domingo, 18 de janeiro de 2009

ALGUÉM Q ME AME DE VERDADE Stefan e Diane











Dirigido por Stefan Schaefer e Diane Crespo
Este filme dirigido pelos documentaristas Stefan e Diane parece nos dizer: acreditem nos seus sonhos, sigam seus instintos e sejam felizes! Nem que seja por 89 minutos! É uma estória leve e muito bem contada sobre duas garotas de cerca de 20 anos, uma mulçumana e outra judia, ambas ortodoxas, que estão na idade de se casarem. O filme abre nos mostrando os telhados de casas dos bairros judeu e mulçumano e segue até um escola infantil para crianças. Lá estudam crianças de todas as raças e credos, assim como a diretora que é uma atípica judia e os professores também de variados credos e nacionalidades. Antes das aulas se iniciarem elas fazem um workshop para aprenderem a lidar com as diversas situações decorrentes dessa variedade de raças. Dentre elas temos a bela judia ortodoxa Rochel (Zoe Lister Jones) e não Rachel e a linda mulçumana Nasira (Francis Benhamou). Ambas são convictas de suas religiões e gostam de serem como são: ortodoxas e seguidoras de seu Deus. Ocorre que durante esse trabalho preliminar elas acabam se conhecendo melhor e se admirando. Durante uma aula, as crianças acham que elas seriam inimigas mortais, pois “os mulçumanos queriam jogar os judeus no mar.” Através do exercício “círculo de união”, sugerido por Rochel, os pequenos aprendem como lidar melhor com as diferenças, dando chance para que todos se mostrem como são e não como aparentam ser. Amigas, Rochel convida Nasira para estudar em sua casa, mas a garota é imediatamente repelida pelo preconceito da mãe judia. Isso não funciona, pois elas são independentes, cultas e inteligentes para não romper uma relação amigável. Apesar do absurdo desacordo entre essas duas religiões no Oriente Médio, em especial na Faixa de Gaza, essas duas religiões monoteístas são muito parecidas – o uso do véu, a modéstia feminina, o toque masculino proibido e principalmente o casamento arranjado pelos pais (arranged do título). Os primeiros pretendentes de Rochel são absurdamente inadequados e ela entra em pânico, chegando a refugiar-se na casa de uma prima, que abandonara o judaísmo para viver em um mundo secular e mais livre. Todavia, lá também não é seu lugar. O interessante é que em uma festa ela prova seu primeiro gole de bebida alcoólica, uma caipirinha brasileira, que apesar de deliciosa é muito forte! Voltando para casa recusa-se a passar por tudo aquilo novamente, preferindo ficar solteira. Sua mãe apela para o sentimento de culpa de todas as formas possíveis chamando-a de egoísta e muito mais. Ao mesmo tempo vemos Nasira passar pelo mesmo calvário. Homens de todos os tipos lhe são apresentados, com uma agravante – a família toda do pretendente vem junta. As duas jovens trocam confidências sobre seus problemas sentimentais e se consolam mutuamente. Um dia Nasira vai à Universidade de seu irmão para dar-lhe um livro, acompanha da inseparável Rochel, quando esta vislumbra um judeu ortodoxo, por quem se apaixona a primeira vista e sente ser correspondida por um significativo olhar. Porém entre os judeus é impossível uma jovem abordar um rapaz ou vice versa e começarem a namorar. Isso deve ser feito através de um match-maker (casamenteiro) indicado pela família. Nasira, enfim, é apresentada a um futuro engenheiro, um rapaz jovem, bonito, inteligente e com dentes (o último não os tinha e era 20 anos mais velho do que ela, mas era rico). Feliz resolve que Alá a ajudara a encontrar seu marido, ortodoxo, mas onde existe uma bela química. Assim fica sabendo do encantamento de sua amiga Rochel pelo jovem ortodoxo e resolve dar uma mãozinha a Deus e à match-maker, Irene Stein. No corredor da universidade de computação, tira fotos do rapaz e dizendo ser aluna de jornalismo pergunta sobre sua vida pessoal. Ele não era casado! Coloca tudo em um envelope e se fazendo passar por judia não ortodoxa, deixa o envelope na casa de Irene, que se apressa em visitar Rochel e mostrar-lhe mais cinco pretendentes. A jovem não acredita em sua sorte e quer marcar um encontro com ele. Bem não é preciso contar o resto do destino das duas garotas. No final do filme uma cena nos mostra as duas amigas, sentadas em um banco de jardim, com seus respectivos carrinhos de bebê, conversando e admirando seus maridos, que são muito bons e que iriam penar em suas mãos, pois eles fariam o que elas quisessem!!!

sábado, 17 de janeiro de 2009

A TROCA de Clint Eastwood







Baseado em fatos reais ocorridos em Los Angeles.
Esse drama muito bem dirigido por Clint Eastwood transcorre na Los Angeles de 1928. A jovem Christine Collins (ótima Angelina Jolie) trabalha em uma companhia telefônica como supervisora e educa, sozinha, seu filho de nove anos Walter (Gattlin Griffith). Trata-se de um garoto educado e amadurecido. Em um sábado de folga, é obrigada a deixá-lo para substituir uma pessoa em seu emprego. Ao voltar ele havia desaparecido. Telefonando imediatamente à polícia fica sabendo que só poderia dar queixa 24 horas após o desaparecimento. Ocorre que são tempos de grande violência e corrupção dentro do governo e da polícia da cidade. Além disso, nessa época a mulher era extremamente descriminada e considerada tola e vazia. Desesperada tenta ser ajudada por um coronel corrupto e insensível. Seu caso vai parar na imprensa e um pastor presbiteriano (ótimo John Malkovich), que luta contra a corrupção que dissemina e avilta a cidade, decide ajudá-la. Depois de alguns meses de luta, um garoto com as mesmas características de seu filho lhe é entregue pelo coronel, que mesmo com a recusa de Christine em aceitar uma criança que não é seu filho, lhe impõe com brutalidade a criança, alegando que ela não se encontrava em seu estado normal. Mas o garoto, que se faz passar por Walter a chama de mãe para seu horror. Ao dar-lhe banho percebe que ele é circunciso e bem menor que seu filho verdadeiro. Ao expor isso à polícia vira uma vítima do sistema. A polícia, desde seu chefe até o coronel, inicia uma verdadeira batalha para acuá-la e constrangê-la. Nesse ínterim um detetive honesto vai ao encalço de um garoto canadense que estava irregularmente no país. Ao encontrá-lo em um rancho, em Riverside, leva-o à prisão, mas ele insiste em falar-lhe novamente. Esse rapazinho havia sido forçado pelo tio a ser cúmplice na morte de 20 crianças que estavam desaparecidas e que a polícia sempre encontrava um meio de não investigar e dar qualquer desculpa aos pais como fizeram com Christine. Porém esse caso e muito macabro para ser deixado de lado e inicia-se uma investigação pelo detetive. Enquanto isso a mãe de Walter inconformada volta diversas vezes à delegacia, até que é sumariamente enviada a um manicômio, sem nenhum mandato de prisão. O inferno era aquele local, repleto de mulheres encaixadas no código doze, ou seja, haviam de algum modo enfrentado a polícia. O machismo reinante na época era estarrecedor e essas pobres almas não tinham nenhum modo de provar sua inocência ou se defender. Eram drogadas e submetidas a choques elétricos, sob a menor alegação. Os médicos e enfermeiros eram totalmente coniventes com a corrupção política e policial. O pastor e a sociedade ao descobrirem mais esse escândalo de Riverside, encoberto pelos policiais, saem às ruas numa verdadeira comoção pública, onde vemos cartazes pedindo a demissão de toda polícia local. Um famosíssimo advogado é contratado, sem custas, para defender Christine que se acha presa como louca. Ela é solta imediatamente pelo modo irregular como fora jogada no manicômio assim como todas as outras companheiras de infortúnio. Um processo da jovem contra a polícia é aberto e desperta o interesse da nação, pela fama do advogado e pelas circunstâncias. Finalmente os retratos das crianças violadas e mortas são exibidos e dentre eles está o menino Walter. O pequeno farsante é devolvido para a mãe. Havia fugido para ver o cavalo de um dos astros do western americano! Nesse momento ele grita que fora forçado pela polícia a se fazer passar por quem não era. São cenas emocionantes, onde vemos o sofrimento do garoto que havia sido cúmplice de seu tio e das mães que ainda tinham esperanças de voltar a encontrar seus meninos, dentre elas nossa heroína. Outro processo é aberto contra Gordon, o qual havia fugido para a casa da irmã em Vancouver, mas a polícia local já o estava esperando, sendo preso e enviado a Los Angeles para ser julgado por seus crimes. Tratava-se de um psicopata frio e covarde que negava todas as mortes. Esses dois julgamentos paralelos nos são mostrados e deles participam Christrine e seu defensor. Finalmente, através de um trabalho preciso e brilhante do advogado e da sociedade, todos são punidos e destituídos de seus cargos e o prefeito impedido de se reeleger. Contudo dois anos depois, nas vésperas do enforcamento do brutal assassino, ele pede que Christine compareça a prisão. Ela aceita imediatamente, pois ainda sentia a presença física de seu filho. Os dois ficam frente a frente, entretanto não passava de mais uma farsa para deixar a mãe esperançosa com a possibilidade de vida de Walter. O enforcamento prossegue na presença dos implicados e mais uma vez Clint Eastwood nos brinda com uma excelente demonstração de sua direção. Cinco anos se passaram e Christine ainda não desistira de sua missão, quando recebe um telefonema de uma das mães dos pequenos assassinados, dizendo que seu filho David fora encontrado, mas que estava dando depoimento à polícia em sigilo. Através do vidro vemos o menino dizer que havia escapado, pelo meio do arame farpado, com ajuda de Walter, mas Gordon os havia visto e atirado loucamente em direção a eles. Os três se separaram, contudo ele não sabia do destino dos outros dois. O filme vai chegando ao seu final e quando encerra a última cena, lemos que Christine nunca havia deixado de procurar seu filho até o fim de seus dias e que essa é uma história verídica que abalara toda a sociedade!

O elenco é ótimo, os trajes de época bem feitos e a direção e interpretações seguras. Vale a pena ser visto, pois temos aí diversos problemas sociais como a maternidade fora do casamento, a corrupção do departamento de polícia da época dos anos 20, as dificuldades das mulheres em serem respeitadas, o machismo, o desmantelamento profissional das instituições de ajuda psíquica e outros problemas que ainda ocorrem até nossos tempos.

O Curioso Caso de Benjamin Button-David Fincher
























Baseado no conto de F. Scott Fitzgerald (1896-1940)

Este soberbo drama de fantasia inicia-se em um quarto de hospital em New Orleans, quando a idosa Daisy Willians (ótima Cate Blanchett) está em seu leito de morte, acompanhada por sua filha adulta, Caroline, a qual lê em voz alta a pedido da mãe, o diário do amigo de infância de Daisy, Benjamin Button. O furação Katrina está prestes a desabar sobre a cidade, assim como essa fantástica história de vida sobre nós. Estamos em 1918, no final da primeira guerra mundial. “Eu nasci sob circunstâncias anormais” começa o narrador Benjamin (Brad Pitt em desempenho colossal). Sua mãe morrera ao dar luz a ele, uma criança anormal, com uma síndrome que o levaria da velhice à infância. Seu rico pai biológico ao contemplá-lo decide desfazer-se do bebê, deixando-o na escadaria de uma associação para pessoas velhas e senis. Uma das encarregadas do local, Quennie, apaixona-se pela criança e decide criá-la. Sendo uma mulher extremamente caridosa e possuidora de muita fé, embala o bebê-ancião em seu regaço. Ele sofre de todas as doenças típicas dos idosos, pois estaria supostamente com mais de oitenta anos. Aos cinco anos e um velhinho careca, andava em cadeiras de rodas, mas é levado por Quennie à sua igreja de negros para que seja abençoado pelo pastor. Nesse momento ele começa a andar com muletas e assim prossegue sua infância, cercado por pessoas idosas que o aceitam como é e transmitem suas experiências de vida sem nenhum conflito típico dos adolescentes ou jovens adultos. Ele é um pequeno idoso, com uma mente de criança, depois de adolescente, um homem maduro e, no fim do drama, uma pessoa senil e sem memória. Essa maravilhosa estória nos fala da vida feita de tempos e espaços de alegria, compaixão, tolerância, amor, fé e principalmente sobre os fatos que ocorrem por força do destino e sobre os quais não temos controle algum e que desencadeiam os acontecimentos de nossa existência. No meio da película nos são mostradas cenas que demonstram essa conjugação de episódios que ocorrem sem que tenhamos domínio deles. Esse tipo de raciocínio aparece muito em Guerra e Paz de Leon Tostoy, que descreve os acontecimentos históricos como a soma de fatos que se entrelaçam. A vida inicial de Benjamin é compartilhada por seus amigos mais velhos e pela pequena Daisy. Passam a infância e adolescência convivendo, pois sua avó morava nessa associação. Aos dezessete anos ele parte de casa para viver em um navio cargueiro, no fantástico rio Mississipi, tornando-se um marinheiro e grande amigo do capitão, que representa uma figura masculina destemida e forte, encarando o desenrolar da vida sem medo ou hesitação. Participando da segunda guerra mundial, Benjamin adquire uma grande experiência de vida, indo parar na Rússia e se apaixona pela primeira vez. Sua aparência mais velha faz com que todos lhe confiram a maior credibilidade!Todas suas viagens são relatadas em cartões postais que envia para Daisy, até o fim de suas longas excursões. Um dia retornado a casa, encontra-se com Dayse já moça e bailarina. Uma paixão nasce, mas é impossível pela diferença de idade entre eles, pois Benjamin ainda é um homem bem maduro. Contudo por volta dos quarenta anos de cada um, eles se encontram e refletidos em um espelho, olham-se demoradamente para que este momento fique eternizado em suas mentes. Ele estaria com 49 anos e ela com 43. Seu verdadeiro pai procura-o e a recepção não é o que poderíamos imaginar. Uma trágica e envolvente história passa a marcar a vida desses dois amantes, Daysi e Benjamin, pois ela se tornaria sempre mais velha e ele sempre mais jovem e existe uma menina para educar. O relógio do tempo natural trabalhava contra eles! É representado por um relógio construído pelo melhor relojoeiro do país, que o faz andando para trás no tempo, para que resgatassem na lembrança os filhos mortos na guerra. O quarto final do filme passa-se em 2005, onde começara, no leito de hospital com o furacão em pleno auge sobre a cidade, e a doente e sofrida Daisy em seus momentos finais com sua filha, que surpreendida pelos fatos e com um desfecho impressionante nos faz pensar no que é bastante repetido durante o drama - que nada é eterno e que nunca é tarde para começar!
Essa quase fábula nos ensina a tolerância e um novo aspecto de encarar a vida, com um bebê no corpo de um velho, que paulatinamente vai rejuvenescendo até chegar à morte, em uma cena maravilhosa com sua esposa e os conflitos decorrentes dessa inversão de tempo e experiências pessoais. O desempenho de todos os artistas é impecável, prestando ainda mais credibilidade à película. O trabalho de rejuvenescimento de Bred Pitt é impressionante! Palmas para o filme!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

FELIX E LOLA De Patrice Leconte












Este drama psicológico é tipicamente o cinema frances de Leconte. Primeira cena – um cantor de música romântica está se apresentando com um conjunto em uma boate, em seguida vemos um jovem, sentado em uma mesa, observando-o. Ele, com toda calma, tira um revolver e atira no cantor. A tela escurece e somos conduzidos a um parque de diversões, com toda sua agitação e barulho. É uma história sobre um jovem homem, Felix (Philippe Torreton em bom desempenho) um tanto depressivo e Lola (Charlotte Gainsbourg). Eles formam um casal angustiante, pois Lola é manipuladora, mimada e misteriosa. Felix a aceita mesmo assim, pois se apaixonara por ela à primeira vista. Felix e seus familiares são os donos do parque e a jovem de trinta anos tem uma história que não fecha e está sempre atormentada e infeliz. Esse fato altera a vida de Felix e sua família, pois sendo um homem bom, não quer forçá-la a contar o que não consegue. Com um final quase surpreendente, a vida de Lola nos é revelada a muito custo, por ela mesma, dando um sentido maior a narrativa, que está sempre sem uma explicação mais lógica.
O filme só estreou no Brasil sete anos depois e não consigo julgar o porquê, já que não temos nada de extraordinário!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

UM HOMEM BOM de VICENTE AMORIM











Baseado na peça teatral Good de C.P. Taylor
Este foi um dos filmes mais pungentes e esclarecedores de 2008. Começa em 1937, Berlim, quando um jovem homem de óculos é levado, no banco traseiro de um carro, até um dos Ministérios do Terceiro Reich (partido único), a fim de prestar esclarecimentos a um alto funcionário da SS. Ele é o Professor John Halder (soberbo Viggo Mortensen), o qual se encontra intimidado pela ordem recebida de lá comparecer. Professor de Literatura havia escrito uma novela sobre a eutanásia, onde o marido mata a mulher muito doente por questões humanitárias. O próprio Hitler havia lido e, ao contrário do que estava temendo, gostado muito de seu enfoque. Ele é convidado, ou melhor, obrigado a se filiar a SS, pois o ditador queria juntar o maior número possível de “cérebros” em seu partido. Voltamos para 1933 e Halder, casado e pai de dois filhos, dá uma aula sobre interpretação literária (note na lousa, está escrito Dostoievsky, Tolstoy, e Freud), quando um tumulto impede que prossiga, pois jovens estudantes alemães, pertencentes à juventude hitlerista, estão queimando milhares de livros, cujos conteúdos não seguem a doutrina nazista. Lá estão toda a sabedoria e inteligência da humanidade! Esses jovens eram doutrinados para descartar e aniquilar tudo o que não fosse puramente ariano, uma fantasia de Hitler que era muito místico, o qual queria formar um novo mundo, eliminando tudo que fosse desprezível: intelectuais não simpatizantes, judeus, católicos, doentes, homossexuais e deficientes físicos. Halder fica chocadíssimo com o fato, mas é aconselhado a se juntar à SS, pelo chefe da equipe, a fim de não perder o emprego ou ser morto. Halder não acreditava nessa absurda filosofia e compartilhava esses sentimentos com seu melhor amigo e analista o brilhante judeu Maurice Israel Glückstein (excelente Jack Isaacs). Ambos eram amigos desde a guerra de 1918 e falavam a mesma linguagem de liberdade. O jovem professor cuidava da casa e da mulher neurótica, além da mãe tuberculosa e esclerosada (ótima Gemma Jones). Esse talentoso catedrático é envolvido por uma aluna da área de história, Anne (Jodie Wittaker), que se aproxima dele, sob o pretexto de se encontrar como pessoa, mas que acaba tornando-se sua amante. Ele está muito pressionado por problemas familiares e se envolve com ela, que era como um ar fresco, diante de tantas dificuldades que passavam durante aquela época. Maurice fica incrédulo quando sabe que seu amigo havia deixado a esposa, filhos e levado a mãe para sua casa no interior da Alemanha, para morar com Anne em um pequeno apartamento em Berlim. Fica estarrecido, também, quando John lhe propõe que saia da Alemanha, mas ele também era alemão e havia sido combatente de guerra.Voltamos para 1938 e Halder já havia subido muito profissionalmente desde que se engajara no partido, apesar de ser uma posição intelectual, pois estava escrevendo um ensaio sobre a eutanásia humanitária, baseado em seu romance. Está casado com Anne, que espera seu primeiro filho. Agora moram em um belíssimo apartamento de uma família judia, que fora forçada a abandoná-lo, com seus moveis, quadros, tapetes, louças e pratarias. Essa era a prática oficial na Alemanha, naqueles idos dos anos 30, e os principais oficiais e agentes da SS ocupavam esses imóveis. O ético e livre pensador, John Halder, está bastante mudado e acha que é possível “conviver” com aquele regime, já que era inclusive casado com uma mulher pertencente ao partido nazista. Anne mostrou-se uma mulher sem conteúdo e dedicada aos planos de Hitler. Os imponentes prédios de Berlim eram enfeitados com faixas de veludo e seda vermelhas, com a suástica impressa em grandes formatos. Diversos grupos de pessoas simpatizantes marchavam com a bandeira nazista nas mãos, orgulhosas de seus atos, o que Halder havia abominado tanto. No meio delas havia também os soldados da SS, os quais aniquilavam os que fossem contra o regime. Na Noite dos Cristais, John Halder é convocado para participar, como oficial, da perseguição e extermínio dos judeus. Ele fica desesperado e horrorizado, pois ainda não havia conseguido um bilhete aéreo para seu melhor amigo Maurice, que agora precisava fugir o mais rápido possível para Paris, a fim de resguardar sua vida e dignidade. Isso já havia sido requisitado há algum tempo, mas Halder sempre encontrava um empecilho para fazê-lo, com medo de se comprometer. Excitado parte para a estação, a fim de obter a passagem, que só lhe é vendida através de coação. Chegando a casa pede para que Anne entregue a Maurice o bilhete aéreo, pois sem isso ele estaria morto. Relutante ela promete que o fará e pede para que ele se olhe no espelho. Estava fardado, com quepe e capa, sendo o mais perfeito protótipo do oficial alemão! A noite é muito longa e aterrorizante, com os pobres judeus expulsos de casa, sem nada levar, e amontoados em carroças a fim de serem despachados aos campos de concentração. Halder, apesar de seus esforços não acha Maurice, mas deixa um recado escrito para que vá à sua casa. Na manhã seguinte, quando chega, encontra Anne dormindo e ela diz que seu amigo não havia ido até eles. Nesse ínterim sua mãe morre e ele se encontra com sua ex-mulher, que continua admirando-o, assim como seus filhos. Ela se acha muito bem, dando aulas de música clássica, que era a paixão de Halder, especialmente Mahler, seu compositor predileto com suas lindas sinfonias. Já em 1942, em plena guerra, ele continua trabalhando como consultor da SS, em casos de doenças e ética. Não está absolutamente feliz com o desenrolar das batalhas e suas conseqüências maléficas sobre toda a humanidade. Porém ele é escalado para trabalhar em campos de reassentamento, ou seja, campos de concentração, na Silésia. Halder não podia parar de pensar em seu grande amigo desaparecido, e quando é interrogado por seu relacionamento com ele, aproveita a oportunidade para “testar a eficiência da Gestapo” e menciona seu nome para ser descoberto dentre os milhares de arquivos existentes de judeus destituídos ou mortos. Seu arquivo é encontrado em minutos e ele segue para casa com a mais profunda convicção que Anne havia estado com Maurice, mas o delatara aos oficiais nazistas. Abandonando-a, segue, desesperadamente, à procura do campo de concentração que Maurice havia sido enviado. Esse final de filme é muito doloroso e arrebatador, pois nos são mostrados os judeus trabalhando em serviços forçados, magros, doentes e muitos mortos pelo cansaço, levados a terrenos cercados de arame farpado para serem jogados em valas comuns. A atuação de Viggo Mortensen é fenomenal, pois comovido e roído pelo remorso busca em cada face, em cada gesto a figura de Maurice dentre os milhares de prisioneiros. Em uma esquina barrenta do campo, havia um grupo de judeus que chama sua atenção, pois tocavam Mahler e sua sinfonia predileta. Com os olhos embaçados pelas lágrimas gira em volta de si, à procura de seu amigo, mas tudo o que vê é outros vagões chegando com centenas de mulheres, crianças e homens desesperados ao encontro de seu fim.

domingo, 7 de dezembro de 2008

MIL ANOS DE ORAÇÃODe Wayne Wang







Uma estação ferroviária. Um senhor chinês vai ao encontro da filha. A esteira traz diversas malas e a com uma fita vermelha (da revolução) é a dele. Assim começa esse belo drama psicológico. Pai, Shi (Henry O) e filha Yilan (Feihong Yu) vão para a casa dela; há doze anos não se vêem. Ele estava, agora, aposentado e viúvo. Depois de acomodá-lo, pede para que ele descanse, mas Shi vai ajudá-la a preparar o jantar. Fizera um curso de culinária na China e quer preparar algo especial para a filha. Vemos um “banquete” e Yilan pede que não faça tanta comida. No dia seguinte ela sai para trabalhar e, nesse momento, começa o choque entre gerações. Shi preparara um ótimo café da manhã, mas o tempo que ela tem é escasso, pegando apenas algumas comidas industrializadas, sai para o trabalho. Seu velho pai tenta comunicar-se com ela através das iguarias que faz, mas é em vão. Ela aparenta ser triste e Shi quer ajudá-la. Talvez um pouco tarde demais? Sempre só em casa, observa o quarto de Yilan, limpando algumas peças e dedicando-se à leitura e ao seu caderninho com palavras em inglês. A diferença cultural entre os americanos e chineses é muito grande, mas ele gosta da América e de seus habitantes, livres, sem correntes! Com um vocabulário de uma dezena de palavras, se relaciona com diversas pessoas do condomínio onde moram. No parque, torna-se amigo de uma bonita senhora iraniana. Ele fala chinês ela iraniano, contudo os dois tornam-se grandes amigos. Alguns substantivos e verbos, os mais primários, são falados em inglês. Isso ele sabem dizer em um mesmo idioma – é um laço que os une - mas quando falam de suas emoções, dificuldades e perdas, é na língua mãe que se expressam, entendendo-se perfeitamente bem! Seus semblantes e gestos são mais importantes do que as palavras, que na maioria das vezes não traduzem a verdade. Shi convive muito bem com todos, menos com sua filha, pois demonstra ser uma jovem ressentida e infeliz. Sabemos que ela é divorciada e que seu pai quer ajudá-la a ser feliz, para poder ir embora. Ele pondera que já havia falhado uma vez e não gostaria de repeti-lo. Era engenheiro e trabalhara com foguetes espaciais, nos tempos da revolução cultural e se orgulhava disso e de suas convicções marxistas, pois estudara russo e pertencera ao partido. Yilan sente-se invadida pelo pai e ressentida com ele. Sua maneira de ser, apesar de gentil e acessível, é oriental, um tanto autoritária e inaceitável para o ocidente. O pico da desavença entre os dois não tarda a chegar e Yilan, muito constrangida, fala o porquê de sua angústia e tristeza, pedindo perdão por tê-lo magoado. Porém Shi não se ofendera, ficara surpreendido com sua franqueza e, através de uma parede, para não encará-la, conta sua verdadeira história. Yilan narrara, nesse ínterim, um ditado chinês que dizia serem necessárias trezentas orações para atravessar um barco com alguém, e três mil orações para deitar a cabeça no mesmo travesseiro com outra pessoa! Só assim você a conheceria realmente! Nesse quarto final de filme há uma transformação no relacionamento de ambos que é, nitidamente, refletida em suas fisionomias. A película fecha em um trem com Shi continuando a conversar em mandarim e sua parceira de viagem, em inglês. Estão bem e felizes! Verdadeiramente a língua não é uma barreira intransponível, os atos muitas vezes sim.
Foi mais um ótimo filme do premiado diretor Wayne Wang e com a soberba representação de Henry O. Essa história quando não falada, diz mais do que qualquer diálogo escrito. Vale muito a pena ver esse belíssimo drama.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

APPALOOSA UMA CIDADE SEM LEI de Ed Harris









Um rancho habitado por sem leis, chefiado por Bragg (Jeremy Iron), tem seus homens armados até os dentes à espera de alguém. Galopando chegam três homens- o delegado e seus auxiliares. O cenário é do velho-oeste, o sol brilha inclemente e a poeira sobe quando os cavalos param. Um homem é acusado por assassinato de uma pessoa e estupro de sua mulher. O delegado viera para prendê-lo e enforcá-lo, mas antes de qualquer reação os três representantes da lei são assassinados. Começa o filme com a narração de Viggo Mortensen. É uma narrativa simples e limpa, com poucos diálogos, onde as ações, circunstâncias e sentimentos é que predominam. A história é a preferida dos westerns: uma pequena cidade sem lei é atemorizada por um homem ganancioso, culto (lera Emerson) e brutal. Os conselheiros do local contratam dois matadores implacáveis, que “agem dentro da lei.” Já haviam sido soldados, mas cansados com a profissão tornaram-se justiceiros. Virgil Cole (maravilhoso Ed Harris) será o delegado e Everett Hitch (excelente Viggo Mortensen) o ajudante. Ambos são inexoráveis quanto à ordem do lugarejo e isso contraria muito Bragg, que se acostumara a mandar na cidadezinha. O tema de justiça é discutido - não, visto - através de assassinatos sem hesitação e brutalidade. Quase ao mesmo tempo, chega à cidade uma jovem bem vestida, educada e bem dotada, pois tocava piano e órgão além de cozinhar bem, Allison French (ótima Renée Zellweger). Ela será a peça decisiva nesse jogo de xadrez, pois todos se apaixonarão por ela, que se oferecerá ao macho dominante, e as razões desse comportamento são muito plausíveis em um mundo exclusivamente masculino e violento. Virgil se encanta por ela desde a primeira vez que a vê e será um amor sincero, sem expectativas, a não ser a de estarem felizes juntos! Hitch representa a amizade incontestável entre homens daquela época, pois sem ela estariam fadados ao fracasso e à morte, esse tema eterno que se repete sempre. Ele é um amigo fiel, inteligente que se mostra quase como a consciência de Virgil, que confia no amigo cegamente. Veremos cenários magníficos dos cannyons, o céu azul e brilhante que ofusca nossa visão, riachos, uma vegetação selvagem com muitas flores e o vento que corta e enruga a pele das pessoas. O tema da ocupação européia sobre os índios americanos acontece, igualmente. Um julgamento importante é anulado pelo presidente dos Estados Unidos, recém libertados, porém a vida tem de continuar com a justiça feita pelas próprias mãos! Ragg se torna um homem importante e influente simbolizando o orgulho e o passado, riscados da vida dos indivíduos perigosos e influentes. O final da história é bom, apesar de um pouco previsível, mas traz alento e alegria à película, não fazendo dela um simples filme de bang-bang sem conseqüências. O filme foi baseado no livro de Robert B. Parker, de 2005.