mortos, pois a guerra chegara a seu fim. Desconfiando que a droga encontra-se no fundo dos caixões ou dentro deles, discute com um coronel do exército, o qual não quer permitir tal violação, mas após a abertura de um deles, lá se encontra apenas o corpo de um soldado.
Nesse ínterim, os federais corruptos, chefiados por Trupo, vasculham sua casa à procura do dinheiro que todo mafioso esconde para uma eventual fuga. Agridem sua mulher, maltratam sua mãe e matam seu cachorro e sob sua casinha descobrem o dinheiro e fogem.
Agora Richie também está perto de um desfecho. Fotografa de longe todos os caixões, como provas. Após a troca dos esquifes, um caminhão de limpeza aparece no galpão e leva toda heroína, escondida nos caixões, para ser refinada e embalada no Harlem. Seguindo o furgão, esperam o desembarque da mercadoria, armados até os dentes. Avançando conseguem, em uma perseguição sensacional, prender todos os criminosos.
Frank Lucas é preso na saída de uma igreja que freqüenta todos os domingos, com sua mãe e mulher. É detido por Roberts. Os dois se olham com respeito mútuo.
Durante sua prisão Frank pede para conversar em particular com Richie, que acaba convencendo-o a delatar os envolvidos nesse enorme negócio. Esse diálogo é feito de uma maneira muito interessante, onde uma xícara de café é deslocada para frente de um ou de outro, como um jogo de xadrez. O cheque-mate é de Roberts. Essa é a única vez no filme em que Frank sorri!
Os policiais corruptos são presos, com exceção de Tropi, que se suicida. Três quartos, sim ¾ da polícia antidrogas é presa! Os mafiosos são todos julgados e presos.
Frank é condenado a setenta anos de prisão e seus bens são confiscados. Richie deixa a promotoria para trabalhar como advogado de defesa. Seu primeiro cliente é Frank, que por bom comportamento sai da prisão ,após quinze anos, pena relativamente curta por tudo que causou.
A última cena do filme é o mesmo Frank, elegante, com um semblante nobre e “honesto” à sua maneira, saindo da prisão, mais envelhecido, mas com a mesma postura ereta.
O filme fala da luta pelos direitos civis, ainda insipiente na época, da luta dos negros para alcançarem outras posições dentro da sociedade. Impensável um candidato negro, como temos hoje, à presidência dos EUA. Ótima direção de Ridley Scott.

Na Natureza Selvagem



Sean Penn

A felicidade só é verdadeira quando compartilhada!
Essa frase escrita por Christopher resume a essência de Na Natureza Selvagem, filme dirigido magnificamente por Sean Penn[1], baseado em fatos reais do livro de Jon Krakauer. Não é uma aventura no sentido convencional. É muito mais perigosa, pois se desenrola dentro da psique de nosso herói. Filmado em planos abertos e claros, Eddie Veder, diretor de fotografia, capta imagens deslumbrantes da natureza selvagem americana, com suas enormes montanhas, seus cânions, corredeiras e rios.
As primeiras cenas nos mostram um belíssimo céu azul, montanhas cobertas de neve, florestas de pinheiros e um trem. Vemos depois uma caminhonete correndo por uma estrada que acaba no nada, apenas neve e um aviso “sem funcionamento durante o inverno”. É uma carona que Christopher Mc Candless (ótimo Emile Hirsh), pega para completar seu sonho de vida: “o Alasca”. Em 1990, recém-formado, nosso protagonista de 23 anos é um brilhante aluno com todas as chances de cursar direito em Harvard, mas depois de conversar com sua família, resolve concretizar um sonho acalentado há tempos. Viver como seus autores preferidos, entre eles o transcendentalista Thoreau[2], que acreditava na liberdade e responsabilidade pessoal, na devoção ao pensamento e na desobediência civil. Partindo dessa filosofia, joga tudo para o ar e sai em busca da felicidade. Desfazendo-se de todos os pertences pessoais, inclusive dinheiro, sai pelo mundo, sendo seu objetivo alcançar o Alasca e viver como um ermitão, somente refletindo e sentindo o poder da natureza selvagem.
O filme é narrado em cinco capítulos por sua irmã que, admirando seu espírito livre e aventureiro, o venera. Christopher muda seu nome para Alexander Supertramp numa gozação ao Superman. Trabalhando nos mais diversos ofícios braçais e nas mais diversas regiões do país, conhece pessoas simples e interessantes, que como ele preferem a vida alternativa a estarem com sua raízes fincadas em um só lugar. Os desafios e perigos são imensos, pois uma pessoa sem identidade fica à margem da sociedade, mas é ela exatamente que nosso herói tanto despreza. Através da fala de sua irmã ficamos sabendo que seus bem sucedidos pais, na verdade não eram casados. Ele tivera um primeiro casamento e um filho, mas nunca se separara da primeira esposa. Daí eram filhos bastardos, como define sua irmã. Eles não sabem que nosso herói descobriu essa verdade tão chocante para ambos os filhos do segundo “casamento”. Sua irmã aceita melhor o fato, mas ele quase perde seu centro e passa a odiá-los. Essa é a verdadeira razão de sua fuga ou viagem. Encontrar-se consigo mesmo é vital para sua sobrevivência. Arando a terra, convivendo com hippies e finalmente trabalhando com um velho senhor, ex-combatente de guerra, conta sua sina e recebe alguns conselhos e declarações pungentes, como a do senhor aposentado que lhe diz que perdoar é amar. Não se vive em paz sem esse sentimento. Conseguindo atingir sua meta, finalmente está no continente gelado. Ao desembarcar da carona, na cena inicial, vê-se frente a frente com a inclemente natureza, que apesar de linda é assustadoramente forte, rigorosa. Ela não poupa nada. É a força mais poderosa que conhecemos. Muito tempo já se passou e Christopher não envia uma só carta ou telefonema para casa. Seus pais de soberbos e intransigentes tornam-se pessoas ternas depois de tanta dor. Encontrando um ônibus abandonado, Emile Hirsh[3] faz dele sua casa. Aí terá a verdadeira oportunidade de testar e praticar os ensinamentos que tanto venerava. Essa é uma tarefa hercúlea para a qual nenhum ser humano solitário está preparado. As forças inclementes e sobrenaturais não podem ser vencidas mesmo com todo preparo físico e psicológico que Christopher possui. Sentindo-se liberto e feliz após alguns meses, descobre que chegou a hora de voltar para casa, perdoar seus pais e seguir sua vida, mas esse desejo é repentinamente interrompido. Derrotado por um rio caudaloso e largo, que sempre estivera lá, porém congelado, vê-se compelido a recuar, voltando ao velho ônibus. Nesse momento os fatos, que são gravados em seu cinto de couro como na pré história, saem completamente de seu domínio, pois ele se encontra envenenado pela raiz batata de urso que comera, vomitando, faminto, desnutrido, e morrendo aos poucos pelos efeitos colaterais da doença. Mesmo sem forças continua seu testemunho, em forma de diário, para que outros se beneficiam de suas experiências. Deitado sobre um colchão velho, esquálido e delirando, observa o sol com seus raios claros e encontrando a paz e seu fim, morre com os olhos fixos no horizonte. Sua mãe pressentindo sua morte se descontrola e seu pai desaba no meio do asfalto em frente à sua casa de tanto sofrimento!



[1] Ator e diretor americano
[2] 1817-1862
[3] Nome do ator que representa Chris