sexta-feira, 20 de novembro de 2009

UM NOIVO PARA MINHA MULHER de JUAN TARATUTO







Adrian Suar como Tenso
Valeria Bertucelli interpretando muito bem Tana Ferro

Esta comédia despretensiosa torna-se um filme que você terá o que pensar. Tenso e Tana são casados há algum tempo e a união encontra-se em crise. Jovens, com seus trinta e poucos anos, não encontram diálogo e nenhum ponto em comum na relação. Ele parece ser centrado, mas Tana mostra-se descontrolada, mal humorada e infeliz. Sendo uma mulher inteligente, mas sem nenhuma atividade intelectual preocupa-se, principalmente, com o pessimismo, achando tudo o mais uma vulgaridade. Até certo ponto está certa, pois suas relações não têm nada para lhe oferecer e ela não está trabalhando. O marido ajuda os pais em seu comércio e tem como hobby o futebol de salão, onde compartilha com seus amigos anseios e dificuldades. É um grupo unido e machista, como quase todos sul americanos. Preocupados com as dificuldades de Tenso, aconselham-no a se separar, mas esse homem não consegue dizer as palavras mágicas que trariam sua liberdade. Ocorre que um deles lembra-se de um famoso galanteador profissional, que se acha escondido pelas inúmeras trapaças, esse seria a salvação. Seduzindo sua mulher, encontrará o caminho aberto para a felicidade. O encontro entre os homens ocorre e tudo fica devidamente planejado e aceito. Tana precisaria achar um trabalho, pois não saia de casa e para se encantar por Cuervo teria que se expor e sustentar as conseqüências dessa atitude. Ela e o marido, deixemos bem claro. Essa exposição é tremendamente benéfica e Tana transforma-se em outra mulher - mais confiante, amadurecida e com o amor próprio despontando. Durante esse processo de mutação, Tenso vai perdendo sua convicção e todos parecem começar a admirar aquela pessoa nociva e deprimida, que vai se desabrochando em uma mulher verdadeira. O filme conta com flashbacks (os eternos) para nos posicionar melhor, pois o ponto de partida é o encontro dos dois em um consultório psiquiátrico. À medida que suas histórias vão sendo reveladas, os protagonistas passam a vê-las sob o ponto de vista do outro. Em poucas palavras, eles simplesmente não dialogavam. O final é mais ou menos o esperado, mas o processo pelo qual ele transcorre é divertido e saudável. Os atores são bons, mesmo os coadjuvantes e para quem conhece a cultura portenha é muito divertido e real. Direção bem acertada e terceiro longa do jovem diretor.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O SOLISTA DE JOE WRIGHT








Atenção: spoilers

Este espetacular drama começa numa madrugada, quando vemos as pernas de um ciclista pedalando rapidamente. Ao mesmo tempo o motorista de uma caminhonete entrega os jornais da manhã, nas casas ainda adormecidas. No jornal “Los Angeles Times” as páginas continuam sendo impressas e há muito movimento de funcionários. Repentinamente, ao clarear um pouco mais, o ciclista sofre um acidente e vai parar em um hospital. Tem o lado direito de seu rosto transfigurado. Esse homem grava tudo o que se passa ao seu redor com precisão. Trata-se de um jornalista do diário mencionado, Steve Lopez. Tem uma coluna bastante lida. Ao chegar ao trabalho encontra-se com sua ex-mulher e chefe. O jornal está em dificuldades, pois perdera uma grande percentagem de leitores com 30 anos. Lopez sai, meio sem rumo, quando escuta o som de um violino. É um belo som e ele se aproxima do músico. Trata-se de um sem teto, que mora pelos túneis e viadutos da cidade. O violino tem somente duas cordas e a música é de Beethoven. Vendo-o, e como jornalista curioso, resolve saber quem era aquele mendigo. Desse momento em diante temos uma fantástica história verídica de um homem talentoso, Nathaniel Ayers. Ele fala um inglês perfeito, mas suas sentenças não têm conexão e suas frases são sobrepostas umas às outras. É um esquizofrênico de meia idade, com cabelos a rarear repartidos ao meio e uma expressão inteligente, apesar de seus andrajos e de sua casa que leva para todos os lugares: um carrinho de supermercado repleto de coisas importantes para ele. O diálogo é difícil, mas Lopez vê nesse ser humano grandes possibilidades e resolve ajudá-lo. Seria também objeto de artigos em sua coluna. Apesar das dificuldades nasce entre eles uma amizade sincera, pois ambos eram honestos consigo mesmos. Steve consegue descobrir suas origens e presenteia-o com um violoncelo, oferecido por uma de suas leitoras, que comovida oferece-lhe, para que possa seguir em sua maior paixão: a música erudita e seu compositor predileto – Beethoven. Para tanto ele terá que se juntar a uma comunidade de sem-tetos a LAMP, pois o instrumento poderia ser facilmente roubado nas ruas cobertas por pessoas marginalizadas e tão enlouquecidas como ele. Quando Steve descobre sua irmã, o filme volta em flashback (recurso usado atualmente à exaustão). Ele fora um adolescente pobre e um gênio da música. Seu talento é reconhecido por um professor, que garante à sua família que as portas do mundo se abrirão diante desse gênio. Estudando em uma universidade importante, Juilliard, dedica seu tempo ou melhor sua vida, à música clássica e nela sorve toda sua magia. Até que um dia, já no segundo ano da universidade, deixa-se levar tão irracionalmente por ela, que perde seu eixo e passa a ouvir vozes, que o atormentam. Elas lhe dizem que é perseguido e que será assassinado. Nathaniel passa a morar nas ruas e torna-se uma presa de si mesmo. Isolado, desconfiado e às vezes brutal não consegue comunicar-se, a não ser com Steve, pois esse demonstra uma enorme curiosidade e atração sobre esse personagem singular. Lopez passa a quase morar entre os mendigos e a relacionar-se com o diretor da LAMP, que se recusa a chamar um psiquiatra e forçá-lo a tomar medicações, pois isso seria contra a lei. Steve só consegue ver a genialidade daquele homem, que o tem como um Deus, e ela escorrendo diante de sua vida. Seus artigos transformam-se em sucesso, sendo lido até pelo prefeito da cidade, o qual disponibiliza mais dinheiro para essas ações sociais. Após forçar um encontro com um mestre musicista, para que possa aprender algo mais, é convidado para um Recital. Relutante, apresenta-se com seus trapos e sua “casa”, mas diante dessa situação tão limitante e estressante perde o controle e foge, para desespero da platéia lotada. É procurado em todos os lugares, mas não é achado. Encontrava-se em um pequeno apartamento de outra entidade, contudo agora estava na LAMP, a espera de Lopez. Seu amigo e seu Deus tenta forçá-lo a voltar a tocar mais uma vez, mas quase é morto por ele. No final da película, vemos a irmã vindo visitá-lo e mesmo sem olhar para ela, percebe que são parentes do passado. Assim, com ele mais calmo e fortalecido pela amizade, vão todos à uma sala de consertos assistir à Orquestra Sinfônica de Los Angeles. Nesses momentos de enlevo total, nosso jornalista percebe que ele deve ser respeitado como é, esquizofrênico, mas confiante naquilo que mais acreditava e respeitava: Beethoven e a música erudita. Era finalmente um homem livre, que pudesse escapar de si mesmo, quando uma situação dramática se apresentasse. A vida de ambos mudara. No final, nos é informado que Nathaniel agora tocava mais de uma dezena de instrumentos e que Steve Lopez, seu melhor amigo, estava aprendendo a tocar violão. Com esse material conseguiu escrever o livro no qual se baseia este filme. Vale a pena conferir!
Jamie Foxx como Nathaniel Ayers, em um empenho magnífico.
Robert Downey Jr como Steve Lopez, também em trabalho brilhante.
Direção segura de Joe Wright
Mais de 90.000 sem tetos perambulam pelas ruas de Los Angeles, nas mesmas condições de nosso herói.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

COCO ANTES DE CHANEL de ANNE FONTAINE









ELENCO:
AUDREY TAUTOU - GEBRIELLE CHANEL - COCO
BENOIT POELVOORDE – ÉTIENNE BALSAN
ALESSANDRO NIVOLA – ARTHUR CAPEL – BOY

Este drama biográfico esboça as primeiras décadas de vida dessa mulher importantíssima, que foi Coco Chanel, baseado no livro de Edmond Charles-Roux. Anne mostra-nos de forma sucinta os costumes, a moral, a vestimenta e as belas residências do final do século XIX até o século XX (nas duas primeiras décadas). Gabrielle Chanel, nascida em 1883, era filha de pais muito pobres e com a morte de sua mãe, quando tinha apenas 6 anos, seu pai distribui os 5 filhos e nunca mais os viu. O filme começa com ela e sua irmã sendo levadas em uma carroça, pelos belos campos franceses, a um orfanato de freiras carmelitas. Lá permanece por 15 anos. As duas garotas, em 1905, vão trabalhar como cantoras de cabaré durante a noite e costuram durante o dia. Mesmo assim o rendimento delas é mínimo. Era uma época em que as mulheres, se não fossem ricas, eram relegadas a serviços braçais ou o teatro, que não lhes dava um status digno. Coco, apelido que adotara, esforçava-se para manter sua dignidade e cobrava-se uma rígida disciplina de trabalho. Seu sonho era ser independente financeiramente e famosa: uma raridade e impossibilidade na época. Para ela qualquer problema que se relacionasse à costura era muito fácil e prazeroso de resolver. Nascera para tornar-se uma grande estilista. Nesse ambiente noturno tem a oportunidade de conhecer um rico oficial, Étienne Balsan, que se encanta com sua maneira resoluta e agressiva de ser, sem meias-palavras. Coco não aceitava usar as roupas compridas, arrastando pelo chão, os espartilhos diminutos e os chapéus tipo merengue, cheios de enfeites e plumas, mesmo por que não teria dinheiro para essas frivolidades. Era uma inovadora. Sua roupa, feita por ela mesma, era discreta e simples. Quando sua irmã parte, decide procurar abrigo na belíssima propriedade do barão Balsan, que apesar de surpreso, concorda que ela fique por dois dias, o que se arrasta por um longo tempo. Com ele observa as maneiras e os costumes dos nobres e das atrizes. Com as roupas masculinas de ótima qualidade de seu anfitrião, começa a surgir um novo tipo de vestimenta. Coco as adapta para sua figura magra e andrógena. Algumas mulheres se encantam com seu despojamento e simplicidade, principalmente os chapéus, pequenos e discretos que deixam o olhar à mostra. Tautou não poderia estar mais bem adaptada a um papel do que esse, pois seu olhar intenso e seu sorriso espontâneo estão quase sempre presentes, assim como seu gestual elegante e consciente. Durante uma festa no castelo de Balsan, conhece o carismático e belo Arthur Capel. Era um homem rico, que se fizera sozinho, bem diferente dos nobres que não trabalhavam e sequer liam os livros de suas próprias bibliotecas. Inglês, gostava de ler sobre filosofia e deixa para ela um livro que discute a Filosofia da Miséria. Entre esses personagens, de certa forma iguais na ambição de serem famosos e ricos, nasce um amor profundo. Mas Boy jamais se casaria com Coco, pois precisava de um sobrenome nobre e se uniria com uma riquíssima herdeira. Ela vivia, na realidade, dos favores de homens que aceitavam o sexo e entretenimento que essa garota excêntrica lhes oferecia. Seus patronos, nos primeiros anos de sua carreira como chapeleira em Paris, foram Boy, que se tornou seu amante, e Balsan, que com sua influência e conhecimento da alta sociedade lhe facilitou o caminho. Mas, nada mesmo, sem seu talento extraordinário teria ajudado a torná-la a primeira desenhista de moda de Paris, pois após o sucesso dos chapéus, passa a fazer suas famosas roupas, adoradas até hoje pelas mulheres elegantes. Benoit Poelvoorde e Alessandro Nivola convencem na pele de seus personagens e Audrey Tautou está maravilhosa como sempre, em qualquer papel que se disponha a desempenhar.
CURIOSIDADES. Chanel aboliu as roupas desconfortáveis e de certa forma ridículas das mulheres do século XIX. Deu-lhes uma nova perspectiva de conforto e elegância. Adotou o preto e branco como seus tons prediletos, indo, aos poucos, para o rosa, vermelho. Iniciou a moda feminina com o confortável Jersey, as roupas mais largas, saias mais curtas, o terninho feminino, roupas inspiradas em marinheiros e os famosos colares de pérolas (podem ser artificiais). Deu-nos de presente o Chanel N°5 e sua famosa bolsa a tiracolo. Sua Maison continua sendo um ícone de elegância em nossos dias, infelizmente para quem tem muito dinheiro, mas vale a inspiração que ela espalhou pelo mundo da moda. Morreu em 1971, ainda trabalhando, aos 88 anos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O DESINFORMANTE de STEVEN SODERBERGH





Esse divertidíssimo filme, baseado em fatos reais descritos no livro de Kurt Eichenwald (The Informant), estreou nesta sexta-feira. O excelente Matt Demon, com muitos quilos a mais, interpreta Mack Whitacre, vice-presidente de uma poderosa corporação agrícola de derivados de milho. A firma encontra-se em péssima situação financeira devido a uma praga em suas plantações. O estudioso e aparentemente naïve Mack decide cooperar para que ela saia do vermelho. Para tanto a ADM contrata os agentes federais, a fim de que investiguem se há algum espião infiltrado entre eles. Mack, sempre usando um topete postiço, acaba trabalhando para o FBI como informante, apesar de todos os perigos que pudessem envolver tal escolha. Os agentes acreditam que resolverão crimes corporativos, pois Mack afirma haver reuniões secretas que determinam o preço do produto, que está presente em quase todos os artigos que consumimos. Existe um cartel. Esse filme apresenta várias situações que acabam se revelando completamente diferentes da realidade, pois Mack é um mentiroso compulsivo e não há limites para seus devaneios. A história pode ser dividida em “capítulos”, pois a excelente música do compositor ganhador de Oscar, Marvin Hamslisch, nos introduz a cada um deles e dá o ritmo de cada uma dessas narrativas. Os pensamentos de Mack, enquanto enfrenta situações sérias, contribuem para a delícia da comédia. Como exemplo, ele pensa em uma liquidação de gravatas, enquanto fala com os agentes do FBI. Isso é tão verdadeiro, porque cada um de nós vagueia, muitas vezes, quando confrontados com assuntos muito intricados ou relevantes. A atuação do agente Shepard (Scott Bakula), que se solidariza com nosso anti-herói é muito convincente. Todas as garantias e conselhos recebidos por Mark dos agentes federais são desprezados por ser um mitômano, que vai se afundando cada vez mais em suas próprias elucubrações. O riso é garantido pelo modo como foi roteirizado e dirigido. Mark, em verdade, é somente um personagem de um grande jogo feito pelas grandes firmas globalizadas, que para auferirem lucros cada vez maiores, passam por cima de qualquer lei ou pessoa. No final vemos Marck Whitacre com sua carequinha, na prisão, após ter cumprido pena de quatro anos e ter se graduado em mais três disciplinas. Hoje ainda trabalha e considera-se curado.
Steven Soderbergh ganhou um Oscar pelo ótimo Traffic e dirigiu dezenas de filmes interessantes, dentre eles Sexo, Mentiras e Videotape, Erin Brockovich, o atual Che, O Segredo de Berlim e o belo Bubble. Kurt Eichenwald foi indicado ao prêmio Pullitzer de melhor escritor americano. Scott Z. Burns é o roteirista.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

DEIXA ELA ENTRAR de TOMAS ALFREDSON








Este drama sueco, que engloba terror, amizade e amor, foi baseado em um romance do escritor e roteirista John A. Lindqvist. O título refere-se a uma lenda em que um vampiro só pode entrar em sua casa, se convidado. Caso contrário perecerá. Tomas Alfredson faz um belo trabalho em cima dessa novela. Na primeira cena,o céu está escuro e a neve cai suavemente. Um garoto olha através da janela a chegada de uma menina com um homem mais velho, os quais acabavam de mudar-se para o apartamento ao seu lado. Estamos em um subúrbio de Estocolmo, no ano de 1982. Oskar (magnífico Kare Hedebrant), um garoto lindo e tímido, vive com a mãe divorciada e é diariamente espancado em sua escola por três colegas. Ele jamais reage, mas não por covardia e sim por sabedoria. À noite ensaia falas de como deveria reagir, segurando uma faca. Uma noite encontra-se com a vizinha Eli (maravilhosamente interpretada por Lina Leandersson) no playground da habitação e quer conhecê-la melhor, mas confessa que ela cheira mal. A garota, assim, recusa a amizade. No dia seguinte, se encontram novamente e ele diz ter 12 anos e Eli também tem 12 anos, há muito tempo. Sem saber o dia de seu aniversário ele a presenteia com seu cubo de Rubic de diferentes cores. A partir daí nasce uma amizade profunda entre as duas crianças, que são isoladas, tímidas e solitárias. Eli vive com um tutor que se incumbe de arranjar seu alimento: sangue. Sim nossa pequena heroína é uma vampira que se recusa a atacar as pessoas e é nutrida por esse personagem que mata e pendura suas vítimas para furar a veia jugular e captar o sangue. Oskar continua apanhando de seus colegas, mas é encorajado por Eli a reagir com firmeza, pois ela o ajudaria. A primeira vítima do tutor é um bêbado, cujo corpo é jogado em uma poça gelada. Depois disso ele ataca novamente, mas é mal sucedido e vai parar em um hospital. Deformado pelo ácido que jogara em seu rosto, oferece seu pescoço para Eli e encontra a morte caindo pela janela. Eli é obrigada a caçar, porque se encontra desamparada. Escondida sob uma ponte pede socorro e quando a vítima aproxima-se é assaltada e morta. Seus movimentos são rápidos e animalescos. Depois de liquidá-lo, chora por sua sina amaldiçoada. Correndo ao encontro de seu amigo, deita-se em sua cama e Oskar percebe que ela não é uma menina normal. Após o banho de Eli, ele vê que em sua região púbica há uma cicatriz horizontal. (No romance original Eli é um garoto de 12 anos, que castrado vira uma vampira). Um amor especial entre eles só cresce e intensifica-se não importando o que sejam o de onde possam ter vindo, apesar da "menina" ser manipuladora. As cenas dos dois na mesma cama e seus diálogos são de grande sensibilidade e beleza, revelando um relacionamento que independe dos defeitos, mas por causa deles. Esses crimes vão assustando a população local e durante um feriado escolar, onde todos vão patinar, o corpo do bêbado é descoberto e a polícia chamada. Ao mesmo tempo, Oskar afrontado pelos meninos reage dando um golpe na orelha de um deles, ocasionando um grave ferimento. Eli alegra-se com o feito. Em um bar local,um casal de namorados discute sobre esses assassinatos e se desentendem, pois ele a considera fria e lamenta a morte do amigo. Ela sai enfurecida e é atacada por Eli, pálida e faminta, que estava em cima de uma árvore. Essa mulher não morre, mas recebe a maldição e, em uma cama de hospital, pede ao médico que abra a janela para que seu corpo seja consumido pelas chamas da luz e encontre a paz. As crianças são obrigadas a se separarem, pois Eli foge a procura de segurança. Anteriormente, na escola, Oskar havia tido aulas extras de educação física para tornar-se mais forte. Entretanto, no ginásio de esportes, é confrontado por Jimmy, amigo mais velho dos três garotos, que mergulha sua cabeça na água da piscina, como vingança. Lá permaneceria por três minutos. Após momentos de desespero e grande suspense, vemos pedaços de corpos afundando e uma mão que o levanta pelos cabelos. Eli viera salvá-lo! Na cena final, Oskar encontra-se dentro de um trem e a neve continua caindo suavemente. À sua frente uma grande mala está apoiada no assoalho. Ouvimos um ruído sincopado. Oskar responde em Código Morse que havia aprendido e ensinado a Eli. Já haviam se utilizado dele por várias vezes. A palavra é PUSS, que significa beijo em sueco!

Esse é um drama sensível apesar das cenas de sangue, que nunca resvalam no vulgar ou no óbvio. Trata-se de amor em sua forma puramente infantil. A interpretação das crianças é admirável, temos bons atores e com uma direção bastante firme. Mas, como observou o crítico de cinema Luciano Ramos, a sina do garoto será a mesma do tutor de Eri, pois o fim mostra isso.

INGLÓRIOS BASTARDOS de QUENTIN TARANTINO









Atenção spoilers.
Esse ótimo drama quase comédia de Tarantino fala sobre a vingança, pois segundo o diretor “É ela, não o amor, que move o mundo” e “o cinema é mais poderoso que dinamite.” (fonte Estado de São Paulo). O filme é dividido em cinco capítulos e vai de 1941 a 1944. Nas primeiras cenas do primeiro capítulo, 1941, vemos uma belíssima paisagem bucólica, no interior da França. Trata-se de uma fazenda de gado leiteiro, cujo dono LaPadite, está rachando lenha e sua jovem filha estendendo a roupa no varal. Através de um lençol ela observa um carro da SS e duas motos dirigindo-se para sua casa. Seu pai pede para que entre e fique com suas irmãs. O coronel Hans Landa (excelente Christoph Waltz) encontra-se com LaPadite e solicita entrar em sua casa, para falarem a sós. Hans tem o apelido de “Caçador de Judeus” e se orgulha disso, pois faz por merecê-lo! Ele é um estudioso da conduta humana, mas um homem prepotente, cruel, sarcástico, manipulador e algo ainda pior: é inteligente. O fazendeiro é suspeito de abrigar a família judia Dreyfus, contudo ele nega até onde consegue. Acuado pelo “Caçador”, acaba revelando o local do esconderijo desses judeus, em troca da salvação de sua família. Eles são exterminados, menos a adolescente Shosanna (Mélanie Laurent), que consegue fugir. No segundo capítulo vemos um grupo de judeu-americanos chamados “Os Bastardos”, pela sua truculência. Os soldados são chefiados pelo tenente Aldo Raine (Brad Pitt em um ótimo desempenho). Ele é descendente de índios apaches e europeus e seu modus operandi é igual ao da tribo indígena – depois de abater o inimigo trazer o escalpo! Cada um desses oito homens deverá trazer cem escalpos de nazistas do terceiro Reich, que estão dizimando, miseravelmente, a população européia. O ano salta para 1944, mas antes da libertação de Paris. Seus métodos são tão sanguinários e cruéis contra os soldados alemães, que o próprio Hitler passa a temê-los. Agora a jovem Shosanne, com nova identidade de Emmanuelle Mimieux, possui um cinema que é administrado por ela e seu namorado negro. Ela, ao conhecer um novo astro e soldado alemão, vê uma oportunidade de vingar-se pela perda de sua família. O jovem está apaixonado por ela, não é correspondido e decide que a premiere de seu filme será em seu elegante e pequeno cinema. Toda a cúpula nazista, de Hitler, Goebbels, Goering a outros influentes nazistas estariam reunidos nesse espaço, para assistirem o filme de Goebbels sobre o soldado solitário que matou sozinho 300 americanos na Itália. Ao mesmo tempo, sem saber, “Os Bastardos” arquitetam um plano para, também, dizimá-los. Uma famosa atriz alemã, a belíssima Bridget Hammersmark, que é agente dupla, desenha um modo para liquidá-los. Temos, assim, três frentes de combate que não se conhecem. Ela encontra-se, em uma taberna, com seus companheiros, mas o desenrolar dos fatos é péssimo e a jovem acaba sem um sapato e um tiro na perna. Salva por Brad Pitt juntos decidem unir-se para a “Operação Kino” em um dos mais emocionantes capítulos. O capítulo seguinte será a premiere em si, onde a tensão continua, mas cenas hilárias serão apresentadas, quando Pitt e seus companheiros tentam passar-se por italianos diante do “Caçador de Judeus” e a bela Bridget Hammersmark. Surpreendida e interrogada habilmente por Hans, que em uma atuação genial, coloca o sapato achado em seu pé, encaixando-o perfeitamente. Vemos aqui uma alusão à história infantil de Cinderela, muito bem posicionada, em situações dramáticas e brutais. Na sala de projeção, Emmanuelle está projetando o filme enquanto seu namorado tranca as portas do teatro e irá incendiá-lo com as inúmeras cópias de filmes feitos de nitrato, material altamente inflamável. Ocorre que o jovem ator nazista não resistindo ver sua atuação na matança, vai ao encontro de Emmanuelle, que tenta rechaçá-lo. São momentos de conflito que deixam o espectador grudado na história. Enquanto o filme dentro do filme desenrola-se, Hitler e Goebbels, animadamente, comentam as cenas grotescas. Entretanto no final da película, o jovem negro ateia fogo na tela com seu cigarro, deixando o público perplexo e apavorado por não ter salvação.Todos morrem nas chamas. E a guerra acaba? Outra cena clássica é apresentada nos bastidores. Desta vez é uma alusão a “Romeu e Julieta”, mas sem paixão. O final desse capítulo é ótimo, mas o próximo é ainda melhor. Hans encontra-se com Aldo, em perigo mortal, mas um acordo é imposto. O crápula,Hans Landa, iria para a América refugiar-se e lá desfrutaria de uma bela vida e, em troca, ajudaria a acabar com a guerra traindo os alemães. Aldo, recebendo ordens superiores, concorda, desacreditando a situação; assim são levados à fronteira com a Alemanha, no meio de uma floresta. Porém o “Apache” de olhos azuis não se conforma com esse final feliz para um desqualificado como o oficial nazista e resolve dar sua própria versão a esta história. Agora eu escrevo uma fábula infantil para esse momento: “meninos, não façam muitas estripulias em frente à sua mãe perversa, porque ela pode querer puni-los duramente, quando estiver esgotada.” Deste modo nosso cruel oficial alemão carregará para o resto da vida sua marca merecida.
Esse é um filme muito bem dirigido, com um elenco de primeira, cenas muito bem filmadas e bonitas, apesar da violência há humor refinado e uma trilha sonora com músicas que valorizam cada atuação. O comportamento humano é bem analisado, a sequência dos capítulos aparece para elucidar melhor a história e seu desenrolar, e a narração não tem a ver com “verdade histórica”; é uma narrativa que se encaixa perfeitamente nesse período da Segunda Guerra mundial. Para os fãs de Pitt e Tarantino é um programão!

sábado, 3 de outubro de 2009

SALVE GERAL de SÉRGIO REZENDE







Este ótimo drama, baseado em fatos verídicos acontecidos em São Paulo no ano de 2006, tem duas protagonistas de muito peso. A brilhante Andréa Beltrão vivendo Lúcia, e uma escolada advogada do PCC, Ruiva, (excelente Denise Weinberg). Esse filme deverá ser assistido sem juízo de valores, pois apesar do pano de fundo político, ele conta uma história que fará você direcionar-se somente a favor dos facinoras. Na primeira cena, vemos um belo piano de calda, sendo baixado através de uma janela de um prédio, por cordas e embrulhado em um tecido vermelho. Sua proprietária é Lúcia, que observa a descida de seu adorado piano como a sua própria descida de classe social. Viúva há cinco anos e sem nada para continuar a viver vai morar com o jovem filho, Rafa, em uma pequena casa na periferia de São Paulo. Apesar de ser advogada, dava aulas de piano, sua grande paixão, para sobreviver. No primeiro dia das mães nessa casa, onde o piano ocupava o maior espaço, Rafael mete-se num racha de carros, onde mata, acidentalmente, uma jovem e vai preso. Sua pena será de oito anos de reclusão. Essa mãe educada e amorosa terá que lidar com um mundo totalmente estranho ao seu, para livrar seu filho da prisão merecida. Por ele fará qualquer coisa e se sujeitará a tudo. Na porta da prisão, em um dia de visita, conhece uma advogada do PCC, Ruiva, que a reconhece como uma mulher em que poderia confiar e tirar proveito disso. Ruiva possuía um salão de beleza como fachada para o tráfego de drogas e administração do grupo criminoso. Depois de prestar grandes favores a Lúcia, acaba por aliciá-la a trabalhar para o partido. Lúcia tem agora a mesma preocupação: cuidar e livrar seu filho. Obrigada a vender seu piano, passa a integrar-se cada vez mais nos planos e ações da facção. Ações de corrupção da polícia, em todos os níveis, aliando-se ao PCC, são mostradas e exemplificadas. As coisas tomam tal rumo que ela é obrigada a abrir um negócio em Foz do Iguaçú, para ajudar Ruiva. Em uma de suas missões conhece um preso, chamado de Professor por sua erudição, e apaixona-se por ele. Andréa Beltrão tem uma representação contida, sofrida e apavorada, na medida certa, para essa mulher culta de classe média, que submerge no mundo do crime. Apesar de todos os sacrifícios, ela ainda é uma pessoa vibrante, necessitada de carinho e sexo. Todavia, seu amor também é assassinado. O chefe do grupo vai se livrando de seus membros, sem hesitação, à medida que se faz necessário. Eles dizem protestar contra a superlotação dos presídios, por justiça e paz. Descobertos pelos policiais de que haveria uma explosão na Bolsa de Valores e em dois aeroportos, esses homens vêm-se obrigados a reagir, mandando os líderes para uma prisão de segurança máxima. Aí se dá o Salve Geral, ou seja, quem estiver na rua atacará a sociedade civil, assim como os que estiverem presos atacarão os policiais. Sem domínio, a cidade de São Paulo vira uma praça de guerra, com bancos, escolas, delegacias, lojas e ônibus incendiados e dezenas de pessoas chacinadas, sem razão alguma. Rafa também terá de cooperar com o bando, como motorista. Nem mãe nem filho sabem que estão infiltrados nisso até o pescoço. Diante dessa metrópole desgovernada, Lúcia procura loucamente por Rafa. No filme, a polícia, finalmente, resolve entrar em um acordo com os bandidos, pois nada mais poderiam fazer. O caos estava instalado. No quarto final, Lúcia e Ruiva desentendem-se, mas Denise Weinberg tem a decência de morrer fora da casa de sua amiga. Mãe e filho reencontram-se, sem um final fechado, após terem cometido crimes gravíssimos.
Esse é um filme de grande plasticidade, imagens perfeitas, interpretações pungentes e, a meu ver, ótima direção. Não vemos apelos desnecessários. Os créditos são nas cores brancas e vermelhas e não deixem de observar, no final, que os nomes das personagens são vermelhos e dos artistas brancos, que saem aos poucos por cima do final dos nomes vermelhos. A música é erudita. Belo filme, que já provoca polêmicas. O diretor não considera o filme uma denúncia, mas sim um acontecimento social. Foi o 11 de setembro de São Paulo, afirma.